Adonis Alonso

Em janeiro de 2024 lancei a sessão “Inspiração” no meu Blog. Objetivo é que profissionais da publicidade gravem um vídeo curto dizendo que campanha ou comercial influenciaram na sua escolha pela profissão.

Em quase uma centena de depoimentos da primeira temporada, participaram publicitários das várias áreas das agências, dirigentes, diretores de cena, produtores de áudio e imagem, músicos e locutores.

Muitos citaram mais de um trabalho, o que resultou num processo de lembrança de propagandas antigas, mais umas do que outras, que construiu uma considerável memória da atividade.

Entre as mais citadas está “A Morte do Orelhão”, filme que ficou na história da publicidade brasileira e no legado deixado por um ícone da Criação, Neil Ferreira,

E nesses momentos foi bom lembrar daquele criativo de gênio difícil, irônico quando queria, enérgico em suas posições, segundo definição de seus colegas. Mas ao mesmo tempo um amigo engraçado, com tiradas de humor de agitar a mesa dos restaurantes onde muitas vezes estive com ele convidado por seus parceiros de trabalho.

Na sua partida, lendo sua história, fiquei sabendo que tínhamos algo em comum, embora de gerações diferentes.

Li que começou a trabalhar como office-boy no Diário da Noite, onde tempos depois iniciei minha carreira de jornalista como repórter da editoria de Polícia.

Também trabalhou como redator em jornal, inclusive na Folha, cujo prédio da Barão de Limeira foi QG do “Propaganda & Marketing” que editei durante 12 anos.

Foi nessa época de imprensa especializada em Propaganda que passei a acompanhar o trabalho sempre genial do Neil.

“A Morte do Orelhão” ganhou Leão em Cannes em 1980 quando eu ainda insistia em trabalhar direto de delegacias de polícia.

Como diretor de redação do “Propmark” fiquei conhecendo as outras muitas campanhas de sucesso criadas pelo Neil, como o Leão do Imposto de Renda, o Baixinho da Kaiser e os filmes de Arisco, produzidos pela Net Filmes do amigo Itagiba Cobra, quando fomos enfim apresentados oficialmente.

Sua partida foi um baque para todos os seus amigos e conhecidos. Provavelmente foi se encontrar com Zaragoza, com quem produziu campanhas históricas.

Mas como dizem, a única certeza da vida é a morte. O importante é o que deixamos aqui como legado para a profissão e como educação para nossa família.

Neil foi um mestre nessas duas esferas.

Adonis Alonso

 

Adonis Alonso
Criatix Comunicação
Blog do Adonis www.blogdoadonis.com.br
Instagram: @blogdoadonis

Luiz Lara

Corria o ano de 1992 e Jaques Lewkowicz e eu estávamos finalizando as tratativas para criarmos juntos a Lew Lara, quando abri o jornal e me deparei com um anúncio do genial José Zaragoza, o Z da icônica DPZ ” Neil, volte para casa. Está tudo perdoado.”

Eu tinha estranhado a saída do Neil Ferreira, redator brilhante, da DPZ e ele tinha assumido de 1990 a 1992 a vice-presidência de criação da Salles.

Mas nosso Neil, um são-paulino tricolor como eu, não resistiu ao apelo e voltou para sua casa, a DPZ, onde trabalhava desde 1975, depois de brilhar em várias agências como Standard, Norton, dentre outras.

Foi na DPZ que Neil, sempre ao lado do Zaragoza, fez toda a diferença criando campanhas memoráveis como em 1978 – eu tinha 16 anos, mas fiquei fascinado – com a campanha do Leão do Imposto de Renda. Foi parar no Aurélio e o Leão virou símbolo do Imposto de Renda no Brasil, virou bordão e entrou na cultura popular. Depois, em 1984, Neil, sempre brilhante, criou o menino de olhos vendados para a Sadia, campanha memorável que ficou 10 anos no ar.

E depois o Baixinho da Kaiser que virou personagem emblemático fazendo uma nova marca de cerveja dar um salto e conquistar muito mercado, criando uma percepção de valor muito maior que a etiqueta de preço.

Se a propaganda é negócio, instrumento legítimo que faz a roda da economia gerar, Neil era a alma criativa que, sempre discreto e ” na dele”, falava pelo seu trabalho, se destacava pelas marcas que ele ajudou a construir e posicionar, se diferenciava pelas ideias únicas que conectavam milhões de pessoas.

Neil está no panteão dos craques da era de ouro da nossa publicidade.

Hoje no mundo digital talvez não precisemos – embora existam ainda em cidades do interior – do orelhão, mas o comercial ” A morte do orelhão” , criado para a Telesp, está na nossa memória afetiva.

Neil criou campanhas que tornaram a Arisco uma marca querida pelas donas de casa.

Ele nos deixou há 8 anos, mas Eliana criou este site para sempre termos uma referência, especialmente para as novas gerações, da publicidade criativa que pela porta do humor, da emoção, valoriza o jeito de ser e fazer do consumidor brasileiro, com campanhas que continuam presentes para quem viveu e que mostram a criatividade brasileira que ganhou asas e conquistou o mundo.

Viva Neil Ferreira

Luiz Lara

 

Luiz Lara é publicitário e fundador da Lew’LaraTBWA e do iDTBWA. Profissional de atendimento e planejamento, atuou na construção e no posicionamento de muitas marcas e conquistou vários prêmios ao longo de sua carreira. Entre eles, Caboré, Colunistas e Effie. Atualmente é chairman do Grupo TBWA no Brasil e sócio da TO BE GOOD, atuando em advocacy e comunicação. Foi presidente da Associação Brasileira das Agências de Publicidade (ABAP) e organizou o 4º e o 5º Congresso Brasileiro da Indústria da Comunicação. É presidente pro bono do Conselho do Fórum da Autorregulação do Mercado Publicitário (Cenp) e membro da Assembleia Geral da ESPM. Atua em várias organizações do terceiro setor: é membro do Conselho da Childhood, do Instituto de Cidadania Empresarial, da Fundação Osesp, da Fundação Bienal de São Paulo, entre outras instituições.

