Ricardo Guimarães

Entre os jovens talentos que trabalhavam na Norton Publicidade no início dos anos 70, estavam Ricardo Guimarães e Hermes Ursini, que continuam amigos até hoje. Eles aparecem como figurantes no comercial do Banco Português (cliente da Norton  entre 1967 e 1972).

Ricardo de malha branca de gola alta. E o Hermes
à direita dele, atrás de um careca.

Neil, meu diretor de “crianção”

Aos 20 anos eu estudava na faculdade de direito do Largo de São Francisco, era apaixonado por ciência penitenciária, era filiado à Escola Socialista de Direito Penal liderada pelo prof Roberto Lyra e vivia trancado na biblioteca estudando por conta própria.

Depois de várias dramáticas desilusões com a realidade do Direito, abandonei o curso no 4º ano e decidi ganhar muito dinheiro sem ter que estudar.

Estava vagabundeando em busca de um destino quando li no jornal uma matéria sobre o “Neil Ferreira deixa a Denison para ser Diretor de Criação na Norton e ganha um Porsche de luvas!”

Fui ver o que era a carreira de “Diretor de Criação que ganha Porsche de luvas” e vi que redator de propaganda podia ser um começo.

Como nasci com queda para escrever, pensei: “Achei a profissão que vai me dar muito dinheiro sem ter que estudar.”

Nessa hora, Neil Ferreira era um semi deus de um mundo distante e misterioso chamado propaganda.

Me inscrevi no Instituto de Comunicação Publicitária para me ambientar.

Nessa altura meu pai perguntou sobre o curso de Direito. Eu disse que tinha abandonado mas estava fazendo faculdade de publicidade. Foi um horror! Ele explodiu; não porque eu abandonei o Direito, mas porque publicitário não era profissão séria! era marginal! que eu tinha que ser engenheiro! Advogado! Médico! profissões decentes !!!!

Para me castigar ele sentenciou: “já que você é mesmo um vagabundo, vai trabalhar na agência que faz propaganda para nós!!!

Eu perguntei à agência que era e ele respondeu: “Chama-se Norton Publicidade”. Eu obedeci e assim comecei minha história na propaganda como “castigo”.

Foi um começo muito difícil porque entrei para estagiar como filho de cliente em 1969 onde trabalhavam Os Subversivos, dirigidos pelo olímpico Neil Ferreira.

Você pode imaginar o que os subversivos achavam da minha origem burguesa? Cheguei a ouvir de um wannabe subversivo que eu estava roubando emprego de quem precisava trabalhar. Mas eu resisti.

 

Passei a primeira semana do estágio à toa, sem nada para fazer. Um dia criei coragem e subi logo cedo para falar com o ocupadíssimo e genial semideus Neil Ferreira para pedir algo para fazer. Curto e gentil ele disse para eu descer que ele já ia mandar um PIT – pedido de trabalho-  para mim.

Não mandou. No dia seguinte subi de novo e ele estava concentrado trabalhando num texto. Ele acusou minha presença com um olhar e um sorriso de esguelha, sem se desconcentrar. Eu, vendo um monte de PITs na beirada da mesa dele, rapidamente roubei o primeiro da pilha e sai correndo: era um pedido para fazer o anúncio do cliente Clineu Rocha, uma corretora de imóveis, cumprimentando a Comunidade Judaica pelo aniversário de Israel. Depois de uns três dias mostrei para os redatores subversivos – Fontoura, Marcius, Carlinhos Wagner e Galvão- uma lista de títulos. Eles acharam que tinha um muito bom: “Clineu Rocha cumprimenta o povo que conquistou o imóvel mais valioso do mundo: sua pátria.”

Maggy Imoberdof fez o layout e mostramos o anúncio para o Neil que me cumprimentou reconhecendo que eu tinha talento, garra e direito de lutar pelo meu espaço. Ganhei o respeito dele e, com o tempo, ganhei também a amizade.

No dia do meu casamento com a Lili na casa dos meus pais, apesar de bem informal, o teatro estava armado: tinha um altar, um padre, os pais, os padrinhos etc. Neil ficou bem atrás de mim. Na hora em que o padre pediu o meu Sim, Neil, puxando a barra do meu paletó, repetia no meu ouvido: “Diz que não! Diz que não! Diz que não”. A brincadeira desmontou meu personagem, eu morri de rir, ninguém entendeu a razão, eu disse que Sim e o Neil escreveu na minha biografia uma história deliciosa que até hoje eu adoro contar para os netos e amigos.

Neil para mim é esse moleque brilhante, desmedido, que brinca sério testando limites para saber até onde dá para ir.

Tive sorte de começar com o Neil e os queridíssimos subversivos que se tornaram a minha família de marginais que cuidou de mim durante muito tempo da minha vida pessoal e profissional.    

Ricardo Guimarãe e Hermes Ursini

Fiz carreira no mercado como redator e diretor de criação. E sempre criei muito caso com a política de remuneração de agências porque não garantia convergência de interesse entre cliente e agência, o que afetava o trabalho criativo. Até que para pôr em prática minhas próprias ideias – uma delas: “Comunicação é exercício de identidade”- tive que abrir minha própria agência em 1983. Dennis Giacometti, meu sócio, pensava como eu e decidimos trabalhar apenas com fee. Deu super certo. Quando Dennis e eu nos separamos eu continuei com a Guimaraes Profissionais. Deu certo também, tão certo que, em 1998, a Guima pariu a consultoria Thymus, especializada em identidade de marca. Em pouco tempo, descobrimos que o buraco era um pouco mais embaixo: era a identidade cultural da empresa que executava a estratégia e criava experiências no mercado que alimentavam a identidade da marca. Então hoje, a Thymus trabalha com uma abordagem integrada de negócios, marca e cultura a partir da identidade. Esse é o meu trabalho hoje.  

Armando Ferrentini

Comentário do Armando Ferrentini depois de ler o texto “Neil, o provocador “, de Roberto Duailibi.

Querido amigo Duailibi: Acabo de ler seu artigo “Neil Ferreira, o Provocador”, no Propmark desta semana, ora em circulacao. Gostei demais, como sempre aliás. Mas este me fez ler e relê-lo, por ter sido uma das “vítimas” do sarcasmo permanente do Neil, com quem me desentendi mais de uma vez, mas sempre respeitando sua grandeza profissional. Ao me deparar em primeiro lugar com o título que você deu a sua brilhante narrativa, devo parabeniza- lo, pois sempre curti o espírito provocador do Neil e muitas vezes, como bom neto de imigrantes napolitanos, divertia-me sem ele se dar conta disso. Ou se dava, preferia não deixar claro, para que esse jogo pudesse continuar.

