Depois da sova na tv, o sujeito lança a Mentirobrás.
Neil Ferreira.
13 de outubro 2006 –
Geraldo lavou a minha alma naquele debate na Band. Eu acho que demorou demais e num ataque de cabotinismo vou citar a mim mesmo. Já escrevi aqui no DC “ou Geraldo e Serra dão um soco na mesa, ou vou votar no Zidane”. Geraldo provou que é do ramo, esperou o momento certo e como na “Marselhesa” da minha geração, escrita pelo Vandré, mostrou que “quem sabe faz a hora”. Não permitiu que ninguém escolhesse por ele, chegou lá e para surpresa geral caiu matando. Na linguagem que o sujeito costuma usar, a limpa e que pode ser publicada aqui, as metáforas de futebol, não a outra, aquela imunda revelada nas mais de trezentas páginas de palavrões do livro “Viajando com o Presidente”, o Geraldo deu um vareio de bola. Deixou o sujeito grogue no campo, parecia que tinha enfrentado três Garrinchas ao mesmo tempo. Você é jovem e não conhece o Garrincha. Pegue tudo o que falam do Ronaldinho Gaúcho e não apenas o que ele joga de verdade. Multiplique por dez e não chega nem na perna do Garrincha.
A perna torta, não a boa. “Imagem é tudo, realidade é nada”, montado nessa esperteza da sociedade da tv e das massas, o sujeito viveu até agora só da imagem e do marketing, mais nada. Sempre apostou tudo na imagem e se estiver nesses dias revendo a gravação do debate, deve estar ganindo pelos cantos, bebendo de castigo só água em cuia de queijo Palmira, embaixo da mesa. A imagem foi destroçada, começando pelos infelizes closes do seu rosto, em que deveria aparecer a face esticada e renovada pelo Botox, mas que foram dominados pelos olhos injetados, congestionados. O diretor de tv ou a câmera devem ser Geraldo. O sujeito estava tenso, amedrontado, às vezes abrindo a boca num esgar que pretendia ser um riso irônico.
Geraldo martelando “de onde saiu o dinheiro do dossiê fajuto”, “e os cartões de crédito corporativo”, “você está mentindo”. “Você está mentindo” foi repetido tantas vezes, que se fosse mesmo a luta de box, que os jornalistas entrevistados por unanimidade resolveram apresentar como comparação, ou o juiz tinha parado ou o cara do córner teria jogado a toalha. O sujeito mal conseguia ficar sobre as pernas, estava nocauteado em pé.
Geraldo não deve ter conquistado nenhum único voto do sujeito. Eu sei e ele sabe que não se seduz com fel, mas com mel. Acho que Geraldo fez o que fez para dar voz à indignação nacional, para arrancar o grito que estava atravessado no peito do seu eleitor, que queria ver o sujeito confrontado com a lama produzida pelos seus meninos aloprados.
Foi a primeira vez que isso aconteceu. Teve que encarar a lama e sentir o cheiro do esgoto. O sujeito não aguentou a barra e tratou de se fazer de vítima, o coitadinho massacrado pelo “delegado de porta de cadeia”, mas o lugar de delegado é na porta da cadeia, que é onde o criminalista Thomaz Bastos dá plantão permanente, tantas são as novas causas que recebe.
Geraldo teve, ainda, a sabedoria de antecipar a reação do sujeito, chamando-o de “mentiroso” mais vezes e já no dia seguinte a nova estatal, a Mentirobrás, iniciava oficialmente suas operações. Toda a cumpanherada, com o sujeito à frente, saiu disparando que o Geraldo vai privatizar a Petrobrás, o Banco do Brasil, os Correios e demitir funcionários públicos. Só de sacanagem vai destruir “em dois minutos o que o sujeito levou dois séculos (sic… ou hic) para fazer”. A cumpanhera que é alfabetizada, professora da USP, Marilena Chauí, filosofou que o Geraldo vai entregar as universidades públicas para os estrangeiros. Antes já havia filosofado com inteira propriedade que “quando o sujeito fala o Brasil se ilumina”. É de novo o ensinamento que Herr Von Duda pegou do seu guru Goebbels, guru de Hitler: “Repita a mentira mil vezes e ela vira verdade”.
Não vira mais, ninguém vai acreditar, Geraldo não vai deixar. Dá-lhe Geraldo!