Liber Matteucci

Aos 19 anos, na faculdade de engenharia Mauá, os exercícios de Cálculo Integral e eu não nos dávamos bem. Suspeitei que se um dia tirasse o diploma corria o sério risco de derrubar um viaduto na cabeça de alguém. De modo que disse ao meu pai que ia abandonar a faculdade e ele, descontente, revidou que ia me arranjar um emprego.

De fato, alguns dias depois levou-me na Norton Publicidade, onde era amigo do diretor de criação, o jovem Neil Ferreira, que o ouviu com simpatia e me aceitou como estagiário. Confesso que achei legal, até porque o meu velho, jornalista consagrado e autor de dez livros, no caminho até a agência tinha feito rasgados elogios ao Neil:
— Esse rapaz começou no jornalismo e era um brilhante foca, agora está fazendo o maior sucesso na propaganda.

Isso foi em 1970 e “Os Subversivos”, com o Neil à frente, formavam uma equipe de criação à altura da seleção brasileira tri campeã naquele ano ou, na ótica de um candidato a redator, equivalia a uma pós-graduação na Sorbonne. A prova é que tanto eu como os demais “trainees” nos demos bem na profissão, como estes depoimentos parecem atestar.

Mas não pretendo falar dos aspectos profissionais da história, já bem conhecidos, e sim de alguns ensinamentos fora da caixa ministrados pelo Neil quando nos convidava para tomar café no bar da esquina (e sim, confirmo, o “turco” merecia esse apelido, eram sempre os estagiários que pagavam a conta). Enquanto esperávamos pelo cafezinho, ele demonstrava não estar antenado só na publicidade, mas também na contracultura dos anos 60 e nas ideias irruptivas que vinham principalmente dos EUA, expostas em livros como “Steal this book” do
Abbie Hofmann (yippie fundador do Partido Internacional da Juventude, por sinal muito parecido com o Neil, quase sósia*), sendo essa obra um manual completo para ensinar o leitor a obter comida de graça, pegar carona, descolar um teto para passar a noite, receber cuidados médicos sem ter seguro e assim por diante, sobrevivendo na “prisão que era a América”.

Foi também com o Neil que a minha ignorância ouviu falar na existência de outro livro emblemático, o “On the road” de Jack Kerouac, bem como das muitas atividades do ativista Jerry Rubin, que ora condenava a guerra do Vietnã, ora as empresas que se recusavam a contratar afro-americanos. Foi graças à influência dessas libertárias palestras do Neil, somadas aos ecos do festival de Woodstock no Brasil, que de futuro engenheiro engravatado passei a jovem cabeludo com calça boca de sino, fã de Jimmy Hendrix e Janis Joplin, excitado leitor dos gibis safados do Robert Crumb, fazendo estágio ao lado dos meus pares, os novos rebeldes sem causa do Departamento de Criação da Norton (todos presentes neste site), e houve até quem virasse hippie pra valer, vivendo de fumaça na Bahia, numa comunidade anarca à beira da praia, vendo o que a baiana tem e matando a sede com água de coco.

Por tudo isso, sou tentado a pensar que a bela sacada do anúncio “Os Subversivos” não era inspirada só na esquerda que desafiava a ditadura militar no Brasil, mas também na subversão de parte da juventude mundial que o Neil admirava.

Ele foi um subversivo sui generis: não confrontou os patrões capitalistas nem entrou em conflito com os milicos pós-64, mas sem dúvida alguma abriu a cabeça dos jovens, agora velhos, que tiveram a sorte de conviver e aprender com ele.
 
* Procurem por Abbie Hofmann na Wikipédia e digam se esse Hippie não era a cara e o cabelo do Neil.

1970) De estagiário, passei a redator contratado pelo Neil na Norton, então a Agência do Ano, com um pequeno salário;
1971) Fui ganhar mais na Lage, Dammann, a Agência do Ano de 72 (sob a direção criativa do ótimo Hans Dammann, um profissa à altura do Neil, de fino texto e fino trato);
1974 a 77) Trabalhei na Sell, subsidiária da Lintas, mas logo fui para a MPM SP juntar-me às feras da equipe de Sérgio Graciotti e Armando Mihanovich;
1978) Fui ganhar mais na Thompson, mas fiquei só 4 meses;
1978 bis) voltei para ganhar ainda mais na MPM SP;
1979) A convite do Sérgio Toni fui ganhar muuuuito mais na MPM RJ, mas logo fui despedido por me recusar a fazer a campanha do Gal. Figueiredo, após o curto diálogo que tive com o braço direito do Macedo, um dos M da MPM:
— Por que você se recusa a fazer a campanha do Figueiredo?
— Porque ele vai ser eleito de qualquer modo e eu fui educado por um pai de esquerda, não quero participar.
— Você é de esquerda, mas faz campanha para Hollywood, faz anúncio para Coca-Cola, qual é a diferença?
— A diferença é que gente fuma se quiser e bebe se quiser, mas o Figueiredo vai ser eleito quer queiramos quer não.
1980) O Montserrat, diretor criativo da Caio no Rio, muito gentilmente me convidou para cobrir as férias dele, depois o Alex me contratou para dirigir a criação da Alcântara Rio;
1981) A MPM RJ me chamou de volta com melhor salário;
1985) O Sérgio Toni me convidou para ser Diretor de Criação da Agência da Casa da Rede Globo;
1987) Aceitei uma boa proposta da Talent e voltei a Sampa;
1988) Fui à Europa passear, gastei muito, e quando comecei a escolher o prato pelo lado direito do cardápio resolvi pedir emprego na Thompson Lisboa, onde trabalhei até receber uma proposta melhor da Tele Montecarlo, um braço da Globo Sediado em Roma, onde passei os dois anos seguintes falando italiano, comendo pizza e curtindo o Bel Paese.

