Zezé Schmitz

Sempre me lembro com saudades do Neil.

Foi um grande diretor de criação na DPZ e o relacionamento dele com o sr. Zaragoza era ótimo. Tão bom que fizeram anúncios e comerciais inesquecíveis. Eram grandes amigos. Parecia que adivinhava o pensamento do outro quando estavam criando.

Lembro-me como comemoravam quando o cliente aprovava o trabalho.
Quando comecei a trabalhar na DPZ, lembro-me que os dois chegaram a fazer a maior festa porque havia aprovado um comercial e o Neil se jogou – literalmente- no chão. Levei o maior susto. Só depois me acostumei com aquelas comemorações loucas. Era uma festa só.

Equipe DPZ

O Neil deixou grandes amigos como o Nelo, o Flávio Conti, o Negrini e muitos outros.

Tenho muito boas lembranças dele e muita saudade também.

Zezé Schmitz
Secretária por 37 anos do Zaragoza

 

Rose Gobbi

Eu fui durante muito tempo locutora da Radio Eldorado FM.

Costumava abrir as manhãs da Radio, fazendo um programa chamado Sunrise.

Diariamente às seis da manhã, levava aos ouvintes madrugadores como eu, o melhor em matéria de rock dos anos 60 e 70.

Era incrível fazer a programação na hora e contar com as opiniões dos ouvintes. Eles pediam por telefone e muitas vezes por fax e eu atendia. Certa manhã, recebo uma ligação que me deixou sem palavras! Do outro lado da linha, um ouvintes simpático pra caramba, começou a falar sobre a música que eu estava tocando naquele momento: Bob Dylan, Hurricane.

Ele falava e eu ouvia ao fundo a música tocando no rádio do carro dele, enquanto conversávamos sobre toda a história que envolvia aquela canção. Batemos um longo papo e ao término da conversa, eu perguntei: Mas qual é mesmo o seu nome? ” Meu nome é Neil, Neil Ferreira.

Os dias iam passando e esse tal de Neil participava quase que diariamente, sempre muito colaborativo e falando das canções que eu tocava sempre de forma muito apaixonada.Eu conseguia perceber o quanto aquilo mexia com ele. Certa vez, logo cedinho, recebo uma ligação da portaria da rádio.
Rose, tem um senhor aqui dizendo ser seu ouvinte e quer te dar um abraço. 
Como eu sempre amei falar com meus ouvintes, liberei a entrada no estúdio da rádio.

Entra um cara de cabelos grisalhos de sorriso aberto, e não me recordo sinceramente se a filha estava com ele. Ele se apresenta… Oi Rose, eu sou aquele ouvinte que ligou a primeira vez pra falar do Bob Dylan, Neil Ferreira lembra?

Mas é lógico que me lembrei na hora. Começamos a conversar e ele me disse algo que ficou pra sempre na minha memoria e na historia do programa.
Estas foram as palavras dele que me marcaram muito:
”Rose, eu vim aqui pra te dar um abraço e agradecer pelo que você nos proporciona todas as manhãs.

Você não tem ideia de como sua voz no radio e as musicas que toca nos fazem felizes.

É através do seu programa que intensifico a relação entre pai e filha. Levando a Ju pra escola e te ouvindo, me aproximo ainda mais dela. A gente troca informações, eu conto as historias por trás dos clássicos do rock que você toca e sinceramente isso trouxe uma aproximação muito bacana com minha filha.”


Naquele momento, eu percebi que estava fazendo aquilo do jeito certo, do meu jeito, pois tudo era feito na hora, sem programação prévia, sem pensar em nada. Apenas pegava os discos e tocava aquilo que mexia comigo naquele momento. Era como se eu estivesse tecendo uma teia de músicas, ouvintes, que iam se tornando amigos e ficavam gravados nas nossas memórias.

Aquele momento , me deixou muito emocionada e eu só pude agradecer imensamente. Ele foi embora, acho que a filha Juliana estava junto e eu ganhei meu dia.

