Poderia ser um cowboy. Solitário, montou no cavalo com duas potentes armas nos coldres, foi lá e acabou com os índios. Não era cowboy, era um homem-bala sul-coreano, Cho Seung-hui, estudante de 23 anos, disposto a morrer igual um homem-bomba. Não eram índios, eram seus colegas da universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos.

São 33 mortos, estudantes, professores, o atirador e mais 29 feridos. Se não errou nenhum tiro, mandou pelo menos 62 balas no peito da classe média, origem da maioria dos 26 mil estudantes do campus, “garotos ricos e bagunceiros”, como deixou registrado em um texto. Zelite. Imagine o controle dos nervos para recarregar, no meio daquele inferno que se formou durante o tiroteio. Estudam lá 18 brasileiros, meninas e meninos entre 19 e 21 anos, felizmente escaparam ilesos. A contagem de corpos dá menos da metade das baixas nas noites de sexta e sábado no Rio e São Paulo. Mas a comoção é mundial. Aqui em Bagdá, parece que estamos anestesiados. A pior coisa da violência é essa, ficamos acostumados com ela e não ligamos mais a mínima. É como aconteceu com a corrupção, entranhada de alto a baixo no nosso tecido social. Honesto é otário. Com o engavetamento da denúncia a mercadante, o cérebro (!) dos aloprados, do dossiê fajuto Vedoin virou ficção. As malas de dinheiro, gravadas pelo sistema de segurança de um hotel de São Paulo, viraram divertidas vídeo-cassetadas. Esse é o exemplo mais recente. Num antigo, waldomiro diniz, ao vivo, braço direito do “capitão do time” zé dirceu, pede modesta propina de 1% a um bicheiro, na gravação que foi a Mãe de Todos os Escândalos.

Procuro nos jornais e na internet ajuda para entender Virginia Tech. Não acho. The New York Times iniciou um debate sobre o direito constitucional à posse de armas de fogo.

O atirador, que aparentemente suicidou-se, chegou ao país com 8 anos, filho de um casal organizado, proprietário de uma lavanderia, com a irmã em Princeton, uma das jóias do sistema universitário norte-americano. Não era produto de família disfuncional. Ao contrário. Talvez até funcional demais.

Acharam entre suas coisas a nota fiscal da compra de uma arma. Já teria a outra. Não comprou no seu honesto bandido da esquina, mas num estabelecimento legal, mostrou documentos (é de lei), pagou, pegou a nota. Deve ter comprado munição para as duas armas. Vi a foto de uma das balas. É enorme, para pistola Glock 9mm, semelhante às da polícia, dizia a legenda.

O que haveria naquela cabeça? Nunca saberemos. Li um monte de hipóteses e fiquei no ar. Há a facilidade do acesso às armas, isso eu entendo. O autor de um livro sobre Columbine, outra escola onde 2 garotos vestidos como os personagens do filme “The Matrix” metralharam uns 12 colegas e suicidaram-se, fala da crueldade do sistema de competição na sociedade americana, que privilegia o “vencer” em detrimentos do “saber”. Os atiradores são descritos como solitários, carentes de apoio emocional. (Michael Moore fez o premiado documentário “Tiros em Columbine”).

Uma coisa eu sei, lá eles discutem tudo o tempo todo. Virgínia Tech será assunto de livros, estudos, ensaios, documentários e filmes. Podem levar a nenhum lugar. Mas eles não se calam. Você está ouvindo alguém aí discutir a nossa corrupção, pandemia, endemia é contagiosa?  Corrupção também é tiro no nosso peito. Calamos. “Silence like cancer grows”, escreveu o genial Paul Simon. Silêncio é como câncer, cresce. Se não mata, aleija.

BRASIL UM PAÍS DE TOLOS.
FALTAM 1.350 DIAS OU MAIS. DEUS NOS AJUDE.