1991) O que é bom dura pouco, la bella vita era finita e 
eu me vi de volta a Portugal e à Thompson Lisbonna,
 onde trabalhei mais 19 anos, parte em Campo Grande,
(Mato Grosso do Sul) e depois em Londres, pioneiro
 do teletrabalho, usando o antigo programa Net Meeting;
PS) Aposentado, passei escrever ficção e escrevi um 
romance, “Sangue Bom”, no Prêmio Sesc de Literatura
de 2008, onde ele foi um dos finalistas, apelo suficiente
para que a Editora Prumo, subsidiária da Rocco, fizesse
 a impressão. O lançamento foi feito em 2011 na Livraria
 Cultura da Paulista na presença de muitos amigos, alguns
 por aqui, e já escrevi outros quatro, um destes publicado
 em papel e os demais como e-books, à venda na Amazon.

Marcius Cortez  

Neil Ferreira era de ferro?

Para começar recomendo anotar os nomes dos craques que jogavam futebol nos majestosos salões da Norton Publicidade na hora do expediente em pleno reinado dos Subversivos durante o ano de 1968. No gol, Kélio Rodrigues, o Mussula. No meio do campo, a dupla Pedro Rocha e Ademir da Guia, respectivamente Neil Ferreira e José Fontoura da Costa, também conhecido como the old fox. Jarbas de Sousa que era um pé de pau foi coerentemente batizado de Paraná. No ataque, preparem-se: Eu, Leivinha, o ligeirinho. E o mais perigoso de todos, ele Tostão, ou seja, Carlos Wagner Gomes de Morais que a torcida batizara de cegueta. Certa vez, o dono do campo, Dr. Geraldo Alonso, adentrando ao gramado deu cartão vermelho para todos e se pôs a furar a bola provocando altas gargalhadas porque a bola era de pano e papelão. O clima não era de subversão, era mais “meninos levados gazeando a aula”. Tanto é que logo após o cartola Geraldão virar as costas, Neil se apressava em devolver a pelota para os atletas da insubmissão.

Agora falando sério: Neil Haddad escalou cordilheiras para galgar ao posto do publicitário mais completo das plagas brasilianas. Ele era um vespeiro que atirava chumbo explosivo e bagas de mel na originalidade e na modernidade.

Frequentei sua cobertura localizada no bairro Santa Cecília. A noite era curta para tanta conversa. Nossa amizade teve intervalos. Mas por fim nos encontramos na DPZ no andar da letra Z. Dividimos uma coincidência. Neil vivendo na Granja Viana e eu arrumando as coisas para morar no Sítio das Cachoeiras. Se estivesse ainda entre nós, Neil também haveria de ter tirado a carteirinha do clube dos oitentontos. O que na verdade é um disfarce. Pois haja felicidade em vestir a touca da sabedoria e da formosura da saudade.

 

Marcius Cortez  

Aos 7 anos, quando morava em Natal, inventei um jornal que se resumia a uma página de caderno que eu colava na parede da sala de visitas. Escrito à mão, o nome do pasquim era A Família.

Essa brincadeira virou profissão. Pois logo fui contratado como repórter do Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio.

Certo dia, através de um tio, crítico de cinema, fiquei sabendo que Paulo Freire procurava um redator para trabalhar no Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife.

Posso dizer que essa foi a maior sorte da minha vida. Mas infelizmente o sonho acabou com o Golpe de 64. Fui preso, respondi a processo e o escambau.

Arribei para São Paulo. E já em 1965, pela mão do poeta Mário Chamie, fui contratado como redator da Panam. Trabalhei em várias agências como redator e diretor de criação.

Hoje guardo com carinho as lembranças da minha vida de publicituto. Ganhei uma cristaleira de medalhas e Leões. Como dizia Roberto Duailibi, faturava um nababesco salário. Destaco como outra grande recompensa o fato de ter me tornado amigo de Neil Ferreira. Entre outras coisas em comum a gente sonhava em morar na “roça”. Neil escolheu a Granja Viana e eu o sítio das cachoeiras em Piedade.

Hoje vivo feliz na companhia de Leda Orsi, minha mulher e da cachorrinha Lolla Catarina Primeira. Tá bom demaaaais!  Aproveito o privilégio para ler e escrever minhas barbaridades. Publiquei livros. Um deles, “O Golpe na Alma”, cujo personagem principal é o educador Paulo Freire. Certo dia inventei de publicar um livro para oferecer aos amigos. Daí nasceu “Barbaridades Críticas”  pois barbaridades por barbaridades, eu prefiro as minhas.

Tenho todo o tempo do mundo para usufruir da imensidão do silêncio. Sou passageiro das asas do facebook onde dou meus pitacos. Agora dá licença que o Hermes Ursini me encomendou um texto sobre o vulcão Neil Ferreira que dava uma de ferro, mas a sua maneira era um amor de pessoa.

José Carlos Stabel

O Jatão da Sadia, campanha gestada num taxi a caminho de Congonhas com 14 anúncios que  nunca chegaram a ser sequer apresentados.

Foi uma beleza ter estado na Norton no período dos Subversivos comandados pelo Neil.

Todo mundo conhece de sobra o conceito em que são tidos dois lados que vivem às turras: a criação e o atendimento.

Os criativos tidos e havidos como donos da verdade, suas obras imexíveis, Deus te livre que alguém falasse um A a respeito de uma de suas sacadas. E se o A viesse de alguém do atendimento, era pecado mortal, razão para tempestades.

Uma vez o dr. Geraldo estava na criação e o Neil, daquele jeito seu, pediu para o mandachuva da Norton colocar um mata-burro na porta da criação “para nenhum contato entrar no pedaço”. O dr. Geraldo, que não era burro nem nada, respondeu na lata: “Se puser um mata-burro aí, como é que vocês vão sair daqui?”

Eu era, justamente, o responsável por um grupo de atendimento, mas o nosso relacionamento, eu e o Neil, foi sempre 100% cordial  e de recíproco respeito. Apesar das brincadeiras de que ninguém escapava. Já naquela época (1967) careca, com óculos aro de tartaruga, o Neil nem teve dúvida em me arrumar um apelido: Juca Pato*…

Uma das minhas contas era da Sadia e o interlocutor nosso no cliente era outra figura mitológica no mercado. Omar Fontana, grandalhão, falador, comandante de jatos, esse sim um dono da verdade quando o assunto era aviação.

