Rose Gobbi

Eu fui durante muito tempo locutora da Radio Eldorado FM.

Costumava abrir as manhãs da Radio, fazendo um programa chamado Sunrise.

Diariamente às seis da manhã, levava aos ouvintes madrugadores como eu, o melhor em matéria de rock dos anos 60 e 70.

Era incrível fazer a programação na hora e contar com as opiniões dos ouvintes. Eles pediam por telefone e muitas vezes por fax e eu atendia. Certa manhã, recebo uma ligação que me deixou sem palavras! Do outro lado da linha, um ouvintes simpático pra caramba, começou a falar sobre a música que eu estava tocando naquele momento: Bob Dylan, Hurricane.

Ele falava e eu ouvia ao fundo a música tocando no rádio do carro dele, enquanto conversávamos sobre toda a história que envolvia aquela canção. Batemos um longo papo e ao término da conversa, eu perguntei: Mas qual é mesmo o seu nome? ” Meu nome é Neil, Neil Ferreira.

Os dias iam passando e esse tal de Neil participava quase que diariamente, sempre muito colaborativo e falando das canções que eu tocava sempre de forma muito apaixonada.Eu conseguia perceber o quanto aquilo mexia com ele. Certa vez, logo cedinho, recebo uma ligação da portaria da rádio.
Rose, tem um senhor aqui dizendo ser seu ouvinte e quer te dar um abraço. 
Como eu sempre amei falar com meus ouvintes, liberei a entrada no estúdio da rádio.

Entra um cara de cabelos grisalhos de sorriso aberto, e não me recordo sinceramente se a filha estava com ele. Ele se apresenta… Oi Rose, eu sou aquele ouvinte que ligou a primeira vez pra falar do Bob Dylan, Neil Ferreira lembra?

Mas é lógico que me lembrei na hora. Começamos a conversar e ele me disse algo que ficou pra sempre na minha memoria e na historia do programa.
Estas foram as palavras dele que me marcaram muito:
”Rose, eu vim aqui pra te dar um abraço e agradecer pelo que você nos proporciona todas as manhãs.

Você não tem ideia de como sua voz no radio e as musicas que toca nos fazem felizes.

É através do seu programa que intensifico a relação entre pai e filha. Levando a Ju pra escola e te ouvindo, me aproximo ainda mais dela. A gente troca informações, eu conto as historias por trás dos clássicos do rock que você toca e sinceramente isso trouxe uma aproximação muito bacana com minha filha.”


Naquele momento, eu percebi que estava fazendo aquilo do jeito certo, do meu jeito, pois tudo era feito na hora, sem programação prévia, sem pensar em nada. Apenas pegava os discos e tocava aquilo que mexia comigo naquele momento. Era como se eu estivesse tecendo uma teia de músicas, ouvintes, que iam se tornando amigos e ficavam gravados nas nossas memórias.

Aquele momento , me deixou muito emocionada e eu só pude agradecer imensamente. Ele foi embora, acho que a filha Juliana estava junto e eu ganhei meu dia.

Mais tarde comentei o episódio com um amigo da Rádio. Ele olhou pra mim e disse: Rose, o Neil Ferreira esteve aqui? Você tá falando sério?

Eu então, olhei nos olhos dele e disse: o NEIL FERREIRA?????? Por acaso será que é o mestre da publicidade, aquele gênio é meu ouvinte????

É isso mesmo? Só depois, é que eu fui me tocar com quem eu tinha aquele contato diário.

Isso só me fez admirar ainda mais aquele cara de alma leve, feliz, que entrou no estúdio naquele dia.

Um homem que em momento algum, usou do nome pra se fazer parecer mais importante que os outros ouvintes. Usou apenas o grande coração pra expressar gratidão por eu proporcionar momentos lindos com a filha adolescente na ida para a escola.

Neil, uma estrela que passou e iluminou um dia qualquer na minha vida e se tornou pra sempre uma linda lembrança.

Onde você estiver, obrigada pelo presente que foi te conhecer.
E mais tarde, ver a joia que se tornou a Ju, e poder compartilhar alguns instantes com essa lindeza chamada Eliana.

Obrigada de todo o coração.

Rose Gobbi
Radialista

Regiane Bochichi

“A arte de escrever é o ofício de reescrever.”

08 de abril de 2024

Era assim que Neil se referia a busca da perfeição da palavra correta, do slogan perfeito, da síntese de uma ideia. Se poderia servir como mantra para sua brilhante carreira de redator, não cabe aqui neste texto. A nossa convivência de 25 anos não tem espaço para copidesque. Diria até que nem para vírgulas. Sentia uma urgência tão grande em absorver tudo que vinha dele que não podia me dar esse luxo de soltar o ar e perder alguma coisa. E, claro, em nenhum momento haverá um ponto final que nem sua morte trouxe.