Parabéns uma vez mais pela sua narrativa sempre brilhante e certeira ao tratar de um assunto que fez e no caso sempre fará parte da fantástica história da propaganda brasileira. Pena que não se fazem mais Neils como antigamente. A verdade é que nossos desentendimentos nos fortaleciam, até chegando hoje a conclusão que já não se fazem mais Neils como antigamente. E muito menos Robertos Duailibis, com a capacidade de muitos anos passados, conseguir descrever como se fosse no mesmo dia das provocações, episódios que ajudam a valorizar a própria história da propaganda brasileira. Abraços do Armando Ferrentini, antes de mais nada, um grande admirador seu.

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a matéria de Duailibi.

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Em seguida, Ferrentini mandou este depoimento.

Querida Eliana: Tudo o que poderia falar do Neil, o Duailibi já escreveu no meu jornal. Para ser diferente, teria que inventar, o que não gostaria de fazer. Espero que você compreenda e me poupe dessa situação. Se bastarem poucas palavras, afirmo com segurança que perdemos muito cedo  um profissional excelente da criação publicitária brasileira. Neil deixou e prossegue deixando muitas saudades na criação publicitária brasileira. Nosso país tem uma história recente de qualidade na sua propaganda, em grande parte devido ao apoio de uma nova geração de profissionais dos anunciantes, que tiveram a coragem de convencer seus superiores hierárquicos , que a comunicação publicitária precisava se adaptar aos novos tempos. Em muito contribuiu para essa evolução, festivais internacionais que motivaram os anunciantes, donos das verbas aplicadas na comunicação publicitária das suas empresas. Destaco com louvor o Cannes Lions, motivado no Brasil por uma figura inesquecível da então CP-Cinema e Publicidade, dirigida pelo inesquecível Vitor Petersen, um alemão que deixou o seu país e se radicou inicialmente na Argentina, onde acabou se convencendo que o país promissor da América do Sul era o Brasil, cujo desenvolvimento econômico era não apenas promissor, mas já o início de uma invejável realidade econômica. Peterson em boa hora transferiu-se então para o Brasil, incrementando a CP-Cinema e Publicidade do Brasil, uma produtora de comerciais para cinema, cuja exibição nas telas, embora combatida por alguns críticos especializados em longas metragens, foi ganhando terreno devido aos esforços muitos empresários do setor, apoiados por uma imprensa publicitaria, entre as quais me incluo, que estimularam a ideia da exibição de comerciais nas salas de cinema em todo o Brasil. Não foi fácil para ninguém essa tarefa, mas a publicidade uma vez mais venceu as resistências ortodoxias e a própria resistência do governo federal, que entre muitos sim e não, aprovou essa veiculação da publicidade antes das sessões dos longas.

O próprio governo federal brasileiro, antes defensor da proibição, acabou cedendo e regulando a matéria. Não foi uma batalha fácil, como pode parecer por estas poucas linhas que escrevo, mas fui um dos jornalistas batalhadores para que houvesse a aprovação e a regulamentação dessa “mídia” em nossas salas de projeção em todo o país. E aqui se destaca a figura gigante de Victor Petersen, em uma luta aparentemente inglória, mas com a vitoria  desejada pelo mercado publicitário brasileiro. Faziam parte dessa enorme batalha, alguns publicitários da Criação, que sabiam da importância da projeção de comerciais antes da exibição dos longas. Um desses profissionais foi o saudoso Neil Ferreira, que embora ainda muito jovem – e talvez por isso – engajou-se nessa luta para a liberação da publicidade nas salas de cinema, antes da projeção dos longas.

O mercado logo se ajustou a mais essa possibilidade de exibição e hoje, como público presente a uma sessão de longas, até aplaude alguns comerciais projetados. Neil Ferreira deve estar feliz onde se encontra.

 Armando Ferrentini

Itagiba Cobra 

No dia 7 de novembro de 2024 coloquei no Facebook uma mensagem que lembrava que Neil tinha partido sete anos antes. Pouco tempo depois recebi um áudio do Itagiba (*ver abaixo) transmitindo grande emoção e lembrando com carinho do amigo e parceiro de muitos trabalhos. “Tantas coisas aconteceram nestes sete anos. Hoje tenho uma netinha, a Valentina, que é a coisa mais linda. Mas cheguei à conclusão de que a vida seria mais fácil se o Neil ainda estivesse por aqui. Nos almoços em que nos reuniíamos frequentemente ele era o otimismo ambulante. Depois de uma reunião com o dono da Arisco, nosso cliente, que estava triste com a situação da economia, ele disse:” Está tudo esquisito mas veja, o caminhao da Sadia continua entregando os produtos deles”. Uma mente brilhante. A alegria que ele trazia para nossos encontros! Com a ida do Neil fiquei um cara mais solitário. Os amigos otimistas que geram palavras boas são muito importantes. Que falta o Neil faz!…. Eu ia sempre com o Neil aos jogos do São Paulo. A gente ia na Kombi da produtora. Ele ia na frente com o Mané, o motorista que trabalhou comigo por 30 anos, e a Kombi lotada de moleques, todos amigos do meu filho. Um dia a gente estava cortando caminho pra chegar mais cedo no meio de umas favelas; a Ju ligou pro Neil e ele falou pra ela: “Ju, Ju, avisa que estou sendo sequestrado!” Cada tirada! Chegava na produtora e pedia – tem suco de avião por aí? A reação dele era sempre engraçada, inesperada. Nós lançamos a Mariana Ximenes. Ela foi escolhida pelo Neil para fazer os anúncios da palha de aço Assolan (*vídeo abaixo). Para provocar o garoto Bombril. Ela foi contratada por 4 mil reais por mês, com contrato com a Arisco, assinado pela mãe dela. O Beto Brant dirigiu os filmes. Ele adorou a atuação dela e a convidou para participar de “O Invasor”, longa-metragem com Paulo Miklos. Este filme deu uma projetada nela e a Globo, através da Guta, convidou Mariana.”

Foi então que pedi autorização para trazer para o site trechos do livro “Segredos de Camarim” no qual Itagiba relata casos interessantes de sua longa e produtiva carreira como comunicador e produtor de comerciais. Selecionei os episódios nos quais Itagiba fala do Neil.

livro Segredos de camarim de Itagiba Cobra 

NEIL FERREIRA – CRIATIVIDADE À FLOR DA PELE

Neil Ferreira é uma dessas pessoas que entram na vida da gente e nunca mais saem, mesmo depois de terem ido embora sem se despedir.

Ele começou sua carreira profissional nos Diários Associados, uma das grandes redes de comunicação do Brasil, criada em 1924 por Assis Chateubriand.

Trabalhava como office-boy (o que equivale hoje ao motoboy, mas sem moto) na sede paulista do grupo que ficava no centro de São Paulo/SP, à Rua Sete de Abril.

