Entre os jovens talentos que trabalhavam na Norton Publicidade no início dos anos 70, estavam Ricardo Guimarães e Hermes Ursini, que continuam amigos até hoje. Eles aparecem como figurantes no comercial do Banco Português (cliente da Norton entre 1967 e 1972).
Ricardo de malha branca de gola alta. E o Hermes
à direita dele, atrás de um careca.
Neil, meu diretor de “crianção”
Aos 20 anos eu estudava na faculdade de direito do Largo de São Francisco, era apaixonado por ciência penitenciária, era filiado à Escola Socialista de Direito Penal liderada pelo prof Roberto Lyra e vivia trancado na biblioteca estudando por conta própria.
Depois de várias dramáticas desilusões com a realidade do Direito, abandonei o curso no 4º ano e decidi ganhar muito dinheiro sem ter que estudar.
Estava vagabundeando em busca de um destino quando li no jornal uma matéria sobre o “Neil Ferreira deixa a Denison para ser Diretor de Criação na Norton e ganha um Porsche de luvas!”
Fui ver o que era a carreira de “Diretor de Criação que ganha Porsche de luvas” e vi que redator de propaganda podia ser um começo.
Como nasci com queda para escrever, pensei: “Achei a profissão que vai me dar muito dinheiro sem ter que estudar.”
Nessa hora, Neil Ferreira era um semi deus de um mundo distante e misterioso chamado propaganda.
Me inscrevi no Instituto de Comunicação Publicitária para me ambientar.
Nessa altura meu pai perguntou sobre o curso de Direito. Eu disse que tinha abandonado mas estava fazendo faculdade de publicidade. Foi um horror! Ele explodiu; não porque eu abandonei o Direito, mas porque publicitário não era profissão séria! era marginal! que eu tinha que ser engenheiro! Advogado! Médico! profissões decentes !!!!
Para me castigar ele sentenciou: “já que você é mesmo um vagabundo, vai trabalhar na agência que faz propaganda para nós!!!
Eu perguntei à agência que era e ele respondeu: “Chama-se Norton Publicidade”. Eu obedeci e assim comecei minha história na propaganda como “castigo”.
Foi um começo muito difícil porque entrei para estagiar como filho de cliente em 1969 onde trabalhavam Os Subversivos, dirigidos pelo olímpico Neil Ferreira.
Você pode imaginar o que os subversivos achavam da minha origem burguesa? Cheguei a ouvir de um wannabe subversivo que eu estava roubando emprego de quem precisava trabalhar. Mas eu resisti.
Passei a primeira semana do estágio à toa, sem nada para fazer. Um dia criei coragem e subi logo cedo para falar com o ocupadíssimo e genial semideus Neil Ferreira para pedir algo para fazer. Curto e gentil ele disse para eu descer que ele já ia mandar um PIT – pedido de trabalho- para mim.
Não mandou. No dia seguinte subi de novo e ele estava concentrado trabalhando num texto. Ele acusou minha presença com um olhar e um sorriso de esguelha, sem se desconcentrar. Eu, vendo um monte de PITs na beirada da mesa dele, rapidamente roubei o primeiro da pilha e sai correndo: era um pedido para fazer o anúncio do cliente Clineu Rocha, uma corretora de imóveis, cumprimentando a Comunidade Judaica pelo aniversário de Israel. Depois de uns três dias mostrei para os redatores subversivos – Fontoura, Marcius, Carlinhos Wagner e Galvão- uma lista de títulos. Eles acharam que tinha um muito bom: “Clineu Rocha cumprimenta o povo que conquistou o imóvel mais valioso do mundo: sua pátria.”
Maggy Imoberdof fez o layout e mostramos o anúncio para o Neil que me cumprimentou reconhecendo que eu tinha talento, garra e direito de lutar pelo meu espaço. Ganhei o respeito dele e, com o tempo, ganhei também a amizade.
No dia do meu casamento com a Lili na casa dos meus pais, apesar de bem informal, o teatro estava armado: tinha um altar, um padre, os pais, os padrinhos etc. Neil ficou bem atrás de mim. Na hora em que o padre pediu o meu Sim, Neil, puxando a barra do meu paletó, repetia no meu ouvido: “Diz que não! Diz que não! Diz que não”. A brincadeira desmontou meu personagem, eu morri de rir, ninguém entendeu a razão, eu disse que Sim e o Neil escreveu na minha biografia uma história deliciosa que até hoje eu adoro contar para os netos e amigos.
Neil para mim é esse moleque brilhante, desmedido, que brinca sério testando limites para saber até onde dá para ir.
Tive sorte de começar com o Neil e os queridíssimos subversivos que se tornaram a minha família de marginais que cuidou de mim durante muito tempo da minha vida pessoal e profissional.

Ricardo Guimarãe e Hermes Ursini
Fiz carreira no mercado como redator e diretor de criação. E sempre criei muito caso com a política de remuneração de agências porque não garantia convergência de interesse entre cliente e agência, o que afetava o trabalho criativo. Até que para pôr em prática minhas próprias ideias – uma delas: “Comunicação é exercício de identidade”- tive que abrir minha própria agência em 1983. Dennis Giacometti, meu sócio, pensava como eu e decidimos trabalhar apenas com fee. Deu super certo. Quando Dennis e eu nos separamos eu continuei com a Guimaraes Profissionais. Deu certo também, tão certo que, em 1998, a Guima pariu a consultoria Thymus, especializada em identidade de marca. Em pouco tempo, descobrimos que o buraco era um pouco mais embaixo: era a identidade cultural da empresa que executava a estratégia e criava experiências no mercado que alimentavam a identidade da marca. Então hoje, a Thymus trabalha com uma abordagem integrada de negócios, marca e cultura a partir da identidade. Esse é o meu trabalho hoje.