A Transbrasil ainda não era Transbrasil e sim Sadia Transportes Aéreos, sede em Congonhas, rotas percorridas por humildes turbo hélices Dart Herald.

Quando a Sadia, finalmente, conseguiu seu primeiro jato, um One Eleven, que não era exatamente o jato mais prestigiado do mercado, o desafio era transformá-lo num super avião.

A criação da Norton trabalhou muito, a campanha ficou pronta, sem que o atendimento tivesse sido chamado para opinar.

Estávamos de saída para a apresentação e não tive dúvida: pedi para ver a campanha, afinal quem tinha feito o briefing tinha sido eu.

Instantes depois o Neil veio para a minha sala com os 14 ou 15 layouts – naquele tempo em que não havia a moleza proporcionada pela informática, era um pacotaço de pranchas de cartão que fomos percorrendo, o Neil e eu, para no fim eu cumprimentá-lo pelo trabalho, mas com um problema: a criação tinha se empolgado com a campanha do One Eleven e não tinha nem pensado na outra campanha, a dos Dart Heralds.

Eu relembrei ao Neil, desta forma. que eram duas campanhas, a do jatinho e a do jatão.

O Neil engoliu em seco, disse apenas que se justificaria e fomos para Congonhas.

Lá, numa das pontas de uma gigantesca mesa, o Omar Fontana com aquele jeito dele, como que desafiando a agência. Na outra longínqua ponta, o Neil e seus 14 ou 15 layouts.

Silêncio total, Neil com a palavra.

Mais um pouco de silêncio.

Em, seguida, Neil começou a explicar que a agência tinha trabalhado muito, tinha produzido coisas maravilhosas, e em lugar de começar a exibição dos layouts, pegou todas as 14 ou 15 maravilhas e jogou tudo no chão:

“Quer saber, Omar? Está tudo errado”

Abaixou-se, pegou um dos layouts, virou-o ao contrário e com um lápis  indicou:

“Sua campanha, Omar, vai ser assim: Aqui vamos colocar uma enorme fotografia do seu aviãozão. Em cima, só um título: O Jatão.”

Alguns segundos de silêncio, o vozeirão do Omar: “Beleza! É isso ai! “

Alívio geral.

A campanha dos jatinhos ficou para outro dia.

A do Jatão, imaginada, criada, apresentação pensada dentro de um taxi no caminho da agência até Congonhas, um sucesso.  

 * Benedito Carneiro Bastos Barreto, mais conhecido como Belmonte foi um caricaturista, pintor, cartunista, cronista, escritor e ilustrador brasileiro. Foi o criador da personagem “Juca Pato”: careca “por tanto levar na cabeça”, cujo lema era “podia ser pior”.

José Carlos Stabel
Cruzei com o Neil no tempo da boa Norton, quando o Geraldo pai era vivo, de 1969 a 1972. Tempo dos Subversivos. Tempo de campanhas com tutano, oposto do que se vê atualmente na internet e na mídia tradicional.

Foi bom.

Cheguei à Norton provavelmente no mesmo dia em que lá chegavam Neil e sua turma, inclusive o José Fontoura da Costa. Ficamos amigos no tempo em que éramos  jornalistas na Ultima Hora. E ficamos amigos para sempre.

Sai para me associar à Lage Dammann & Stabel – dei muita sorte, a agência no ano seguinte foi eleita a Agência do Ano e foram 18 anos muito bem vividos.

Deus me livre ficar aqui exibindo cada passo de uma carreira que ainda não terminou apesar de eu já ter ultrapassado a fronteira dos 90.

Hoje sou associado a uma consultoria de marketing – a Percepta – Marketing, Comportamento.

Tenho saudade do tempo em que as agências de propaganda ainda não tinham se transformado nisso que se vê agora.  

Tião Bernardi

Neil Ferreira é uma força da natureza, bigger than life, como dizem os gringos. Foi uma luz que iluminou meus caminhos pessoais, culturais e  profissionais. Uma influência poderosa, decisiva, em uma fase que define o que seremos na vida.

No começo dos anos 70, ele me acolheu na Norton Publicidade. A equipe de criação, Os Subversivos, já estava completa, incluindo os estagiários, rigorosamente escolhidos por ele.

Cheguei tarde, mas o Neil gostou da minha conversa e me arrumou um cantinho, na biblioteca.

Ele me passava alguns jobs sem importância que eu tentava resolver do meu jeito, isolado de toda a equipe. Pouco a pouco fui despertando o interesse dele, com abordagens curiosas, inesperadas, fora do padrão publicitário.

Uns 6 meses depois, ele me chamou e disse que 3 idéias minhas já tinham sido publicadas e que eu merecia um salário. Como a equipe estava completa, ele iria me indicar para lugares que estavam precisando de redator.

Apresentei meu magro portfólio e tive proposta das 3 agências indicadas. Certamente, mais por conta de quem me recomendava do que pelo meu incipiente talento. Foi com este empurrão do Neil que abandonei o curso de administração na GV (um drop out) e comecei minha carreira de publicitário que durou 43 anos.
 
Em 72, o Neil foi para a P.A. Nascimento e me levou como único redator contratado por ele.

Almoçávamos quase todos os dias no Arroz de Ouro, um restaurante macrobiótico e, pelo menos uma vez por semana, ele me convidava para ir na casa dele. Foi assim que conheci a Eliana, sua namorada, uma moça simpática, inteligente e muito bonita que era redatora da Veja. Ficávamos conversando até altas horas, sentados em almofadas espalhadas pelo chão.

Eles falavam da poesia de Bob Dylan, do novo jornalismo do Gay Talese, das denúncias contra a insegurança dos automóveis e da perversidade da indústria do tabaco feitas pelo  corajoso advogado Ralph Nader, enquanto eu fumava um baseado e eles se divertiam com meus devaneios.