Na mesma rua, de 1951 a 1970 funcionou a Escola Superior de Propaganda e Marketing, hoje ESPM, por onde passaram alguns dos mais importantes profissionais da propaganda brasileira. Apesar de Neil ter uma inclinação para o jornalismo, que o levou dos Diários Associados para a Folha de S. Paulo e para o Jornal do Brasil, os ares da convivência com o mundo dos comerciais e seus protagonistas acabou desviando sua carreira para a propaganda em 1964, quando começou a trabalhar como assistente do Roberto Duailibi, na então Standard Propaganda. Na verdade, a mudança não foi tão radical quanto parece, porque o universo do Neil era formado pelas palavras que brotavam da sua mente privilegiada, tanto nos editoriais, como nos comerciais. Ele era um mestre das ideias, das analogias, dos slogans. Neil foi, sem dúvida alguma, um dos maiores criativos da sua geração. De 1964 a 2002, quando decidiu deixar a propaganda e se dedicar à produção de crônicas e alguns freelancers, Neil produziu algumas das mais impactantes campanhas da história da mídia brasileira e, tenho certeza, ao menos uma delas você conhece bem: o Leão do Imposto de Renda. Este símbolo criado para a Receita Federal em 1978 existe até hoje e transformou o leão no símbolo nacional dos impostos.

Vou citar mais algumas criações famosas, algumas que você deve se lembrar também: o baixinho da cerveja Kaiser, o garotinho de olhos vendados identificando o “S” de Sadia no presunto e a morte do “Orelhão” da Telesp, que era a empresa proprietária dos telefones públicos de rua.

Daria para escrever vários livros apenas sobre a vida e a obra de Neil Ferreira, mas eu vou me concentrar na nossa amizade e no que desenvolvemos juntos para a comunicação da Arisco.

Por volta de 1994, eu já trabalhava produzindo comerciais para a Arisco quando recebi a notícia de que o Neil Ferreira começaria a criar algumas campanhas para ela. Eu só o conhecia a distância, apesar da enorme admiração que nutria pelo trabalho dele.

Procurei um amigo comum, o Luiz Cassino, um excelente diretor de arte que era extremamente próximo ao Neil, para que ele facilitasse o nosso encontro e aproximação. Quando nos apresentamos pela primeira vez, Neil usou da sua tradicional franqueza e me disse: “Estou acostumado a fazer filmes com outros diretores, mas vou dar uma chance a você de trabalharmos juntos. Eu preciso de um jingle para o comercial que eu criei com a Xuxa e as Paquitas jogando futebol no Maracanã. Se você me apresentar algo realmente bom, passaremos a trabalhar juntos”.

Essa foi a deixa para que eu pudesse mostrar do que era capaz e desse início a uma fantástica parceria com Neil que durou até o dia em que ele nos deixou, como costuma dizer o Rolando Boldrin, “Antes do combinado”.

Saí desse encontro animado e fui direto falar com o Thomas Roth, outro grande amigo e fantástico compositor, dono da produtora Lua Nova. Dividi com ele a responsabilidade de criar um jingle excepcional, do tipo “Chiclete” que gruda na orelha e não sai, para colocar na produção do vídeo que eu pretendia fazer com o Neil.

Pouco tempo depois, o Thomas produziu o jingle “Estou assim com Arisco, estou assim com você” e eu fui fazer a apresentação, O Neil ficou de boca aberta com as ideias e com a capacidade da música para ficar na cabeça sem dar trégua para o cérebro.

Estávamos às vésperas da Copa do Mundo e partimos imediatamente para a gravação do comercial no Maraca. Foi uma festa. A propaganda se transformou no grande hit do momento,alcançando um sucesso que foi aproveitado em muitas outras ações de comunicação.

O casamento entre as ideias foi tão proveitoso, que Xuxa passou a fazer parte constante de todos os comerciais da Arisco, a tal ponto que os boatos corriam soltos, supondo que ela fosse uma das acionistas da Arisco.

 

Itagiba Cobra

Este foi o momento mágico que me aproximou do Neil e deu início a uma amizade verdadeira, franca, duradoura e extremamente produtiva. Não paramos mais de trabalhar juntos.

Mais ou menos nesta época o Júnior, dono da Arisco, decidiu entrar no mercado de amido de milho. Em apenas alguns meses ele importou maquinário e deu início à produção. Era necessário um lançamento em alto estilo, capaz de desbancar a toda poderosa Maizena, para conquistar alguns pontos percentuais de market share.

O ponto-chave desse lançamento era a embalagem, cuja cor predominante era baseada no amarelo da maizena. A Refinações de Milho Brasil, dona da marca, entrou com um processo para que o produto fosse retirado do mercado até que as embalagens fossem modificadas e ficassem muito diferentes da tradicional “Amarelinha”. O desafio que já era gigante passou a ser imensurável. Como vender amido de milho no mercado de um jeito completamente diferente, quando o próprio produto só é conhecido pela marca do concorrente: Maizena. Este era mais um daqueles casos em que as marcas se tornam sinônimos de categorias, assim como Gilette, Cândida e Bombril, só para citar algumas.

Mais uma missão entregue ao super Neil. Numa manhã ele me chama e diz: “Eu preciso que você encontre uma escola com uma sala de aula muito bonita para gravarmos o novo comercial da Arisco”. Lá fui eu atrás de uma locação e encontramos o espaço ideal.

Partimos para as gravações. A cena era a seguinte: soa o sinal para o início da aula, as crianças correm para a sala e sentam-se em suas cadeiras. Neste momento, Pedrinho levanta a mão e pergunta: “Professora, eu tenho uma dúvida”.

A professora atenciosa cede espaço para a formulação da pergunta: “Eu estou vendo aqui no Dicionário do Aurélio (antecessor do Google) que o significado de Maizena é amido de milho. Então quer dizer que se a minha mãe comprar amido de milho da Arisco ela está comprando Maizena?”.

A professora com toda a tranquilidade e sabedoria responde: “Claro Pedrinho. Ela está comprando maizena”. E o filme terminava com a assinatura: “Amido de milho Arisco, a maizena da Arisco”.

O comercial foi para o ar, tornou-se um grande sucesso, conquistou uma fatia considerável do mercado de amido de milho e os advogados da Refinações ficaram sem novos argumentos para ação, porque o julgamento dos processos foi feito com base na descrição do dicionário Aurélio, que era uma referência definitiva para as nuances da língua portuguesa.

Mais uma vez Neil moldou as palavras e esculpiu uma verdadeira obra de arte para a história da propaganda brasileira.

No final da década de 1960, o Brasil vivia um momento bastante delicado para a liberdade de imprensa e as comunicações de um modo geral, porque a censura imposta pelo regime militar limitava bastante a livre expressão do pensamento.

Tudo o que se produzia passava por um filtro extremamente fino que retinha em sua trama qualquer conteúdo que não fosse insípido, inodoro e incolor como a água. Já era, talvez, o início da sociedade líquida, ou da modernidade líquida que foi imortalizada bem depois, em 1999, por Zygmunt Bauman.

Neste centro para escapar das limitações impostas, a melhor criatividade no jogo das palavras e boas estratégias das imagens. Exatamente as características nas quais Neil era um mestre e sabia utilizar como ninguém.