Mais tarde comentei o episódio com um amigo da Rádio. Ele olhou pra mim e disse: Rose, o Neil Ferreira esteve aqui? Você tá falando sério?

Eu então, olhei nos olhos dele e disse: o NEIL FERREIRA?????? Por acaso será que é o mestre da publicidade, aquele gênio é meu ouvinte????

É isso mesmo? Só depois, é que eu fui me tocar com quem eu tinha aquele contato diário.

Isso só me fez admirar ainda mais aquele cara de alma leve, feliz, que entrou no estúdio naquele dia.

Um homem que em momento algum, usou do nome pra se fazer parecer mais importante que os outros ouvintes. Usou apenas o grande coração pra expressar gratidão por eu proporcionar momentos lindos com a filha adolescente na ida para a escola.

Neil, um estrela que passou e iluminou um dia qualquer na minha vida e se tornou pra sempre uma linda lembrança.

Onde você estiver, obrigada pelo presente que foi te conhecer.
E mais tarde, ver a joia que se tornou a Ju, e poder compartilhar alguns instantes com essa lindeza chamada Eliana.

Obrigada de todo o coração.

Rose Gobbi
Radialista

Regiane Bochichi

“A arte de escrever é o ofício de reescrever.”

08 de abril de 2024

Era assim que Neil se referia a busca da perfeição da palavra correta, do slogan perfeito, da síntese de uma ideia. Se poderia servir como mantra para sua brilhante carreira de redator, não cabe aqui neste texto. A nossa convivência de 25 anos não tem espaço para copidesque. Diria até que nem para vírgulas. Sentia uma urgência tão grande em absorver tudo que vinha dele que não podia me dar esse luxo de soltar o ar e perder alguma coisa. E, claro, em nenhum momento haverá um ponto final que nem sua morte trouxe.

Eu brincava que iria escrever um livro visto que enquanto ele perseguia a síntese, eu me debruçava em dissertações, reflexões, longos parágrafos para dar conta da avalanche de conhecimento que me passava.  O resultado aparece, hoje, no meu senso crítico, na minha curiosidade, na minha incessante vontade de aprender.
Suas palavras eram mais que instrumentos de seu trabalho. Tão pouco vinham só de livros, filmes e exposições que devorava. Elas se formavam dentro de uma alma rica e benevolente e se espalhavam por aí. Serviam tanto para vender cigarros, como para incentivar votos. Para lançar um modelo de carro, como para descrever o seu jardim.

Muitas vezes, devido a nossa diferença de idade, dizia que poderia ser meu pai. Ele foi Pai dos sortudos José Bento e Juliana. Para mim, foi um farol. Quando sua luz chegava, era um banho de conhecimento.

A lealdade e respeito pelo outro foi a base desta amizade perfeita. Não era uma relação de mestre e aprendiz. Sua humildade, não lhe permitia exageros. Um dos maiores publicitários do país buscava mais o diálogo do que a retórica. Preferia andar nas ruas, do que viver no pedestal. Comer balas de jujuba do que dividir uma mesa no La Tambouille, algo frequente na nossa rotina.

O engraçado é que pela primeira vez que nos encontramos pessoalmente foi em um restaurante vegano. Não me recordo o nome, mas o endereço, sim. Na Cônego Eugênio Leite entre a Pinheiros e a Rebouças. Pensa em uma pessoa que não come uma folha, com eu, querendo impressionar e fazer jus a essa oportunidade única. Pois, foi assim a vida toda. Me fazia experimentar, ler, assistir, ouvir músicas que não estavam minimamente no meu radar e que hoje, pilares do meu repertório.

Conheci Neil durante a realização do Jogos Olímpicos, em 1992, em Barcelona. Ainda uma jornalista iniciante, na Rádio Eldorado, tinha como tarefa matinal de fazer a conexão para que ele entrasse no ar e comentasse as provas com um olhar “diferente” de um comentarista esportivo. Antes de sua participação tinha um rápido bom dia com a discussão do tema para que eu pudesseavisar os apresentadores. E depois, quando o jornal acabava, tínhamos, aí, sim, um bate-papo sobre o que havia sido dito, os fatos do dia, e a campanha que estava trabalhando.