Foi assim que me tornei o Tião Cannabis, alcunha adotada pelo Neil até nas fichas técnicas divulgadas na coluna Asterisco, do Armando Ferrentini. Isso, no auge da repressão do regime militar.

Mais de 20 anos e muitas agências depois, fui contratado pelo Murilo Felisberto na DPZ, que dirigia a criação no andar do Roberto Duailibi, toda formada por jovens que, sem exceção, se tornaram publicitários famosos no Brasil e no exterior.

Tião  Bernardi

Até as 18:00h, o Murilo impunha um clima austero, ninguém dava um pio. Eu, único veterano, me enquadrava totalmente no esquema.

Foi então que eu soube que o Zaragoza tinha contratado o Neil de volta para a sua equipe. O Neil e o Murilo eram amigos da época em que os dois eram jornalistas. O Neil veio logo cedo falar com o Murilo, ficaram conversando um tempão e, quando o Murilo apresentou o Neil para a equipe, ele me viu e bradou , para espanto da garotada: TIÃO CANNABIS! O que você tá fazendo aqui?

Era o Neil de sempre, irreverente, incontrolável, independente. Inesquecível.

Obrigado por tudo, Neil Ferreira!

Tião Bernardi tem 74 anos.
Foi redator naProeme, na P.A. Nascimento, na Lintas, na Almap, na DPZ entre outras.

Diretor de criação na Talent Biz e na Carillo Pastore Euro RSCG. VP de criação na Young & e Rubicam e na Publicis.

Eleito várias vezes como jurado e duas vezes como vice-presidente do Clube de Criação de São Paulo.

Wagner Fornel

Neil Ferreira: um presente.

Quando fui cutucado pra escrever aqui, a primeira coisa que me veio à cabeça foi um anúncio que vi num jornal.
 
O título era: “Senhor Prefeito: vamos falar de um assunto feio, sujo e fedido: a feira da minha rua”. (agora vi o anúncio neste site e é bem melhor que isso).
Estava assinado por Neil Ferreira.
 
Nessa hora senti que para ter alguma chance na profissão, eu tinha que conhecer esse Neil e pedir pra ele me ensinar a escrever daquele jeito.
 
Estava no primeiro ano da ESPM e começava a trabalhar num pequeno estúdio de criação para pequenas agências (décadas depois isso virou moda).
 
Na cara dura, liguei para a PA Nascimento, ele me atendeu, marcou dia e hora.
E lá fui eu, sem nada nas mãos, mas com um frio danado na barriga: imaginava um senhor sério, formal, convencional, professoral. Por isso caprichei na roupa, todo pomposo no único paletó que eu tinha.
 
Fui recebido por um cara com cara de moleque, que me tratou como um igual, um colega pra trocar ideias, não como um novato que mal sabia onde estava entrando. Não me deu conselhos de graça, mas me provocou o tempo todo, me fazendo pensar na profissão, na carreira, na vida.
 
E quando ia saindo ele gritou lá da porta da sua sala, rindo: “Da próxima vez não precisa vir vestido de atendimento, tá legal?” Adotei o Neil como meu pai.
 
Abre parêntese. (lá no meu começo, escolhi outro pai também: Hans Dammann. Cada um no seu estilo, cada um do seu jeito.  Um, raciocínio puro. O outro, intuição na veia. Com orgulho e agradecimento, aos mestres, com carinho). Fecha parêntese.
 
Daí em diante, não importa onde eu estava nem onde o Neil estava, nunca larguei dele. Foram muitas e muitas vezes que me atendeu, olhou e nem sempre gostou dos meus trabalhos, mas sempre dedicou tempo e talento pra me provocar, que ele era muito bom nisso: fazer pensar.
 
Um dia, numa dessas conversas, em busca de uma receita, uma fórmula mágica para entender o critério de avaliar uma campanha como boa ou ruim, mas tentando disfarçar pra não ser tão ostensivo, perguntei alguma coisa assim:
“Se você tivesse o poder de criar regras de propaganda, para só ter coisas boas, o que você faria?”.
 
A resposta veio seca, parecia que ele esperava essa pergunta: “Isso seria uma atitude de censor ou de ditador. E eu sou totalmente contra qualquer coisa desse tipo. E me preocupa um cara novo como você pensar alguma coisa assim.”
 
Morri de vergonha da burrice da minha pergunta. E aprendi que, se quiser saber alguma coisa, seja objetivo, não tente parecer inteligente. Assuma a sua ignorância no assunto que fica mais fácil.
 

Wagner Fornel

O Neil nunca me contratou. Mas um belo dia, eu na Salles, saída do Domingos Logullo, o improvável acontece: lá chega ele, o novo VP de Criação.

De novo o frio na barriga. Eu disse alguma coisa assim: “Hora de retribuir um pouco do que aprendi com você”. Ele respondeu alguma coisa assim: “Eu nunca ensinei nada pra ninguém. Só te dei uma bússola de presente.”
 
E tratava todo mundo como um igual, um colega, um amigo pra trocar ideias,
não como um bando de novatos que, comparando com ele, todos eram.
 
 
PS: de todas as agências que já trabalhei, a mais marcante, pessoal e profissionalmente, foi a então Lage, Dammann & Stabel, a agência dos sonhos da minha geração. Foram quase 10 anos fazendo dupla com a Magy Imoberdorf, que já tinha trabalhado com o Neil.
Com a saída do Hans da agência, quando a ideia não vinha e a coisa complicava, eu e a Magy inventamos um exercício divertido para desbloquear:
“Como o Hans faria isso? E o Neil?” E a gente tentava.
Isso é pra dizer que o que é bom vive pra sempre.

 

Wagner Fornel.
Uma espécie de linha do tempo.

Redator desde lá atrás, em várias agências que a época consagrou e o tempo levou.

Por exemplo, McCann-Erickson e, tempos depois, GGK: essa aí virou W/GGK, se juntou com aquela primeira e hoje é a W/McCann.