Foi assim que surgiu a ideia de lançar para o mercado da propaganda brasileira “Os Subversivos”, um grupo de criativos contratados pela agência Norton liderada por Geraldo Alonso Entre os “militantes” deste grupo estavam Neil Ferreira, Jarbas José de Souza, José Fontoura da Costa, Aníbal Guastavino e Carlos Wagner de Moraes.

O lançamento se deu com a veiculação de anúncios de página inteira nos jornais e páginas duplas em revistas, mostrando os cinco subversivos da propaganda empunhando suas armas formadas por máquinas de escrever e réguas “T”, instrumentos modernos na época, utilizados para escrever e arte-finalizar ideias.

O texto dessas propagandas comentava as “Armas terríveis que eles têm nas mãos” e continuava com uma provocação: “São armas que podem abalar governos”. Seguia dizendo que aqueles homens eram capazes de mudar a história do país e de qualquer produto.

Não é difícil imaginar que uma provocação desse tipo incomodaria as estruturas do regime militar. Para quem viveu este período, o simples fato de ler o que estava escrito já produzia um frio na espinha e um medo pela integridade alheia.

Geraldo Alonso foi convocado para uma visita cordial ao DOPS, onde era aguardado para fornecer explicações detalhadas sobre aquilo que parecia ser uma “conspiração” contra a ordem pública. Apesar do convite, ele não compareceu. Seus advogados foram em seu lugar e forneceram as explicações necessárias para acalmar os ânimos e esclarecer o mal-entendido

De qualquer forma, se para os militares a rebelião ficou justificada, para o mercado a revolução estava apenas começando. Os “Subversivos” de fato subverteram a ordem das coisas e começaram a produzir campanhas revolucionárias, tanto em termos de textos, quanto de imagens.

A linguagem da propaganda, neste momento, sofreu um abalo e deu um salto qualitativo, passando a colocar o Brasil no cenário da comunicação mundial, atraindo a atenção e conquistando prêmios que antes não eram sequer cogitados.

Neil e seus parceiros de combate deram início a uma guerra contra a mesmice e a própria censura, produzindo peças que desafiavam a imaginação e explodiam em criatividade.

Apesar da genialidade e da posição de destaque que ocupava, o Neil era bastante simples e respeitava todas as pessoas pelo que elas eram e não pelo que elas faziam. Durante algum tempo eu pedi ao motorista da minha produtora, o Mané, que ficasse à disposição do Neil para pegá-lo em casa na Granja Viana, com a perna quebrada, e o levasse para as reuniões ou onde mais ele precisasse. Em poucos dias ele conquistou o Mané e já se tornaram bons amigos.

Itagiba Cobra

Roberto Dualibi

Quando recebi o texto de Roberto Duailibi contando o que lembrava sobre Neil pedi que ele tentasse se recordar de outros casos, já que conviveram durante muito tempo. Pouco depois recebi um relato do que teria ocorrido em uma viagem a Paris, logo após o ataque às torres gêmeas, nos Estados Unidos. Chega a detalhes, como fixar a data da chegada ao aeroporto. Surpreendentemente a Polícia francesa logo determina que um agente, de origem marroquina, passe a segui-lo devido à semelhança do Neil com o terrorista que pilotava o avião que se chocou com a torre. Finalmente Neil confronta os policiais e acabam se entendendo e participando juntos do roteiro turístico previamente escolhido. Bem parecido com o Neil, certo? Fiquei muito admirada já que Neil nunca dividiu esta história com a família. Ainda bem que se abriu para o Roberto que tantos anos depois teve a oportunidade de divulgá-la aqui neste site.

Neil em Paris 

Eu vou contar a primeira viagem do Neil a Paris, tal como ele me contou, quer dizer, eu não estava com ele e não pude conferir se era verdade ou não.

O Neil viajou para Paris em 12 de setembro de 2001, logo após o atentado da turma da Al Qaeda às torres de Nova Iorque. Depois desse dia o mundo, em choque, nunca mais foi o mesmo. Ainda no aeroporto, passando por uma banca de jornais, ele viu o retrato dele na capa de uma revista, ou de um jornal, e foi lá ver de perto o que havia acontecido. Era uma foto de Mohammed Atta, o terrorista que atirou o avião contra a primeira torre. Mohamed era sósia dele, pareciam irmãos.

Neil ficou preocupado quando um policial, a paisana, começou a olhar muito atentamente para ele. “Eles não podem estar me confundindo”, pensou Neil, “o terrorista já morreu”. 

Mais tarde, caminhando pela avenida Champs-Élysées, percebeu que havia um policial à paisana atrás dele. Entrou numa loja, o policial entrou atrás. Parou num bistrô para comer alguma coisa, o policial ficou por perto. Quis ir a um cinema, mas achou que ficaria chato o policial aborda-lo e convidar a ir a uma delegacia. 

Foi ficando irritado, ia estragar suas férias. Neil criou coragem e se dirigiu ao policial, “Eu sei que vocês estão pensando que eu sou um árabe terrorista, não sou. O terrorista que vocês confundem comigo morreu, o avião dele bateu e ele foi o primeiro a morrer. E eu estou aqui vivo, preparado para voltar para o meu país”. “De onde você é?” perguntou o policial em árabe. A polícia francesa colocara um agente de origem marroquina para essa tarefa. Quando notou que o Neil não entendia a língua, repetiu a pergunta em francês. “Sou brasileiro”, respondeu Neil. 

“Quantos dias você vai ficar em Paris?” perguntou o policial. “Três dias e pretendo fazer esse roteiro”, disse Neil, mostrando um guia da cidade.

Aí o policial propôs, “Essa investigação para mim pode ser muito divertida, posso acompanhá-lo?”. 

Neil e o policial tornaram-se amigos e passaram juntos os três dias em Paris.
Essa foi a história que ele me contou. Até onde não sei é verdade.

Roberto Duailibi

Neil Ferreira, provocador

Neil e eu fomos grandes amigos por décadas, ou porque trabalhávamos juntos ou porque ele namorava minha irmã, Sonia Maria, por nove anos. Neste tempo acumularam-se muitas histórias.

Neil era um jovem de estatura mediana, muito magro, de pele azeitonada com olhos castanhos e cabelos despenteados, que não se vestia com muito apuro. Seu nome verdadeiro era Neil Haddad, mas ele nunca falou nada sobre seus pais e sua infância na cidade de Cerqueira Cesar, perto de Avaré. “Haddad” em árabe significa “ferreiro” e muitos imigrantes com esse sobrenome aportuguesaram-no para “Ferreira”.

Apesar de ser conhecido como socialista empedernido, desfilou por algum tempo pelas ruas de São Paulo dentro de um Moretti, um carro conversível vermelho de fabricação italiana.

Panfletário, mas nunca pertenceu a nenhum partido político.

Sabia chamar a atenção. Estava sempre sorrindo, era cheio de alegria e muito agitado. Pão duro como ninguém. Por anos almoçou na casa de minha mãe diariamente, na rua Eça de Queiroz, sob a desculpa de fazer economia para comprar um apartamento que estava em construção na Alameda Casa Branca – apartamento que nunca comprou. Mas minha mãe adorava ter a mesa cheia de amigos dos filhos, então Neil era sempre bem recebido.

