No dia 18 de julho fui surpreendida pela notícia da morte de Roberto Duailibi.
Dias antes trocamos mensagens pelo whatsapp nas quais ele deixava clara
sua intenção de escrever textos com mais lembranças sobre o Neil, além
daqueles que já estão publicados no bloco de Depoimentos deste site.
No dia seguinte li a terna crônica de Ignácio de Loyola Brandão comentando a
partida de Duailibi e recordando um episódio de 1965 com a participação de
Duailibi e do Neil 

Texto de
Ignácio de Loyola Brandão

(Retirado de seu blog no site do Estadão)

Em 1965, eu trabalhava no jornal Última Hora, fundado pelo Samuel Wainer, que revolucionou a imprensa, abolindo as primeiras páginas afogadas em textos. O que se via eram fotos e legendas chamando para as matérias. Defendíamos o PTB, Jango, sindicatos. Nosso rival era o Estadão, pura UDN, invejávamos a elegância dos fotógrafos e jornalistas da redação da UH lotada de jovens.

Eu acabara de deixar a pensão onde dividia o quarto com Zé Celso, que cursava Direito e embalava o Teatro Oficina, e me instalara na Praça Roosevelt. Ali era o “fervo”. Vindo de Araraquara, onde o último bar fechava às 22 horas, aqui vivia nas Bocas do Luxo e do Lixo, para compensar. E esses foram os ambientes de meu primeiro livro Depois do Sol. O título foi dado pelo Roberto Freire, o psiquiatra do tesão e da Soma. O fotógrafo de moda e publicidade Apolo Silveira fez a capa, com uma foto sensual de Marilene, bailarina da TV Record, namorada do Solano Ribeiro, que produzia megashows de MPB.

Recusado por 13 editoras, Caio Graco, da Brasiliense, ousou publicar. O livro saiu. Então precisava vender. Apolo teve uma ideia, me disse: “Amanhã, saia do seu prédio na Roosevelt, pegue à direita, entre no terceiro prédio, suba à Standard Propaganda, procure Roberto Duailibi, é um gênio, deve ter sua idade, diga que é meu amigo, mostre o livro, pergunte como vender”.

Tínhamos, Duailibi e eu, diferença de um ano de idade. Ele me mandou voltar em dois dias. Voltei, ele me entregou um pacote de cartazes feitos por ele. Com a frase: “Antes de falar mal do Loyola, leia este livro. Depois fale… se conseguir”. Eu era tímido, mas fui. Os livreiros rechaçaram: “Menino! Pensa que livro é produto como banana, quiabo?”.

Contei ao Duailibi e ao Neil Ferreira, ambos trabalhavam lado a lado na agencia. Saímos, fomos às livrarias do centro. Duailibi interpelava: “Meu senhor! Livro é, sim, produto! Tente! Coloque este cartaz, vai ver o que acontece”.

Puseram, aconteceu. Meia hora depois, entrava o Neil, olhava o cartaz, pedia o livro. O cartaz “funcionou”, o comércio do livro entendeu.

Neil tinha sete anos menos do que eu. Devo a esta gente criativa minha arrancada. Sei que eles me invejaram certa época por ser ficcionista. Eu os invejava por serem publicitários dos mais criativos na mais bela época do gênero neste Brasil. Instante áureo. Alguma coisa nos uniu.
Jamais esqueço o cartaz.

Lembrei que a última vez que eu tinha conversado com o Loyola no
lançamento de um livro muito interessante – minha cunhada, Edith Elek, reuniu
numa coletânea as lembranças gastronômicas de um punhado de amigos.
Entre eles, Loyola.

Naquele dia ele soube por mim que Neil não estava bem e por isso faltou ao
evento. Foi então que Loyola passou seu e-mail para uma eventual troca de
mensagens. Isso não aconteceu, mas o endereço me possibilitou entrar em
contato.

Depois de me apresentar e sugerir uma visita ao site, arrisquei: “Sei que é
muita ousadia de minha parte, mas gostaria de convidá-lo a escrever um texto
falando do Neil”

Generoso e gentil, Loyola respondeu:

“Como, ousar pedir! Seja menos formal. Neil e eu fomos chegados uma época.

Farei quantos momentos me ocorrerem. Quanto invejei Neil e Duailibi.
Envelhecer é tirar figurinhas de nossos álbuns. Bom que fomos uma geração que teve muitas vitórias. Saiba que a morte do orelhão está citada em meu próximo romance, “Risco de Queda”, em que falo da velhice. Comercial gênio, marco de uma época.

Escrevo de um velho computador em uma casa sobre a Mantiqueira, Minas
Gerais, de onde vejo árvores + árvores + árvores.”

Respondi a ele: “Claro que é ousadia pedir um texto a um imortal da Academia
Brasileira de Letras!” E ele escreveu de volta:

“Imortal… Sabe o que nós, ainda
lúcidos dentro da Academia dizemos? Somos imortais porque não temos onde cair mortos…

Uma coisa me lembro bem do Neil. Em 1968 nos encontramos no Restaurante Baiuca, na Praça Roosevelt. Todo estrelado, ótimo e super caro… Ali estava gente milionária, como Baby Pignatari. A Bossa Nova nasceu por ali com Walter Wanderlei, Marisa Gata Mansa, César Camargo Mariano, Johnny Alf. Fui ao Baiuca fazer uma entrevista e almoçar com o entrevistado. O jornal pagou… Na passagem, pela mesa do Neil, ele me cumprimentou pelo meu primeiro romance, “Bebel Que a Cidade Comeu”. Eu respondi: “mas quem ganha dinheiro são vocês, publicitários. Eles tinham salários gordos, invejáveis.”

Neil: “Mas vocês assinam os livros, os contos, e eles permanecem. O
espectador assiste o comercial, adora, mas e daí? O poema de um poeta, se bom, é eterno”. Porque, Eliana, nós, criadores, temos a vaidade colada dentro de nós.”

O escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara, SP, no dia 31 de Julho de 1936. É autor de uma vasta produção literária, entre romances, contos e crônicas, livros dirigidos ao público infanto-juvenil, sobre viagens, biografias, peças de teatro, traduzidos em vários idiomas e fartamente premiados. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 2019. 

Fonte: Wikipedia (Dilva Frazão)