Trabalhei em outras duas, a Norton e a Salles: aí elas se juntaram e hoje é a Publicis Brasil.

Teve mais: por 10 anos, na Lage, Dammann & Stabel, depois Lage,Magy, que depois se juntou com a Talent e hoje tudo isso aí é a Talent Marcel.

A Denison, do grupo Ogilvy, que está aí até hoje (a Ogilvy, não a Denison). A Heads, em Curitiba, que hoje é Brivia Group. A Pública, agência de marketing político associada à Calia, agência de propaganda: eu jogava nas duas.

E fora agências, teve o marketing da SECOM do Governo de São Paulo, por 4 anos. E a Prefeitura de Barretos, como Secretário de Comunicação.

Hoje estou na Nacional Comunicação.
Mas de tudo isso, o que importa é o que ficou, os trabalhos, os resultados, os prêmios e, principalmente, as pessoas que fazem parte até hoje da minha vida.

Hermes Ursini

Quando a família mudou para uma cidade pequena, minha mãe concordou que eu deveria continuar em Sorocaba, uma cidade grande. Mães sabem o que é melhor para os filhos. Lá tinha um jornal e uma emissora de rádio que eram verdadeiras escolas profissionais. E eu já trabalhava nos dois lugares desde moleque.
 
Assim, aos 16 anos, instalado num hotel dos anos 50 com minha Olivetti Lettera 35, penas, gouaches e acrílicos, comecei a gastar o que mais tinha na vida, varando noites a escrever roteiros e desenhar quadrinhos.
 
Uma manhã na redação de O Cruzeiro do Sul, soube que os futuros criativos de sucesso continuariam vindo de cidades do interior, como Sorocaba,”onde os meninos têm mais tempo para ler.” Era Duailibi prevendo os anos 70 para a criação na edição da década da revista Propaganda. Então, a coisa era comigo?
 
Fiquei ligado. Logo descobri o Neil Ferreira. Os anos 70 seriam dele. E nossos, os cabeludos. Era só um pouco mais velho do que eu. Mas era muito mais cabeludo. Gostava do Bob Dylan. Dos Beatles. Dos Rolling Stones. Era de Cerqueira César, ali perto de Tietê, Maristela, Laranjal.

Rapidinho cheguei ao anúncio “Ou Dá ou Desce”.  Certo, mano, então é isso. Logo depois vi a página dupla “Os Subversivos”. Entendi tudo. A coisa era mesmo comigo.
 
Dei um jeito de mostrar textos e desenhos para o Neil na Norton. Não me pergunte como passei pela Bianca!! Neil olhava para textos e desenhos sem piscar, com  o cotovelo na mesa e o queixo apoiado na mão. Não lia. Fuzilava textos e imagens. Falou que não tinha gostado de nada, mas tinha gostado de mim, ele tinha ido com a minha cara. E fez  a proposta dando uma risadinha sarcástica: uma noite dos desesperados que duraria três meses.

Peguei o bonde que ele montou com uma centena de estagiários lotados numa grande sala no penultimo andar do prédio da Norton. Todos recebiam jobs e a cada três dias eram avaliados de manhã pelo próprio Neil. Ele investia uma energia desproporcional comentando o que você tivesse criado, dando dicas, tendo ideias ou dando porrada.

Duas semanas só de porrada e você era dispensado; duas semanas de ideias que faziam ele parar de fuzilar o papel, você passava para a proxima fase um andar abaixo.

Hermes Ursini

Assim, Neil nos guiou, um pequenos grupo de jovens duros e idealistas, alguns em trench coats comprados nos brechós do centro da cidade, como uma pequena manada até a Canaã prometida.  

Chegamos empoeirados na Criação da Norton toda branquinha, Liber Matteucci, Isabel Azevedo,  Ricardo Guimarães, eu, e lá já estavam Dodi Taterka, Kélio Rodrigues; no estúdio a Cristina Silva, o Marcinho e o Fabio.  E todos os astros pisavam o carpete de lã distraídos:  Wagner Morais, Fontoura, Jarbas, Helga Miethke, Magy, Marcius Cortez, Bá Galvão. Tudo o que Neil prometeu, ele cumpriu.  Aprendemos com os melhores.

A fazer propaganda  da melhor qualidade e a ligar e abastecer o motor que nos alimentou por toda a vida como criadores.
 
Neil nos deu tudo isso, o meio-ambiente que ele havia criado, e crescemos ali como plantas fortes e promissoras. Eramos tão ligados que quando ele empacava numa frase eu sabia quais eram as palavras que ele estava procurando e dizia. Você entende  o que isso significa. Todos nos tornamos à nossa maneira um Neil. Isso levei comigo por toda a vida profissional. Eu olhei tanto para o Neil que achava que tinha aprendido como ele pensava.


Quando tudo acabou e todos já tinham se mandado da Norton, lembro de nós que restamos, eu, Ricardo e Magy numa manhã triste, mandando uma mensagem para o Neil, com uma verdadezinha raivosa de cachorro abandonado. Ele estava exilado na Proeme e repondeu rápido:

“Eu ainda gosto de vocês”. 
Eu ainda gosto do Neil.

Eu me lembro dessa entrevista do Neil para o Nosso Jornal, feito por estudantes de jornalismo da FAAP que eu ajudava em algumas edições. Era a entrevista do mês, um pinga fogo estilo Pasquim, e eu estava lá. Do lado dos caras, na casa de uma das estudantes, depois do expediente.

Quando chegou e me viu no meio dos caras, Neil ficou arisco: – “O que você está fazendo aqui, Midi, do lado do inimigo?” Ele me chamava de Midi e ria sarcástico. Midi, de Midinight Cowboy, o filme dos anos 70. Ele sabia pelo Fontoura que eu aparecia toda meia noite no Bar Branco, lá no Bixiga. Por isso, no dia seguinte chegava atrasado na agência. O que acabou me custando uma demissão sumária. Ele me demitiu de manhã , eu montei campana na porta da Confeitaria Little e ele me recontratou ao voltar do almoço. Ficava mais calmo quando comia no Arroz de Ouro ali no Largo do Arouche.