Era ao mesmo tempo um chato e um provocador, a tal ponto que se tornava divertido e simpático com quem conversava.

Em meados dos anos 1960 eu trabalhava na Standard Propaganda, que ocupava um prédio inteiro na praça Roosevelt, o coração da elegância paulistana. A sede da agência era no Rio de Janeiro. Foi uma época gloriosa.

Pela agência circulavam Said Farhat, Júlio Cosi Jr., Milton Luz, Licinio Neves Tavares de Almeida, um diretor de arte português muito culto e elegante.

Naquele tempo ainda não havia televisão colorida e nem os recursos técnicos para fazer comerciais gravados, então a publicidade era principalmente veiculada em jornais, revistas, nas emissoras de rádios, em outdoors e em cartazes.

O principal cliente da Standard era a Shell, que imprimia suas peças publicitárias numa oficina de cartazes de cinema, em Madureira, no Rio. Um belo dia, por mero acaso, o diretor da Standard, Cícero Leuenroth, descobriu esta oficina e o contrato que ela tinha com a Shell. Resultado: comprou a oficina e ficou com a conta da Shell. Golpes de sorte como este aconteciam.

Naquele tempo o jeans não era usado no Brasil; era tido como roupa de agricultor americano – e ninguém queria parecer gringo por aqui: o sentimento anti-americano era muito forte. Mas Hans Berg que era o principal comprador de produtos da Sears Roebuck, convenceu a Alpargatas a confeccionar calças de brim azul que foram apelidadas de calças Rancheiro.

Os trabalhadores rurais brasileiros só usavam calça de tecido branco de algodão para poder remover os carrapichos que se agarravam ao tecido, portanto a cor azul não era propicia a essa limpeza. Para promover as calças Rancheiro, o sr. Berg contratou um ídolo do cinema americano, Roy Rogers, que desembarcou no Brasil com seu cavalo branco, para um show no Pacaembu. Esperava-se umas 5 mil pessoas – mas, surpresa! – o estádio ficou completamente lotado em seus 60 mil lugares. (Provavelmente o primeiro grande show em estádio realizado no Brasil), e conseguiu a proeza de tornar a calça rancheiro uma moda entre os jovens urbanos.

A  Standard Propaganda também tinha a conta da Rhodia, fabricante de fios sintéticos, que não dispunha de dinheiro para publicidade. Os fios sintéticos eram vendidos para as tecelagens como uma alternativa mais barata aos fios naturais.. Seu único anúncio trazia a ilustração de um fio e o título criado por Ernâni Donato, “O fio de Ariadne”, sem fazer referência a roupas e tecidos.

Como a Rhodia era um cliente sem dinheiro, o diretor da Standard em São Paulo, Said Farhat, mandou o gerente de propaganda da Rhodia, um jovem ator de teatro infantil chamado Lívio Rangan, ser atendido pelo gerente de departamento de outdoor, Renato Rosa. Como Renato não entendia nada de propaganda, veio me procurar com um pedido de socorro. Até ali, nenhuma propaganda da Rhodia havia sequer sugerido que seus fios serviam para fazer tecidos e, portanto, roupas. Então a ideia era convencer Dener, o estilista mais badalado do país, a confeccionar modelos com os tecidos feitos com os fios sintéticos da Rhodia. Dener desprezou os tecidos, mas topou o desafio – mesmo com pouco cachê na jogada.

Mas antes disso tínhamos de convencer algumas tecelagens a confeccionar tecidos estampados. O pai do Guilherme Afif Domingos ensinava, “Fabricar tecido branco é ouro; fabricar tecido colorido é prata; fabricar tecido estampado é merda”.

Lembro-me até hoje da entrevista que fiz com Denner em seu atelier na Avenida Paulista.

As roupas ficaram maravilhosas, buscamos quatro manequins belíssimas e contratamos o fotógrafo Otto Stupakoff, um verdadeiro artista, para registrar as moças vestidas com roupas com a marca de Dener associada à da Rhodia. Pensávamos, então, em publicar as fotos em jornais, como press release, mas o grupo Manchete estava chegando em São Paulo e quando Roberto Vasconcelos, o gerente carioca da revista, viu as fotos não pensou duas vezes: fez com que elas fossem publicadas em cinco páginas de uma de suas publicações.

A partir daí foi só alegria.

Tivemos a idéia de criar coleções e fotografá-las em paisagens brasileiras, Rio, Ouro Preto, cataratas do Iguaçu. Promovemos desfiles no Brasil e no exterior. Participamos da primeira Fenit (Feira Nacional da Indústria Textil) no Ibirapuera – onde, houve um show de uma garotinha que tocava violão com a turma perto de casa da rua Eça de Queiroz, na Vila Mariana… Rita Lee, lindinha, que fez o maior sucesso.

Bem, mas o trabalho para a Rhodia estava se tornando mais e mais pesado, e eu pensei em contratar um redator. Minha primeira opção foi convidar Jorge Ferreira, jornalista respeitado dos Diários Associados. Mas ele não se interessou em ingressar no mundo da publicidade. Sugeriu o nome de seu sobrinho, que recém ingressara nos Diários vindo de Cerqueira César – Neil Ferreira. Assim, Neil foi contratado como redator da Standard e milagrosamente deu-se muito bem com o Lívio Rangan. A partir de então acompanhou todas as peripécias que fizemos para difundir a marca no país.

Com o tempo, também Clodovil, que iniciava sua carreira de estilista, passou a produzir peças de roupas femininas feitas com fios sintéticos da Rhodia. Stupakoff, dono de um talento fora do comum e de um bom gosto excepcional, fotografou nossas modelos em Ouro Preto, posando em cima dos telhados. Depois em Foz do Iguaçu. E a coisa foi num crescendo tamanho que chegamos a alugar uma casa na Avenida Brasil onde oferecíamos cursos para estilistas. Nossas manequins foram o primeiro grupo reconhecido como modelos profissionais no país. E a Rhodia passou a ser conhecida e associada a roupa de qualidade.

Roberto Duailibi

Tínhamos um diretor de arte talentosíssimo, o português Licínio Neves Tavares de Almeida, pessoa de fino humor, que provocava a mim e a Neil quando passávamos por ele. Puxava uma espada imaginária e bradava o mote dos portugueses contra os mouros no século VIII: “Por Santiago e Rei Afonso!”. Ao que nós respondíamos: “Allahu Akbar!”,, cujo significado é “Deus é o maior”.

Uma vez recebemos um empresário que nos dizia já ter tentado o ramo do cimento, mas não ter ido bem; ter comprado uma tecelagem que não vingou, pois ele não entendia nada do negócio; depois ter experimentado uma fazenda para criação de gado leiteiro, que foi a bancarrota por causa de uma doença que atingiu os animais. Neil escutava com atenção. Quando o cliente se calou, Neil atacou: “Além de perder dinheiro, o que mais vocês sabem fazer?”.