Geralmente, deixava os filhos na escola e seguia para o escritório da DPZ, onde trabalhava, na Cidade Jardim. Era um longo caminho da sua casa na Granja Viana onde preferia viver como refúgio ao redor de livros, música e da natureza. Era um homem que se completava em duplas, com sua mulher Eliana, com os dois filhos, com o parceiro de obras-primas, Zaragoza, com o amigo Rabino, comigo. Desde forma, a conexão se tornava mais genuína.

Por anos, depois, já com celular, conversávamos durante a sua caminhada diária. O super publicitário e a pretensiosa jornalista no ritual diário de trocar palavras e impressões. Ele me jogava um haicai e, eu, saia transformando aquilo em praticamente uma bíblia. Uma jovem da periferia de São Paulo que ganhou um prêmio de loteria de intelectualidade e cultura.

Regiane Bochichi

Neil não me explicava o mundo. Ele me abria os caminhos. Nada era raso. Nem as dicas de viagem. Para Paris, que comecei a ir com frequência por sua influência, indicava desde o sabor do sorvete que deveria experimentar na Berthillon, Île Saint Louis, passando pelos trajetos,minuciosamente, detalhados por quais ruas deveria percorrer o Marais e até um quadro específico do Museu d’Orsay: Olympia, de Manet. Só que não era, simplesmente, ir lá ver o quadro que havia chocado Paris por causa da nudez frontal da modelo retratada. Antes, me sugeriu que lesse o livro de Otto Friedrich, que não só falava sobre a obra, mas contextualizava sobre a efervescência da Cidade Luz daquela época. Daí em diante, cada vez que voltei ao d’Orsay, considerei uma visita aos meus “amigos” impressionistas. Entrei para a “turma” que ele me apresentou.

Guardo com carinho tudo que esta amizade me proporcionou. Me contava sobre Woodstock. Tivemos um “gostinho” deste festival histórico e emocionante, ao assistirmos Bob Dylan e osStones, no Ibirapuera em 2012.

Lembro do orgulho quando José Bento, ganhou um concurso de poesia e recebeu o prêmio no Centro Cultural SP.  Quando a Juliana entrou na faculdade, o jornal recebia antes a lista dos aprovados. E fui lá atrás dos editores do Estadão para procurar seu nome e dar a notícia em primeira mão. Andava pelas ruas de SP e reconhecia outdoors de campanhas suas.

Neil me faz falta. Suas análises, seu companheirismo, seu brilhantismo. Tenho curiosidade em saber como reagiria ao cancelamento de Monteiro Lobato que fez dele um leitor contumaz. Mas era um homem sábio e, compreenderia o zeitgeist do que estamos vivendo hoje, onde ao mesmo tempo a intolerância abocanhou metade do país e outra parte que quer se livrar da misoginia, do racismo, da homofobia, da xenofobia e tantos outros preconceitos. Seu apreço pela liberdade, de entender “a dor e a delícia de ser o que é”, funcionava como uma bússola em busca da sensatez e do bom senso. Hoje, ele seria um genial criador de memes J

No casamento de sua filha, celebrado pela Monja Coen em uma manhã de sábado, fui com meu marido, Fortunato, que entendeu imediatamente a conexão que existia entre mim e aquela família.

Quando a doença chegou, Juliana me ligou e imediatamente, fui a São Paulo. Dali, foram algumas outras tantas visitas que fiz ora sozinha, ora com Nato, que me acompanhava em mais uma jornada de ver um câncer consumir pessoas especiais, como aconteceu com meus pais.

Dias antes de morrer tive com ele alguns minutos para o que sabíamos seria uma “despedida”. Nenhuma palavra foi dita. Seguramos as nossas mãos em silêncio, com a certeza, de que aquele laço jamais seria desfeito.