Eu brincava que iria escrever um livro visto que enquanto ele perseguia a síntese, eu me debruçava em dissertações, reflexões, longos parágrafos para dar conta da avalanche de conhecimento que me passava.  O resultado aparece, hoje, no meu senso crítico, na minha curiosidade, na minha incessante vontade de aprender.
Suas palavras eram mais que instrumentos de seu trabalho. Tão pouco vinham só de livros, filmes e exposições que devorava. Elas se formavam dentro de uma alma rica e benevolente e se espalhavam por aí. Serviam tanto para vender cigarros, como para incentivar votos. Para lançar um modelo de carro, como para descrever o seu jardim.

Muitas vezes, devido a nossa diferença de idade, dizia que poderia ser meu pai. Ele foi Pai dos sortudos José Bento e Juliana. Para mim, foi um farol. Quando sua luz chegava, era um banho de conhecimento.

A lealdade e respeito pelo outro foi a base desta amizade perfeita. Não era uma relação de mestre e aprendiz. Sua humildade, não lhe permitia exageros. Um dos maiores publicitários do país buscava mais o diálogo do que a retórica. Preferia andar nas ruas, do que viver no pedestal. Comer balas de jujuba do que dividir uma mesa no La Tambouille, algo frequente na nossa rotina.

O engraçado é que pela primeira vez que nos encontramos pessoalmente foi em um restaurante vegano. Não me recordo o nome, mas o endereço, sim. Na Cônego Eugênio Leite entre a Pinheiros e a Rebouças. Pensa em uma pessoa que não come uma folha, com eu, querendo impressionar e fazer jus a essa oportunidade única. Pois, foi assim a vida toda. Me fazia experimentar, ler, assistir, ouvir músicas que não estavam minimamente no meu radar e que hoje, pilares do meu repertório.

Conheci Neil durante a realização do Jogos Olímpicos, em 1992, em Barcelona. Ainda uma jornalista iniciante, na Rádio Eldorado, tinha como tarefa matinal de fazer a conexão para que ele entrasse no ar e comentasse as provas com um olhar “diferente” de um comentarista esportivo. Antes de sua participação tinha um rápido bom dia com a discussão do tema para que eu pudesseavisar os apresentadores. E depois, quando o jornal acabava, tínhamos, aí, sim, um bate-papo sobre o que havia sido dito, os fatos do dia, e a campanha que estava trabalhando.

Geralmente, deixava os filhos na escola e seguia para o escritório da DPZ, onde trabalhava, na Cidade Jardim. Era um longo caminho da sua casa na Granja Viana onde preferia viver como refúgio ao redor de livros, música e da natureza. Era um homem que se completava em duplas, com sua mulher Eliana, com os dois filhos, com o parceiro de obras-primas, Zaragoza, com o amigo Rabino, comigo. Desde forma, a conexão se tornava mais genuína.

Por anos, depois, já com celular, conversávamos durante a sua caminhada diária. O super publicitário e a pretensiosa jornalista no ritual diário de trocar palavras e impressões. Ele me jogava um haicai e, eu, saia transformando aquilo em praticamente uma bíblia. Uma jovem da periferia de São Paulo que ganhou um prêmio de loteria de intelectualidade e cultura.

Regiane Bochichi

Neil não me explicava o mundo. Ele me abria os caminhos. Nada era raso. Nem as dicas de viagem. Para Paris, que comecei a ir com frequência por sua influência, indicava desde o sabor do sorvete que deveria experimentar na Berthillon, Île Saint Louis, passando pelos trajetos,minuciosamente, detalhados por quais ruas deveria percorrer o Marais e até um quadro específico do Museu d’Orsay: Olympia, de Manet. Só que não era, simplesmente, ir lá ver o quadro que havia chocado Paris por causa da nudez frontal da modelo retratada. Antes, me sugeriu que lesse o livro de Otto Friedrich, que não só falava sobre a obra, mas contextualizava sobre a efervescência da Cidade Luz daquela época. Daí em diante, cada vez que voltei ao d’Orsay, considerei uma visita aos meus “amigos” impressionistas. Entrei para a “turma” que ele me apresentou.

Guardo com carinho tudo que esta amizade me proporcionou. Me contava sobre Woodstock. Tivemos um “gostinho” deste festival histórico e emocionante, ao assistirmos Bob Dylan e os Stones, no Ibirapuera em 2012.

Lembro do orgulho quando José Bento, ganhou um concurso de poesia e recebeu o prêmio no Centro Cultural SP.  Quando a Juliana entrou na faculdade, o jornal recebia antes a lista dos aprovados. E fui lá atrás dos editores do Estadão para procurar seu nome e dar a notícia em primeira mão. Andava pelas ruas de SP e reconhecia outdoors de campanhas suas.

Neil me faz falta. Suas análises, seu companheirismo, seu brilhantismo. Tenho curiosidade em saber como reagiria ao cancelamento de Monteiro Lobato que fez dele um leitor contumaz. Mas era um homem sábio e, compreenderia o zeitgeist do que estamos vivendo hoje, onde ao mesmo tempo a intolerância abocanhou metade do país e outra parte que quer se livrar da misoginia, do racismo, da homofobia, da xenofobia e tantos outros preconceitos. Seu apreço pela liberdade, de entender “a dor e a delícia de ser o que é”, funcionava como uma bússola em busca da sensatez e do bom senso. Hoje, ele seria um genial criador de memes.