Em março de 1964, quando houve a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, subimos os primeiros degraus de um prédio na Rua Sete de Abril para assistir à parada. Quando passava um grupo de meninas arrumadinhas, guiadas pelas freiras do Colégio Sion, Neil não perdeu a oportunidade: “Ei meninas! Eu sou comunista! Venham me converter, eu sou comunista!” ele gritava pra horror das freiras.

Em 1 de abril de 1964, um grupo de partidários de Leonel Brizola estava na praça Roosevelt afim de protestar contra o golpe. A rádio “Rede da Legalidade” bradava que havia ali uma multidão revoltosa. (Devia ter umas 30 pessoas). A Standard ficava exatamente na praça, então chegamos à janela para ver o que acontecia – e vimos meia dúzia de gatos pingados que nem barulho faziam. Neil não perdeu tempo: ligou para a rádio de Brizola, a Rede da Legalidade, que fora formada nos porões do Palácio Piratini, no Rio Grande do Sul, e aconselhou: “Mandem mais 10 gaúchos para engrossar o protesto porque a coisa aqui está fraca”.

Certa feita contratamos na Standard um redator um pouco mais velho do que nós, e muito famoso, Sergio Toni. Tinha uma voz tonitroante e era conhecido por saber vender bem suas campanhas. Ganhou imediatamente uma sala. Devido ao volume de trabalho, estávamos acostumados com agilidade: eu e Neil recebíamos um envelope com uma demanda de campanha, um prazo apertado para entregar os textos e logo entregávamos o serviço. Toni recebeu seu primeiro pedido de campanha e trancou-se em sua sala. Passou uma semana e a agência toda na expectativa “O Sérgio está pensando”. “Vem coisa boa aí”. Duas semanas depois ele entrega o texto – com um pequeno erro de português no título. Neil, com a melhor das boas intenções, apontou a falha. Sergio Toni ficou indignado. Com seu vozeirão, gritava “Meu nome é Sérgio Toni! Sér-gio To-ni”! “Como um caipirinha de Cerqueira César ousa corrigir Sergio Toni?”. Pediu demissão imediatamente. O caipirinha de Cerqueira Cesar ficou encarregado de terminar o serviço.

Houve outra passagem inesquecível que aconteceu quando já estávamos na DPZ. Estávamos solicitando a conta do uma famosa marca de hamburguer, que tinha uma filial ao lado do Mackenzie. Marcamos uma reunião com o cliente, um americano simpático, veterano de guerra com o braço esquerdo amputado. Ele era também o CEO das rações Purina. Esperávamos o gerente de propaganda do Rio de Janeiro, Juan Vicente. Na época eu criava cães da raça doberman, e enquanto esperávamos o Juan conversávamos sobre alimentação animal. Juan chegou atrasado com a desculpa de que estava almoçando numa das filiais da casa de hambúrguer do cliente. Neil disse com a maior naturalidade: “Nós aqui falando de comida de cachorro e você comendo comida de cachorro!”

Ele era provocador assim, e tinha manias. Uma época, por exemplo, resolveu virar macrobiótico – e nos almoços, a cada garfada, mastigava 40 vezes. Ninguém aguentava ver aquilo. Um almoço demorava duas horas.

Na DPZ Neil fazia parceria com Zaragoza e os dois se davam muito bem. Mas um dia se desentenderam e Neil, indignado, pediu demissão. Então Zaragoza fez publicar nos jornais uma nota: “Neil, queridinho! Volte pra casa. Tudo está perdoado.” Neil voltou.

Quem não gostou foi o Washington Olivetto e o Petit, que viam no Neil um rival talentoso e sarcástico. Pouca gente sabe que essa era uma característica da DPZ: cada andar tinha uma dupla: no quinto, Petit e Washington; no sexto, Zaragoza e Neil; no sétimo, eu e o Murilo Felisberto. O Neil dizia que quando um andar perdia uma conta, o cliente não saia porque era atendido por uma das outras “agencias”. E assim chegamos a ser a maior agência do Brasil. De cada andar sairam grandes idéias. Do Neil podemos falar ainda da Morte do Orelhão (para a Telesp), do Baixinho da Kaiser, do menino passando a mão sobre o presunto Sadia. Cada uma dessas campanhas merece uma história à parte.

E cada andar, se tivesse uma boa idéia para um cliente de outro andar, sentia-se livre para apresentá-la. Apesar das rivalidades, havia respeito mútuo.

Nessa época sai dali uma oportunidade provocadora. O cliente era o governo Figueiredo, mais exatamente a Receita Federal, que precisava divulgar o Imposto de Renda como algo sério para a população. Para provocar o governo, Neil apareceu com a idéia do leão, uma proposta apresentada como denúncia, ou como ameaça, para ser recusada.

Como eu concordava com a tese, fiquei, como sempre, de apresentar para o cliente, já sabendo que a idéia seria recusada. Mas milagres acontecem. Apresentei a campanha para o gerente de comunicação da Receita, Claudio Borges, que era muito amigo meu e ex-aluno da ESPM, onde nos conhecemos. Surpreendentemente, ele aprovou. Fomos apresentar a campanha para Francisco Dornelles, secretário da Receita, que, para minha surpresa, aprovou também. Finalmente para o Ministro Karlos Rischbieter, ministro da Fazenda do governo João Figueiredo, que gostou da ideia.

O que era para ser uma denúncia se transformou num símbolo. Na época eu atribui esss aprovações ao fato de que Claudio Borges, Francisco Dornelles e Karlos Richbieter eram carecas e a juba do leão era para eles uma compensação.
Aí começa uma epopéia. O produtor Andrés Buscovinsky foi buscar um leão velho de circo para filmar o anúncio – com a equipe de filmagem numa jaula, enquanto o leão e o domador ficaram livres no picadeiro pela primeira vez. O domador morria de medo.

Sugeri que a equipe de filmagem, Neil principalmente, ficasse presa para sempre na jaula.

A campanha foi um sucesso e os circos do país passaram a anunciar que tinham em seu elenco o Leão do Imposto de Renda – personagem que durou muito tempo, querido e ao mesmo tempo temido por todos, criação de Neil, o comunista.

Roberto Duailibi
Publicitário, escritor,  membro da Academia Paulista de Letras

Fre Zaragoza

O Neil sempre foi muito
gentil comigo.

E engraçado. Tive uma pequena agência chamada Fre&Fre e fizemos anúncios juntos. Privilégio e sorte de tê-lo como redator. Fizemos um anúncio para a Veja do lançamento do banco São Jorge. Saímos do cliente na avenida Paulista de helicóptero para conhecer o patrimônio que era uma distribuidora de farinha de trigo em
Santo André.

Ele quase teve um treco na decolagem do último andar. Como ele não esperava por isso imaginem a expressão dele. Inesquecível. Sempre nos víamos em Paris junto ao meu pai e ao uísque irlandês. Sempre de bom humor. Alto astral e humilde.