Regiane Bochichi
Jornalista

 

Fabiana Peçanha

Neil,

Uma das pessoas mais incríveis que eu conheci na minha vida e tive o prazer em conviver por mais de uma década. Neil é nível Van Gogh, gênio. Mente brilhante, inquieto, criativo, inteligente, sensível, ácido e muito divertido. Neil, um apaixonado pela Família e pelo São Paulo FC.

Fabiana Peçanha e Neil.

Gostava de caminhar, me chamava de “Personal Torturator” quando o plano era fazer musculação. Nossos exercícios eram sempre repletos de histórias sobre diferentes culturas, músicas, shows, arte, opiniões, política e histórias da sua vida pessoal e profissional e assim foi até o fim.

Obrigada, querido amigo!

Você é eterno.
Let it be.

Com amor,

Fabiana Peçanha
Personal trainer

Gaudêncio Torquato

NEIL, UM GENIAL PAPO

Quem tem uns aninhos a mais do que 30 vai se lembrar do baixinho da Kaiser, com seu boné, indo ao banheiro, vivendo situações engraçadas sob o refrão: a Kayser é uma grande cerveja. Muitos devem se lembrar do Leão do Imposto de Renda, com sua bocarra, sugerindo ameaças a quem se dispunha a driblar a receita federal. Pois não é que o leão passou a ser sinônimo de Imposto de Renda, segundo os dicionaristas e, também a Academia Brasileira de Letras?

Foram muitas as campanhas que mexeram com a alma brasileira nos idos de  70 e 80. Lembro, ainda, a campanha da morte do orelhão, que tratava do vandalismo da época, que destruía os aparelhos fincados nas ruas. Que imagem forte…

Pois bem, tempos depois, fui apresentado ao “gênio”, o criador das famosas campanhas que ainda hoje mexem com nosso sistema cognitivo. Um amigo comum, Luiz Cassino, nos reuniu em sua pequena agência para um longo papo em torno de uma junta médica: o velho dr. Old Parr, o escurinho dr. Johnnie Walker Black e o dr. Buchanas, 18 anos, o mais denso. Cassino me apresentava o cidadão de Cerqueira César, no interior de São Paulo, conhecido como Neil Ferreira. Depois desse primeiro encontro, outros ocorreriam, sempre bem acompanhados por bons tragos ou por iguarias do The Place, na Haddock Lobo, de Eduardo Inácio, cliente do Luiz.

No animado papo com Neil, se faziam presentes a ácida crítica contra as instituições de Estado, chistes e historinhas hilárias, e um discurso indignado contra “valores” do status quo. Era um inconformado, demonstrando, em certos momentos, uma dose amarga.

Certa feita, chamei Luiz Cassino para parceria numa campanha política em um Estado do centro-oeste. Campanha de candidato a governador. Ele acionou Neil, a essa altura, fazendo free-lancer em sua casa-chácara em Itapecerica da Serra. Uma criativa campanha de marketing político. Até hoje elogiada pelo candidato, hoje senador. Neil captava bem o “briefing”.

Um exemplo de bom amigo e papo sempre compensador. Seu parceiro na DPZ, Zaragoza, m dos donos, ao lado de Roberto Dualibi e Francesc Petit, depois de Neil ter saído da agência, publicou nos jornais um anúncio com essa provocação: “Neil, queridinho, volte pra casa. Tudo está perdoado. Z.”

O fato é que Neil Ferreira, com seu recorde de prêmios, foi um monstro sagrado da publicidade brasileira. E como faz falta…. 

Gaudêncio Torquato
Escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político, orgulha-se de ter sido amigo de Neil.

 

Moisés Rabinovici

“Neilzinho querido: volte da reunião celestial pra casa. Tudo está perdoado: até aquela vez que você substituiu o café por glitter na máquina. (Sim, foi você!)”
Ah, se fosse possível trazer o Neilzinho de volta como conseguiu aquele anúncio de duas linhas publicado nos jornais pelo Zaragoza… Até tentei, apelando para Inteligência Artificial. O robô foi ao passado e trouxe a mesma estratégia que seduziu o Neil a voltar para a DPZ. Acrescentou a reunião celestial e o glitter. Não deu certo, até agora.

