O ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), é o meu novo herói nacional. Brecht disse “Infeliz do povo que precisa de heróis”. O teatrólogo, alemão e comunista, herói do seu povo durante o nazismo, tinha preparo para fazer tal afirmação. Como não o tenho, não me envergonho de admitir que preciso de heróis. Proclamo meus heróis os Cem Mil da Vaia Medalha de Ouro na abertura do Pan, a vaia que mudou a nossa história.

O ministro Barbosa também vai mudar a nossa história. Entrou em campo defendendo o time dos capas-pretas do STF, sob desconfiança geral da torcida. O time, como os da Copa do Mundo, tem onze elementos. Um deles não quis disputar a partida contra o time do seu coração e pediu para sair. O STF jogou com dez mesmo.

Eu ali na geralzona, roendo as unhas de nervosismo antes do jogo começar.
A bandeira CANA NELLES desfraldada.

Confesso que não tinha muita esperança. O que mais queria era endurecer o jogo. Nada da moleza que foi naquela sova que levamos dos mensaleiros no congresso, quando uma rebolativa bailarina dançou o imor(t)al clássico do ballet, a Dança da Pizza, em comemoração à vitória.

Eu prendia a respiração e fazia figas, enchi a casa com incensos acesos – eu quero a revanche daquela noite negra no congresso.

O pé do ministro Barbosa sobre a bola. Faria o lançamento definidor do tempo em que vivemos. Fala-se na minha cidadezinha que “Nunca se sabe o que sai da urna e da cabeça de um juiz.”

Saíram das urnas quase sessenta milhões de votos você sabe para quem.

O ministro, entre o meio de campo e a sua grande área, caído para a direita.
No meu álbum de figurinhas da metade do século passado, poderia ser chamado de “alfo” (half) direito. Seria hoje o “ala”, se for mais defensivo, ou “volante”, como os caçadores de Lampião, se for mais atacante.

Olhei com os olhos que viram a sublime seleção de 70.

Vi ali Gerson, o canhotinha, reinando despótico naquela região, como um limpador de para-brisas, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, parado com o pé sobre a bola, como está o ministro Barbosa neste momento, dando um tempo para o dream-team respirar, organizar-se, achar seu lugar no campo, à espera do passe milimétrico, agora é “assistência”, meio gol feito, para o atacante marcar.

Coitado de mim, era querer demais.

Olhei com olhos de são-paulino, zelite que sou. Rogério Ceni! O ministro Barbosa seria Rogério Ceni. Marca gols e defende pênaltis. Organiza, lidera, faz lançamentos precisos de setenta metros, como contra o Figueirense. Saiu do gol como um líbero, cortou o ataque dos hunos e lançou a bola perfeita. O São Paulo, razão da infelicidade geral do povo córintchano, lulla inclusive, classificou-se para a Copa Sul Americana.

Os Deuses dos Estádios não permitem que os nossos anseios interfiram com Seu Poder. Nem Gerson nem Rogério Ceni. Foram, sim, ao dream-team de 70 pegaram a Camisa 10 do Pelé e entregaram-na ao ministro Barbosa. Eu vi o Negão jogar.

Possuído pela Camisa 10 do Pelé, tomado por aquele Exu divino e infernal, o ministro Barbosa jogou como o craque que é. Detonou o fato mais importante do século XXI neçepaíz até agora. Mais importante até do que a eleição à presidência do ex-pobre, ex-migrante, ex-metalúrgico e palanqueiro em tempo integral.

A Quadrilha dos 40 prestará contas à Justiça. Os quadrilheiros zé “eu nunca fiz nada que o lulla não soubesse” dirceu, gushiken, “nosso” delúbio e genoíno são réus, estão na marca do pênalti. Eu vi o Negão julgar.

“Oi, zum, zum, zum, zum zum zum… Tá faltando um…”

A lama lambe os pés do Chefe, que pode escapar ileso. Mas os capa-pretas vão indagar-se o tempo todo “Quid Profitas”, a quem o crime beneficia.

Todo mundo sabe o nome da rosa. Então, por que não foi denunciado?

Diz-se que “não havia provas concretas”. Diz também que não há crime perfeito, uma pegada ou digital sempre sobra e acaba aparecendo.

Por muito menos Nixon renunciou, por muito menos collor caiu.
 
NEGÃO, JULGAI POR NÓS.