 

A entrevista? Foi ótimo ver o Neil disparando sem parar; aos 28 anos, ele era imbatível. O Fontoura dizia que  Neil “falava títulos”: -“Quando ele começa, ligue o gravador que você já tem a campanha pronta”.

Olhando a cena do meu chefe no meio da fumaceira de  caras poucos anos anos mais novos,  e tomado pelo entusiasmo,”vi”a ideia de uma Lettera 35 disparando em várias direções.

Fiz a ilustração com varios lápis B7, Koh-I-noor fantásticos, cedidos pelo querido Giba, chefe de estúdio da Norton e senhor do mais belo estoque de materiais de arte do mercado.

Não via essa arte há séculos.

 

Hermes Ursini

Redator e Diretor de Arte, trabalhou na Norton, na Thompson e na Ogilvy, no Brasil.

Fundou seu studio creatif  em Paris entre os 70 e 80, Sillage Création, e de volta ao Brasil, sua agência, Light Criação. É roteirista, desenhista de quadrinhos e ilustrador.

Recentemente publicou a  graphic novel BANDO,  o livro Plural como o Universo- Fernando Pessoa para adolescentes, com Lara Prado, A Grande IIusão, com Fernando Emediato, o infantil Cabeça Cheia e o erótico Dedos Levianos, com Gilce Velasco.

Em 2025 lança a graphic novel Meu Hino e uma obra de 800 páginas, de Ricardo Prado, sobre os primeiro criadores do Brasil, surgidos nos anos 1800.

Ricardo Guimarães

Entre os jovens talentos que trabalhavam na Norton Publicidade no início dos anos 70, estavam Ricardo Guimarães e Hermes Ursini, que continuam amigos até hoje. Eles aparecem como figurantes no comercial do Banco Português (cliente da Norton  entre 1967 e 1972).

Ricardo de malha branca de gola alta. E o Hermes
à direita dele, atrás de um careca.

Neil, meu diretor de “crianção”

Aos 20 anos eu estudava na faculdade de direito do Largo de São Francisco, era apaixonado por ciência penitenciária, era filiado à Escola Socialista de Direito Penal liderada pelo prof Roberto Lyra e vivia trancado na biblioteca estudando por conta própria.

Depois de várias dramáticas desilusões com a realidade do Direito, abandonei o curso no 4º ano e decidi ganhar muito dinheiro sem ter que estudar.

Estava vagabundeando em busca de um destino quando li no jornal uma matéria sobre o “Neil Ferreira deixa a Almap para ser Diretor de Criação na Norton e ganha um Porsche de luvas!”

Fui ver o que era a carreira de “Diretor de Criação que ganha Porsche de luvas” e vi que redator de propaganda podia ser um começo.

Como nasci com queda para escrever, pensei: “Achei a profissão que vai me dar muito dinheiro sem ter que estudar.”

Nessa hora, Neil Ferreira era um semi deus de um mundo distante e misterioso chamado propaganda.

Me inscrevi no Instituto de Comunicação Publicitária para me ambientar.

Nessa altura meu pai perguntou sobre o curso de Direito. Eu disse que tinha abandonado mas estava fazendo faculdade de publicidade. Foi um horror! Ele explodiu; não porque eu abandonei o Direito, mas porque publicitário não era profissão séria! era marginal! que eu tinha que ser engenheiro! Advogado! Médico! profissões decentes !!!!

Para me castigar ele sentenciou: “já que você é mesmo um vagabundo, vai trabalhar na agência que faz propaganda para nós!!!

Eu perguntei à agência que era e ele respondeu: “Chama-se Norton Publicidade”. Eu obedeci e assim comecei minha história na propaganda como “castigo”.

Foi um começo muito difícil porque entrei para estagiar como filho de cliente em 1969 onde trabalhavam Os Subversivos, dirigidos pelo olímpico Neil Ferreira.

Você pode imaginar o que os subversivos achavam da minha origem burguesa? Cheguei a ouvir de um wannabe subversivo que eu estava roubando emprego de quem precisava trabalhar. Mas eu resisti.

 

Passei a primeira semana do estágio à toa, sem nada para fazer. Um dia criei coragem e subi logo cedo para falar com o ocupadíssimo e genial semideus Neil Ferreira para pedir algo para fazer. Curto e gentil ele disse para eu descer que ele já ia mandar um PIT – pedido de trabalho-  para mim.

Não mandou. No dia seguinte subi de novo e ele estava concentrado trabalhando num texto. Ele acusou minha presença com um olhar e um sorriso de esguelha, sem se desconcentrar. Eu, vendo um monte de PITs na beirada da mesa dele, rapidamente roubei o primeiro da pilha e sai correndo: era um pedido para fazer o anúncio do cliente Clineu Rocha, uma corretora de imóveis, cumprimentando a Comunidade Judaica pelo aniversário de Israel. Depois de uns três dias mostrei para os redatores subversivos – Fontoura, Marcius, Carlinhos Wagner e Galvão- uma lista de títulos. Eles acharam que tinha um muito bom: “Clineu Rocha cumprimenta o povo que conquistou o imóvel mais valioso do mundo: sua pátria.”

Maggy Imoberdof fez o layout e mostramos o anúncio para o Neil que me cumprimentou reconhecendo que eu tinha talento, garra e direito de lutar pelo meu espaço. Ganhei o respeito dele e, com o tempo, ganhei também a amizade.

No dia do meu casamento com a Lili na casa dos meus pais, apesar de bem informal, o teatro estava armado: tinha um altar, um padre, os pais, os padrinhos etc. Neil ficou bem atrás de mim. Na hora em que o padre pediu o meu Sim, Neil, puxando a barra do meu paletó, repetia no meu ouvido: “Diz que não! Diz que não! Diz que não”. A brincadeira desmontou meu personagem, eu morri de rir, ninguém entendeu a razão, eu disse que Sim e o Neil escreveu na minha biografia uma história deliciosa que até hoje eu adoro contar para os netos e amigos.