‑ Plágio! – protestaria Neil.

Enquanto esperava um milagre virtual, fiquei imaginando o Neilzinho armado de Inteligência Artificial. Se ele só com sua mente, sua paixão e sua habilidade para criar já era um fenômeno, como ficaria turbinado por novas e poderosas ferramentas?

—Como? — perguntei ao robô.

Em um milésimo de segundo, a resposta veio escrita na tela do computador: “A verdadeira magia reside na capacidade de conectar-se emocionalmente com o público e criar algo memorável. A criatividade transcende as ferramentas. Ela é atemporal.”

Neil era um gênio que não dominava totalmente o seu laptop. Usava-o como uma simples máquina de escrever. Pedia socorro à mulher (Eliana, a “hippiezinha encantadora” que um dia o entrevistou para a Veja), aos filhos (Juliana e José Bento) e aos amigos para enviar arquivos por e-mail, ou achar os acentos e o cedilha no seu Mac. Quem sabe ele tenha aprendido mais com os anjos em sua reunião celestial. Ou com o próprio Steve Jobs.

Meu oráculo artificial conhecia bem o Neilzinho. Chamou-o de “O Mestre da Propaganda”, já em nossa primeira conversa. Listou sua trajetória, desde “office boy” no Diário da Noite, até a fase final na DPZ. Perguntei-lhe:
— Qual a campanha dele que você mais gostou?

— “Os Subversivos”, respondeu. E a explicou, com o contexto da ditadura militar em 1969. Ainda citou com elogios o leão do Imposto de Renda, a morte do orelhão e o baixinho da Kaiser.

Foi por essa época que nos tornamos “irmãos” – na verdade, “brimos”, ele descendente de sírios, e eu, judeu, os pais da Polônia e Bessarábia. Éramos vizinhos próximos da Praça da República e tínhamos um restaurante em comum, o Arroz de Ouro, no Arouche. Foi nossa fase macrobiótica. No Jornal da Tarde, onde eu trabalhava, o chefe Murilo Felisberto chamava de “neilismo” o bom artigo que, por acaso, eu tivesse escrito. Mas era ironia. E Neil também troçava dele.

Os dois gênios se encontraram na DPZ, tempos depois, em duplas e andares diferentes. Nós três, hipocondríacos, compartilhávamos as novidades que chegavam às farmácias. Um amigo as percorria, perguntando:
‑ Alguma novidade da Bayer?

Moisés Rabinovici por Cyra Moreira.

Muitas vezes fui com amigos à casa de Eliana e Neil, na Granja Viana. Gostosas noitadas, nada macrobióticas. Foi lá que vi o temido e mordaz cronista Telmo Martino dar de presente uma minúscula camiseta do São Paulo Futebol Clube para o filho Zé Bento, que acabava de nascer. Não o imaginava capaz de sair às compras. Mas terá sido ele mesmo? O robô não o confirma nem o desmente; não sabe. Papos sobre livros, vira-latas adotados, cinema, a tartaruga pisada sem querer numa cobertura em SP, e mais o que acontecia no Brasil só eram interrompidos porque as visitas tinham quase 15 quilômetros de volta para a cidade.

Uma vez disse ao Neil que queria ser publicitário por algum tempo. Achava que ele iria me recomendar a um amigo ainda na ativa. Mas não. Ele me dissuadiu, xingou, repetiu “de jeito nenhum”, “não é pra você”, e continuei jornalista, fui convidado a rejuvenescer um jornal octogenário, o Diário do Comércio, e o convidei a escrever crônicas semanais. Lá ele publicou sua indignação com a política e políticos, numa linguagem que nunca o vira usar na propaganda. E ligava para pedir diagramação especial para os textos.

