Chávez começou a ganhar o carnaval deste ano com uma enorme crise no ano passado na Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. Num concurso interno, o samba-enredo criado por Martinho da Vila foi derrotado e Martinho da Vila, ícone da escola, ficou tão injuriado que se afastou e nem desfilou no carnaval. O samba-enredo vencedor era do tipo “soy loco por ti América”, com uma forte marca latino-americana, tinha até um boneco de Simón Bolívar de uns oito metros de altura. E levou uma injeção de estimados um milhão de reais da estatal de petróleo da Venezuela. Até correu o boato de que Chávez viria pessoalmente assistir ao desfile, não veio. Deu sorte. A Unidos de Vila Isabel ganhou o carnaval numa apuração emocionante, disputando centésimo de ponto a centésimo de ponto com outras escolas e no final com a Grande Rio, com quem terminou empatada. O critério de desempate que deu a vitória sobre a Grande Rio foi, imaginem, o samba-enredo “latino”. Imediatamente os sites da internet espalharam a notícia “a escola bolivariana ganhou o carnaval carioca deste ano “. Assim mesmo, com essas exatas palavras, “escola bolivariana”. E bandeiras da Venezuela apareceram na comemoração da vitória na quadra da Unidos de Vila Isabel. Chávez ganhou.
A Grande Rio, que teve o mesmo número de pontos, mas amargou o vice-campeonato, não é pouca porcaria. Tradicional reduto de belezas globais, fica em Duque de Caxias, cidade que tem uma imensa refinaria da Petrobrás, que injeta desconhecidos milhões de reais na escola da “sua” cidade. É uma escola “protegida” pela Rede Globo e bancada pela Petrobrás, uma força nada desprezível em qualquer campo de competição. Perdeu para a bolivariana.
Mas mesmo ligada ao dinheiroduto da estatal Petrobrás, totalmente nas mãos dos cumpanheros do PT, a Grande Rio não tinha assim uma cara de governo, como a Vila Isabel teve uma cara bolivariana.
Quem entrou na avenida com a cara do governo foi a Mangueira. A Mangueira é mais do que uma escola de samba, é um estado de espírito. Para o paulista entender o torcedor da Mangueira, precisa entender o que é ser corintiano ou ser malufista. O mangueirense se morasse em São Paulo e não tivesse a Mangueira para ser apaixonado, seria corintiano ou seria malufista.
São fenômenos semelhantes na sua falta de semelhança, apenas uma coisa aproxima essas paixões – são paixões.
Foi através da Mangueira que os atuais Goebells do lullismo tentaram conquistar corações e mentes para uma das mensagens mais caras ao projeto de reeleição do Nosso Guia Infalível, a transposição do Rio São Francisco. Cara, porque está estimada em quatro bilhões de reais ou mais. Cara porque já faz parte do discurso de palanque do nosso novo Padim Ciço, já esquecido da greve de fome do bispo que emocionou o Brasil.
Com um enredo riquíssimo, com o Ministério de Infraestrutura que comanda o projeto de transposição fazendo lobby para que os governos dos estados da região do São Francisco irrigassem a Mangueira com verbas respeitáveis, a escola como sempre hipnotizou o sambódromo, passou a mensagem do governo quase como se fosse um comercial alucinógeno de uma hora e vinte minutos de duração. Mas não ganhou, chegou em quarto lugar com o mesmo número de pontos da Beija Flor de Nilópolis, vai a gente entender a cabeça dos jurados. Teve jurado que não deu dez para a bateria da Mangueira, reconhecida como a melhor entre as melhores.
Chávez deu um baile em Lulla em pleno sambódromo, mas tenho certeza de que não sabiam que um estava competindo contra o outro, eles são compañeros e se entendem muito bem.
Mas sabiam que estavam passando seu recado ao vivo e pela tv, para o povão que cantou seus refrões e vai cantar de novo no desfile das escolas campeãs, amanhã, como se não fossem o que realmente são – propaganda.
O carnaval virou merchandising, nada mais é sagrado. Não se surpreendam se um dia destes a missa acabar assim: “Ite missa est, Coca Cola is the best”.