Neil para mim é esse moleque brilhante, desmedido, que brinca sério testando limites para saber até onde dá para ir.

Tive sorte de começar com o Neil e os queridíssimos subversivos que se tornaram a minha família de marginais que cuidou de mim durante muito tempo da minha vida pessoal e profissional.    

Ricardo Guimarãe e Hermes Ursini

Fiz carreira no mercado como redator e diretor de criação. E sempre criei muito caso com a política de remuneração de agências porque não garantia convergência de interesse entre cliente e agência, o que afetava o trabalho criativo. Até que para pôr em prática minhas próprias ideias – uma delas: “Comunicação é exercício de identidade”- tive que abrir minha própria agência em 1983. Dennis Giacometti, meu sócio, pensava como eu e decidimos trabalhar apenas com fee. Deu super certo. Quando Dennis e eu nos separamos eu continuei com a Guimaraes Profissionais. Deu certo também, tão certo que, em 1998, a Guima pariu a consultoria Thymus, especializada em identidade de marca. Em pouco tempo, descobrimos que o buraco era um pouco mais embaixo: era a identidade cultural da empresa que executava a estratégia e criava experiências no mercado que alimentavam a identidade da marca. Então hoje, a Thymus trabalha com uma abordagem integrada de negócios, marca e cultura a partir da identidade. Esse é o meu trabalho hoje.  

Armando Ferrentini

Comentário do Armando Ferrentini depois de ler o texto “Neil, o provocador “, de Roberto Duailibi.

Querido amigo Duailibi: Acabo de ler seu artigo “Neil Ferreira, o Provocador”, no Propmark desta semana, ora em circulacao. Gostei demais, como sempre aliás. Mas este me fez ler e relê-lo, por ter sido uma das “vítimas” do sarcasmo permanente do Neil, com quem me desentendi mais de uma vez, mas sempre respeitando sua grandeza profissional. Ao me deparar em primeiro lugar com o título que você deu a sua brilhante narrativa, devo parabeniza- lo, pois sempre curti o espírito provocador do Neil e muitas vezes, como bom neto de imigrantes napolitanos, divertia-me sem ele se dar conta disso. Ou se dava, preferia não deixar claro, para que esse jogo pudesse continuar.

Parabéns uma vez mais pela sua narrativa sempre brilhante e certeira ao tratar de um assunto que fez e no caso sempre fará parte da fantástica história da propaganda brasileira. Pena que não se fazem mais Neils como antigamente. A verdade é que nossos desentendimentos nos fortaleciam, até chegando hoje a conclusão que já não se fazem mais Neils como antigamente. E muito menos Robertos Duailibis, com a capacidade de muitos anos passados, conseguir descrever como se fosse no mesmo dia das provocações, episódios que ajudam a valorizar a própria história da propaganda brasileira. Abraços do Armando Ferrentini, antes de mais nada, um grande admirador seu.

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a matéria de Duailibi.

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Em seguida, Ferrentini mandou este depoimento.

Querida Eliana: Tudo o que poderia falar do Neil, o Duailibi já escreveu no meu jornal. Para ser diferente, teria que inventar, o que não gostaria de fazer. Espero que você compreenda e me poupe dessa situação. Se bastarem poucas palavras, afirmo com segurança que perdemos muito cedo  um profissional excelente da criação publicitária brasileira. Neil deixou e prossegue deixando muitas saudades na criação publicitária brasileira. Nosso país tem uma história recente de qualidade na sua propaganda, em grande parte devido ao apoio de uma nova geração de profissionais dos anunciantes, que tiveram a coragem de convencer seus superiores hierárquicos , que a comunicação publicitária precisava se adaptar aos novos tempos. Em muito contribuiu para essa evolução, festivais internacionais que motivaram os anunciantes, donos das verbas aplicadas na comunicação publicitária das suas empresas. Destaco com louvor o Cannes Lions, motivado no Brasil por uma figura inesquecível da então CP-Cinema e Publicidade, dirigida pelo inesquecível Vitor Petersen, um alemão que deixou o seu país e se radicou inicialmente na Argentina, onde acabou se convencendo que o país promissor da América do Sul era o Brasil, cujo desenvolvimento econômico era não apenas promissor, mas já o início de uma invejável realidade econômica. Peterson em boa hora transferiu-se então para o Brasil, incrementando a CP-Cinema e Publicidade do Brasil, uma produtora de comerciais para cinema, cuja exibição nas telas, embora combatida por alguns críticos especializados em longas metragens, foi ganhando terreno devido aos esforços muitos empresários do setor, apoiados por uma imprensa publicitaria, entre as quais me incluo, que estimularam a ideia da exibição de comerciais nas salas de cinema em todo o Brasil. Não foi fácil para ninguém essa tarefa, mas a publicidade uma vez mais venceu as resistências ortodoxias e a própria resistência do governo federal, que entre muitos sim e não, aprovou essa veiculação da publicidade antes das sessões dos longas.

O próprio governo federal brasileiro, antes defensor da proibição, acabou cedendo e regulando a matéria. Não foi uma batalha fácil, como pode parecer por estas poucas linhas que escrevo, mas fui um dos jornalistas batalhadores para que houvesse a aprovação e a regulamentação dessa “mídia” em nossas salas de projeção em todo o país. E aqui se destaca a figura gigante de Victor Petersen, em uma luta aparentemente inglória, mas com a vitoria  desejada pelo mercado publicitário brasileiro. Faziam parte dessa enorme batalha, alguns publicitários da Criação, que sabiam da importância da projeção de comerciais antes da exibição dos longas. Um desses profissionais foi o saudoso Neil Ferreira, que embora ainda muito jovem – e talvez por isso – engajou-se nessa luta para a liberação da publicidade nas salas de cinema, antes da projeção dos longas.

O mercado logo se ajustou a mais essa possibilidade de exibição e hoje, como público presente a uma sessão de longas, até aplaude alguns comerciais projetados. Neil Ferreira deve estar feliz onde se encontra.

 Armando Ferrentini