O ex-publicitário e escritor Ricardo Freire entrevistou Neil para uma homenagem publicada no Anuário # 24 do Clube Criação de São Paulo. Chamou-o de “o beatnik cerqueirense (de Cerqueira César) Neil Kerouac Lennon Dylan Jaegger Lobato Mozart Ferreira, que apreciava bem mais a estrada de ferro do que a estação ferroviária”.

Com o sobrenome dos gênios que Neil incorporava, voltei ao meu oráculo, a Inteligência Artificial. Ele escreveu: “Neilzinho, ouça nosso apelo! 📢 Volte daquela reunião celestial com os anjos da criatividade e traga suas ideias geniais de volta para casa. Afinal, o escritório está sem graça sem você. Venha e traga sua caneta mágica e seu sorriso sarcástico. As campanhas estão esperando por você.

Bem-vindo de volta, Neilzinho! 🎉🎈”

Moisés Rabinovici
Jornalista

 

Nelo Pimentel

Janeiro de 2024

Conheci o Neil pessoalmente em setembro de 1969.
Digo pessoalmente porque de nome já o conhecia desde que eu havia feito um estágio no estúdio da CIN (atual Leo Burnett) em 1968, aos 19 anos.
Ele já era super famoso, em 68 era diretor de criação da Alcântara Machado (como a ALMAP era conhecida na época), com campanhas premiadas.

Minha história com o Neil começa quando o Sergino de Souza, grande redator e meu mentor profissional, me apresenta a ele na Norton, para onde havia ido e levado uma incrível equipe, formada pelo José Fontoura, Aníbal Guastavino, Jarbas de Souza e pelo Carlos Wagner de Morais.

Nesse momento a Norton era a agencia mais criativa do Brasil, e entrar lá era o sonho de qualquer jovem aspirante a criativo publicitário. Pois não é que o Neil – que tinha trabalhado na Alcântara Machado com o Sergino – foi com a minha
cara e me contratou como montador auxiliar? (abaixo disso não há nada no estúdio, só o pessoal da limpeza).

Meu primeiro emprego com carteira assinada…feliz da vida porque estando no estúdio poderia ver e montar – e mais tarde ilustrar – os layouts das maravilhosas campanhas que eram feitas, e aprender com elas.

Nessa época tive pouco contato com o Neil, porque o estúdio ficava separado da criação, mas quando nos cruzávamos no elevador sempre era simpático e perguntava como eu estava indo no trabalho.

Corta para dez anos depois, 1979.
Neste ano fui chamado para a DPZ pelo Washington Olivetto (com quem havia feito dupla na Lince/Julio Ribeiro/Casabranca), para fazer dupla com a Marita Soares.

Estávamos no andar do Petit, que fazia dupla com o Washington.
Para quem não sabe, a DPZ estava dividida em 3 grupos criativos: no quinto andar estava o grupo do Petit, no sexto o do Zaragoza e no sétimo o do Roberto Duailibi.

O Neil nessa época fazia dupla com o Zaragoza, para mim o melhor diretor de arte do Brasil (sorry Petit), fazendo campanhas sensacionais.

Nelo Pimentel

O Neil lembrava de mim, a cada tanto nos encontrávamos.
Pois não é que em julho de 79, mesmo ano, recebo um bilhete do Zaragoza perguntando se eu não queria ficar no lugar dele, porque is sair de férias, e fazer dupla com o Neil??

Quase caí da cadeira!!! Perguntei ao Petit se estava tudo bem e lá fui eu sentar no lugar do Zaragoza, ídolo absoluto, e fazer dupla com outro ídolo… deu tremedeira.

Foi incrível.
O Neil não era um cara fácil de trabalhar, um nível de exigência altíssimo, mas o resultado foi ótimo, com algunas campanhas muito boas como as da TELESP.
Aprendi mais nesse mês do que em muitos anos anteriores.