Sinto falta dele e nunca o esquecerei. Muitos prêmios, risadas e caráter.

Fre e seu neto Theo.

Graaaaaande Neil, obrigado por tudo.

João Meirelles

Moisés Rabinovici indicou para mim os nomes de Rodrigo Mesquita e João Meirelles para escrever um depoimento sobre atuação do Neil na campanha publicitária da Fundação SOS Mata Atlântica. Fui logo atendida pelo João, que mandou um lindo texto com imagens de anúncios e uma foto em que ele aparece, aos 27 anos, em frente a um outdoor da campanha. Hoje o João dirige o Instituto Peabiru, sediado no Pará cuja missão é fomentar o protagonismo de grupos sociais da Amazônia para a promoção do pleno acesso aos seus direitos fundamentais.

EMF

Depoimento sobre a identidade visual da Fundação SOS Mata Atlântica

Em 1986, a convite de Rodrigo Mesquita, que assumiu a presidência da Fundação SOS Mata Atlântica, na medida que Fábio Feldman saíra como candidato a deputado federal, tornei-me vice-presidente da entidade no lugar de Roberto Klabin. Um dos primeiros trabalhos em que me engajei foi a busca de uma identidade visual para que a SOS se apresentasse à sociedade e levasse adiante as campanhas de mobilização da opinião pública que pretendia. A proposta foi convidar uma grande agência de publicidade para liderar o processo de comunicação visual e mobilização de parceiros. Assim, Rodrigo Mesquita e eu procuramos o Roberto Duailibi, da agência de publicidade DPZ e ele prontamente abraçou a causa envolvendo gratuitamente a sua equipe. Para criar a identidade visual e a campanha da nova entidade ambientalista Roberto destacou Neil Ferreira e sua equipe.

Em poucas semanas fomos chamados à DPZ e Neil nos apresentou a proposta
de logotipo para a SOS – a bandeira do Brasil com parte do verde rasgado; e, em
lugar das palavras “ordem e progresso”, o mote da entidade – “SOS Mata Atlântica”; e, um slogan para a campanha “Estão tirando o verde da nossa terra”.

A proposta foi aprovada com entusiasmo pelo conselho da SOS e Neil e sua
equipe prepararam as peças da campanha nas diferentes mídias – papelaria,
folhetos, anúncios para outdoor, anúncios para televisão etc.

Para apoiar a captação de recursos iniciamos a produção e comercialização
de camisetas. Em poucos meses estávamos vendendo 40 mil unidades e,
novamente, recorremos à DPZ, que nos apresentou a Hering, a maior fabricante de camisetas do Brasil, para o licenciamento da marca da SOS. Nos dois anos de
campanha com a Hering foram confeccionados 49 modelos, vendendo-se uma cifra superior a 650 mil camisetas. O logotipo de Neil foi tão marcante, que 34% das camisetas (225 mil unidades) foram do modelo em branco com o logotipo da SOS Mata Atlântica

Quem acompanhou a campanha publicitária da SOS entre 1987 e 1988, há
quase quarenta anos, em que centenas de meios de comunicação se envolveram,
graças ao empenho de Rodrigo Mesquita, bem se recorda do impacto que a campanha teve, com um logotipo tão assertivo e pungente, na população brasileira.

Além do apoio das federações do comércio e indústria, Rodrigo conseguiu amealhar o apoio dos fornecedores da DPZ, das associações que representavam empresas de rádio, televisão, jornais e publicidade, resultando na maior campanha ambientalista da história do Brasil, apoiada voluntariamente pelas 7 emissoras de televisão aberta, mais de 200 rádios, 110 jornais, 80 revistas, além de 50 outdoors em São Paulo. E, isso num momento em que não existia a tv por assinatura, as mídias sociais e a internet dava os seus primeiros passos.

Se essa campanha fosse paga, somaria pelo menos três milhões de dólares
norte-americanos, algo hoje próximo a R$ 16 milhões. Rodrigo trabalhava a nível
institucional e eu fazia o acompanhamento das empresas de mídia. Foram
distribuídos, ainda, mais de 50 mil adesivos Brasil afora, amplamente utilizados em veículos além de milhares de folhetos, bottons e cartazes e enviadas 20 mil malas diretas.

Neil nos deu esta enorme e amorosa lição – e que carrego em minha vida de
dirigente de organizações socioambientalistas –, a de contar com empresas e
profissionais do design e da publicidade para que as causas da sociedade sejam
comunicadas de forma clara e contundente.

O Brasil descobriu que 60% de sua população vivia sobre os escombros do
bioma Mata Atlântica, e que era urgente proteger os menos de 10% que restavam.
Obrigado Roberto Dualibi e Neil Ferreira e toda a equipe da DPZ e dos meios
de comunicação que contribuíram para a visibilidade e a urgência de conservar a
Mata Atlântica.

João Meirelles Filho

Ercílio Tranjan

Neil, a marca.

Nós, profissionais de criação de propaganda que nos autointitulamos criativos, estamos sempre à procura da slogan, da palavra-chave, daquilo que sintetiza o diferencial de uma marca, de um produto, de uma. empresa, de uma pessoa. Em poucas palavras, a marca da marca. E quando chegamos lá, orgulhosamente nos
tornamos “o autor”.

E foi atrás desse slogan e dessa palavra, da marca do Neil, do que ele representou no mundo da propaganda, que eu acabei chegando lá.

Cheguei no anúncio que o Neil criou na Norton, e para a Norton, agência de publicidade onde ele era o diretor de criação. Na foto, lá estava a fantástica equipe de criação que ele montara, Neil à frente. E o título: “Os subversivos”.

Essa era uma palavra forte e cheia de significados em tempos de ditadura.

Traduzia à perfeição o que o Neil representava: a ousadia, a inovação, ir contra a tradição, o de sempre, enfim, romper com as “ditaduras”. Subversão pura.

Então, pensei que, por mais que eu tentasse, não chegaria nunca a um slogan tão definitivo e tão verdadeiro:

Neil, o subversivo.

Assim, resolvi copiá-lo.

Mais uma vez, o Neil tinha chegado na frente.

Ercílio Tranjan
Publicitário

Alexandre Machado

De cara, duas coisas me ligaram ao Neil: o amor à minha irmã
Eliana e ao São Paulo.

O casal Eliana/Neil foi um sucesso; alias continua a mesma paixão após sua saída de cena.

Já a sua relação com o São Paulo F.C. foi antes de tudo emocional. Uma relação de amor total mas cheio de desconfianças com os “inimigos”.

É que Neil cruzava seu passionalismo com toques de humor muito peculiares. Seus exageros e espírito crítico serviam como temperos para seus textos geniais na publicidade onde sobressaíam uma inteligência brilhante e aguda.

Esse passionalismo também temperava o amor pelo São Paulo. Meio galhofeiro, meio a sério, Neil sempre enxergava alguma conspiração. Eram todos contra o tricolor:

Sempre alguém estava tramando algo contra o São Paulo.