Alguns anos depois, agência vai agência vem, voltei para a DPZ: o Zaragoza, sempre generoso, me aceitava de volta tipo filho pródigo cada vêz que saía da DPZ…

Agora a coisa estaba diferente, porque o Zaragoza estava numa sala sozinho, e eu faria dupla com o Neil oficialmente. Já conhecia seu jeito de trabalhar, e pudemos fazer belos trabalhos.

Minha inquietação profissional me levou por outros caminhos e outros países, mas sempre lembro com carinho dessa época da DPZ e do aprendizado com o Neil.

Voltando a 1969, quando entrei na sala do Neil na Norton, vi na parede um anúncio que dizia “Thanks Neil”.
Os americanos acabavam de chegar na Lua, e o anúncio obviamente se referia ao Neil Armstrong. Mas sem dúvida era também uma piada interna, agradecendo ao Neil sabe-se lá o que…

Pois esse antigo anúncio resume o que quis dizer até agora.
Thanks, Neil.

Nelo Pimentel

Luiz Cassino

NEIL FOI O PUBLICITÁRIO BRASILEIRO REFERÊNCIA DA MINHA GERAÇÃO.

O Neil foi brilhante, o cara que sempre andava na contramão, gostava de desafios, rápido no gatilho, exigente com os seus comandados e não se contentava com pouco.

Nós nos conhecemos na SGB, no Pacaembú em 1974, sempre inquieto saiu da SGB e depois de um tempo foi para a DPZ. Nessas idas e vindas a gente fazia uns trabalhos na Cassino de Comunicações, a minha pequena agência. Lá atendíamos a Arisco, Eldorado Plaza, Pamcary Seguros de Carga, Souza Ramos, SR Veículos Especiais, Restaurante The Place (onde fomos finalista do Prêmio da Editora Abril com o anúncio “Esse vegetariano recomenda as saladas do The Place”), entre outros.

Neil, além de ter sido o Pelé da criação, foi um grande amigo que tive. Deixou saudades.

QUASE PERDE O CLIENTE, MAS NÃO PERDE A TACADA.
Quase que diariamente eu passava na DPZ pegava o Neil e íamos almoçar no The Place (a nossa pensão, kkk).

Um belo dia, fomos almoçar com um dos nossos clientes, o Luiz Verissimo, do Eldorado Plaza. Mas antes passamos no banco Banrisul para o Neil tirar o extrato da conta (naquela época ainda era tudo impresso).

Luiz Cassino

Quando chegamos no restaurante, o Verissimo já estava nos aguardando. Demos uma paradinha no bar, como sempre fazíamos, e fomos para a mesa. Papo vai, papo vem, e o Verissimo perguntou: Neil quanto tempo faz que eu não te vejo?

Neil, que não deixava barato, puxou do bolso o extrato bancário, (eu já imaginava o que ele ia dizer e o cutuquei por baixo da mesa pra ele não chutar o pau da barraca), ele vira pra mim e diz: não adianta cutucar, deixa eu falar. E solta essa: Verissimo, você acha que por essa grana que vc nos paga, vc tem que me ver quantas vezes por mês? Pensei….putz perdemos o cliente. Mas o Verissimo, que já conhecia bem o Neil, levou na esportiva. Assim era o Neil, sempre direto, sem papas na língua.

Luiz Cassino
Publicitário

Regiane Bochichi

Lá se vai Neil! Caminhando para o céu! Lendo as homenagens dos amigos por aqui encontro as palavras: mito, guru, amigo e tem até uma dissertação. Para mim, ele sempre foi só Neil. Assim assinava os faxes que me mandava na redação da Rádio Eldorado e depois na intensa troca de e-malis nestes 25 anos de convivência.

Anélio Barreto, meu chefe na época, teve a ideia de chamá-lo para comentar os Jogos Olímpicos de Barcelona e cabia a mim ligar para ele de manhã e colocá-lo no ar. Depois de semanas conversando por telefone, me convidou para almoçar e me levou a um restaurante vegetariano. Logo eu que não como salada, estava lá encantada com a inteligência e bom papo que  me conquistaram para sempre na frente de um mega prato de alface.