Especialmente o Corinthians, principal adversário. : “hoje vamos arrasar ‘us’ preto” dizia brincando. Atenção: era brincadeira mesmo, Neil definitivamente não era preconceituoso.

Fanático pelo São Paulo passou o privilégio de ser são paulino para o filho Zé Bento que por sua vez lhe deu um neto chamado Luis Fabiano, nome de um dos maiores centro-avantes que já se viu—apelidado pela torcida são paulina de Luis Fabuloso.

Publicitário consagrado, “gênio” da profissão, o sucesso tinha a ver com uma rotina de trabalho impressionante. Quando ainda estava na DPZ me contou que fazia todos os dias um texto para cada cliente; quando chegava a hora de uma campanha ele já partia com uma pasta cheia de idéias.

Outra razão para tanto sucesso era o amor pelo cinema. Neil dormia pouco. Lembro de uma conversa em que ele contava ter a mesma insônia do Fidel Castro.

Alexandre e Neil

Todas as noites, durante a insônia, assistia um filme. Essa era outra marca pessoal/profissional do Neil. Uma cultura cinematográfica impressionante a completar seu perfil de profissional. Além do domínio do texto essa proximidade com o cinema era parte de sua criação junto a profissionais como o seu querido amigo, diretor de cinema Júlio Xavier da Silveira.

Neil também partilhava comigo lembranças de seu início de carreira como jornalista.

Nós dois trabalhamos nos Diários Associados , grupo que nas décadas de 1950 e 1960 tinham um tamanho parecido com que mais adiante conformou a Globo.

Só que os Diários tinham uma administração caótica. O cotidiano parecia uma chanchada permanente. Assunto não faltava. Também a política merecia do Neil posições candentes.

Não é o caso de mencionar aqui as suas preferências mas como sou jornalista o debate político era motivo de arrebatadas avaliações do Neil; arrebatadas, inteligentes e agudas.

Na verdade, meu cunhado tão emocional e apaixonado era ainda mais emocional e apaixonado quando se tratava de seu núcleo familiar.

Eliana, sua companheira de vida, seus filhos e seus netos.

Alexandre Machado
Jornalista

Joca Benavent

“Querida”,”Jorgete”,

esses eram alguns dos termos carinhosos com os quais ele me chamava. Pra falar do Neil preciso contar um pouco da minha relação com ele nos 14 anos que dividimos o 6°andar da DPZ.

Em 1977 eu,  com apenas dezessete anos, resolvi levar meu portfólio para o Zaragoza.ver. Depois  de um mês de tentativa, entre marca e desmarca entrevista,  Maria José a “poderosa” secretária,  muito educada,  dizia  que “eles” tinham ido para o Rio de Janeiro levar uma campanha, que o Zaragoza não tinha voltado do Guarujá , etc  , etc, etc. Até que, finalmente, acabei  sendo recebido pela maior dupla que a propaganda já criou: José Zaragoza e Neil Ferreira.

Zaragoza amou meu trabalho de cara. Eu havia feito algumas produções para o fotógrafo Luiz Tripolli,  outro super star da época.

Modéstia à parte, tenho uma caligrafia muito boa, e na época o Zaragoza estava criando a Papier  , uma papelaria maravilhosa, com cartões personalizados, enfim era a mais chic do mercado.   A  única!

Um caderno com uns layouts da moda, perfumes , uns desenhos a lápis…  Ele foi vendo um por um e pediu para que o Neil desse uma olhada. O Neil também olhou um por um, me encarando sem falar nada, só olhava pra mim e para o portfólio. E aí ele sai com essa:  “Zara temos que mandar atropelar esse cara!”  Na hora quis morrer, depois vim entender o significado. Estava contratado!
 
Minha felicidade foi enorme  .  Não esperava isso, muito menos ser assistente pessoal do Zaragoza.

Aí, meu mundo mudou do dia pra noite. Ver como eles trabalhavam era uma escola! Neil recebia o Briefing , (e havia muitos na sua mesa), e daí a mágica começava.  O Zaragoza já pedia para que eu, a partir de um “rough” encontrasse uma foto na biblioteca do 7°andar que traduzisse aquele desenho feito com caneta futura, com pincel mergulhado na água… . Depois a foto, montada num papel  , pedia os guaches e as anilinas. E a mágica se tornava real, transformando totalmente a imagem, criando um layout espetacular. Depois  vinham o título e o texto do Neil  . Muitas vezes o  Zaragoza pedia para diminuir ou aumentar,  para  que o layout saísse do jeito que ele queria. O Neil ficava puto, mas obedecia ao “mestre” como ele o chamava (às vezes,  para os mais íntimos,  de “a veia”.)
 
Ano após ano,  foram sendo criadas as campanhas mais ousadas da propaganda brasileira. Comecei a me destacar nas contas com as quais eu mais me identificava. Sempre com muito sexo nas entrelinhas.

Equipe DPZ

Para Hering, por exemplo,  a linha de underwear,  os modelos estavam com ereção!!!  Para o café Caboclo ,  o “Caboclinho gostoso” , um modelo super sensual. Para toalhas Artex, um grupo de homens lindos numa sauna.  E para concluir, a campanha para a perfumaria Rastro “contatos irresistíveis de 1º, 2º ou qualquer outro grau”. Homem com homem, mulher com mulher, filho e mãe, (eu fui o filho Édipo,  e Jocasta a Karen Rodrigues).A campanha era tão grande e tão luxuosa que foi parar no Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Um escândalo! Eu escolhia tudo: o cenário, os modelos, os figurinos, as locações. Tinha carta branca, pois eles confiavam em mim. E o Neil amava, pois estava vendo as suas criações saindo da sua cabeça para a Olivetti, de um jeito esplendoroso. . Eram as criações com as quais  eles mais se divertiam,  pois os demais clientes eram de um perfil mais austero:  Receita Federal, Telesp, Johnson & Johnson, etc.
 
Era um prazer ir trabalhar das 8 da manhã, até sabe-se lá  que horas ,  pois não dava vontade de fazer mais nada a não ser esperar para comemorar com fogos  e muita champagne a aprovação das campanhas,  90% delas eram.
 
Foram anos maravilhosos que passamos juntos. Saí da DPZ para,  junto com minha irmã Loly , (a “cunhada” como ele carinhosamente a chamava), criar a  Trash Chic ,  a qual  tenho até hoje. Um Second Hand de luxo, muito antes dessa febre de consumo inconsciente. Ela existe há 30 anos e agora o destino me trouxe de volta onde tudo começou, na Rua Gumercindo Saraiva. Onde Infelizmente existia o prédio da DPZ, que foi demolido para dar lugar a um complexo imobiliário de alto padrão.
 
A DPZ foi um luxo pra mim. Devo muito ao Neil por esses 14 anos que convivemos diariamente. Eram outros tempos. Maravilhosos!A última vez que vi o Neil foi no seu velório. Não pude deixar de falar,
– Querida vou sentir saudades!

Joca Benavent