Com ele e por causa dele, li livros que jamais leriam; assisti filmes seguindo seus roteiros; escutei músicas com seus ouvidos; viajei para cidades como Paris e NY em suas descrições;  vi quadros com seus olhos; visitei museus que me indicava; aprendia tudo e mais um pouco o que me ensinava. A minha relação pelo jornalismo era reforçada dia a dia  pela paixão dele pela escrita. Na época da sua colaboração com o Diário do Comércio, me passava os textos que escrevia antes de publicá-lo para um rápida troca de impressões e pequena revisões em busca da palavra/frase perfeita.

Escrever agora sobre ele, sem tê-lo aqui como revisor, me parece quase um sacrilégio. Se fosse ao contrário, com certeza, sua generosidade faria abrir um sorriso e mandar: 

Regiane Bochichi

“Hey, Jude, don’t make it bad

Take a sad song and make it better

Remember to let her under your skin

Then you begin to make it better”

Minha vida com certeza foi melhor a partir do dia em que ele cruzou meu caminho e me ajudou a ser o que sou hoje. Parte de mim é também seu legado. Assim como da sua linda família. Eliana Machado Ferreira, Juliana Machado Ferreira e José Bento obrigada por partilhar comigo essa travessia. Com vcs, consegui não carregar o mundo da dor e da tristeza da sua perda sozinha.Se pudesse, faria como Zaragoza e pediria: “Neil queridinho: volte para casa. Não há como perdoar esta sua partida tão cedo.”

Regiane Bochichi
Jornalista

Nicolla Raggio

23 de abril de 2019

E por falar em saudade… Escrevi este texto há 1 ano e meio, quando soube da morte de Neil Ferreira. Meu ídolo, meu mestre, para mim Neil era imortal. Sem desmerecer todos os maravilhosos diretores de criação com quem trabalhei, a Neil eu presto tributo. Para mim, ele continua vivo, eterno, imortal…

“Você quer enganar quem, cara pálida”.

Eu tinha 28 anos e uma carreira promissora na Editora Abril. Era responsável pela revisão, preparação de textos, fotocomposição e composição gráfica. Ganhava bem e tinha um monte de benefícios. E estava cada vez mais longe do que eu gostava de fazer, que era escrever.

Resolvi que iria ser redator de propaganda. Através de alguns contatos, consegui chegar até meu ídolo, Neil Ferreira. Um ícone. Um mito. O cara que criava os anúncios e filmes que eu gostaria de ter feito. Ele tinha 30 anos, apenas 2 anos a mais do que eu…

Pedi um estágio. Disse que trabalharia de graça. Perguntou o que eu tinha para oferecer em troca. Disse que podia fazer revisão. Ele disse que já tinha revisor. Eu disse que faria revisão criativa. Ele olhou com aquela cara de gozação, rindo com os olhos, cara que eu iria ver mais dezenas de vezes nos próximos meses.

Acho que aprendi tudo o que eu sei de propaganda com ele. E olha que depois dele trabalhei com outros profissionais brilhantes. Mas ninguém superou os poucos meses em que fiquei com Neil. Logo ele saiu para seu ano sabático, de onde iria direto para a DPZ, para formar, com Zaragoza, uma das duplas mais brilhantes da história da propaganda.

Nicolla Raggio

A última vez que nos vimos pessoalmente foi no festival de propaganda do Rio. Ele na DPZ e eu na Almap. Ele disse que acompanhava e gostava do meu trabalho. Não dormi aquela noite, tentando gravar na memória a frase que me encheu de orgulho…

Nunca mais nos vimos pessoalmente. Um amigo comum tentou marcar um encontro, que foi sendo adiado até sempre.

Preso no hospital, não posso ir ao velório. Gostaria de chegar bem perto do caixão e dizer baixinho, só pra ele, a frase que era sua marca registrada: levanta daí Neil. Você quer enganar quem, cara pálida?…

Nicolla Raggio
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