No casamento de sua filha, celebrado pela Monja Coen em uma manhã de sábado, fui com meu marido, Fortunato, que entendeu imediatamente a conexão que existia entre mim e aquela família.

Quando a doença chegou, Juliana me ligou e imediatamente, fui a São Paulo. Dali, foram algumas outras tantas visitas que fiz ora sozinha, ora com Nato, que me acompanhava em mais uma jornada de ver um câncer consumir pessoas especiais, como aconteceu com meus pais.

Dias antes de morrer tive com ele alguns minutos para o que sabíamos seria uma “despedida”. Nenhuma palavra foi dita. Seguramos as nossas mãos em silêncio, com a certeza, de que aquele laço jamais seria desfeito.

Regiane Bochichi
Jornalista

 

Fabiana Peçanha

Neil,

Uma das pessoas mais incríveis que eu conheci na minha vida e tive o prazer em conviver por mais de uma década. Neil é nível Van Gogh, gênio. Mente brilhante, inquieto, criativo, inteligente, sensível, ácido e muito divertido. Neil, um apaixonado pela Família e pelo São Paulo FC.

Fabiana Peçanha e Neil.

Gostava de caminhar, me chamava de “Personal Torturator” quando o plano era fazer musculação. Nossos exercícios eram sempre repletos de histórias sobre diferentes culturas, músicas, shows, arte, opiniões, política e histórias da sua vida pessoal e profissional e assim foi até o fim.

Obrigada, querido amigo!

Você é eterno.
Let it be.

Com amor,

Fabiana Peçanha
Personal trainer

Gaudêncio Torquato

NEIL, UM GENIAL PAPO

Quem tem uns aninhos a mais do que 30 vai se lembrar do baixinho da Kaiser, com seu boné, indo ao banheiro, vivendo situações engraçadas sob o refrão: a Kayser é uma grande cerveja. Muitos devem se lembrar do Leão do Imposto de Renda, com sua bocarra, sugerindo ameaças a quem se dispunha a driblar a receita federal. Pois não é que o leão passou a ser sinônimo de Imposto de Renda, segundo os dicionaristas e, também a Academia Brasileira de Letras?

Foram muitas as campanhas que mexeram com a alma brasileira nos idos de  70 e 80. Lembro, ainda, a campanha da morte do orelhão, que tratava do vandalismo da época, que destruía os aparelhos fincados nas ruas. Que imagem forte…

Pois bem, tempos depois, fui apresentado ao “gênio”, o criador das famosas campanhas que ainda hoje mexem com nosso sistema cognitivo. Um amigo comum, Luiz Cassino, nos reuniu em sua pequena agência para um longo papo em torno de uma junta médica: o velho dr. Old Parr, o escurinho dr. Johnnie Walker Black e o dr. Buchanas, 18 anos, o mais denso. Cassino me apresentava o cidadão de Cerqueira César, no interior de São Paulo, conhecido como Neil Ferreira. Depois desse primeiro encontro, outros ocorreriam, sempre bem acompanhados por bons tragos ou por iguarias do The Place, na Haddock Lobo, de Eduardo Inácio, cliente do Luiz.

No animado papo com Neil, se faziam presentes a ácida crítica contra as instituições de Estado, chistes e historinhas hilárias, e um discurso indignado contra “valores” do status quo. Era um inconformado, demonstrando, em certos momentos, uma dose amarga.

Certa feita, chamei Luiz Cassino para parceria numa campanha política em um Estado do centro-oeste. Campanha de candidato a governador. Ele acionou Neil, a essa altura, fazendo free-lancer em sua casa-chácara em Itapecerica da Serra. Uma criativa campanha de marketing político. Até hoje elogiada pelo candidato, hoje senador. Neil captava bem o “briefing”.

Um exemplo de bom amigo e papo sempre compensador. Seu parceiro na DPZ, Zaragoza, um dos donos, ao lado de Roberto Dualibi e Francesc Petit, depois de Neil ter saído da agência, publicou nos jornais um anúncio com essa provocação: “Neil, queridinho, volte pra casa. Tudo está perdoado. Z.”

O fato é que Neil Ferreira, com seu recorde de prêmios, foi um monstro sagrado da publicidade brasileira. E como faz falta…. 

Gaudêncio Torquato
Escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político, orgulha-se de ter sido amigo de Neil.

 

Moisés Rabinovici

“Neilzinho querido: volte da reunião celestial pra casa. Tudo está perdoado: até aquela vez que você substituiu o café por glitter na máquina. (Sim, foi você!)”
Ah, se fosse possível trazer o Neilzinho de volta como conseguiu aquele anúncio de duas linhas publicado nos jornais pelo Zaragoza… Até tentei, apelando para Inteligência Artificial. O robô foi ao passado e trouxe a mesma estratégia que seduziu o Neil a voltar para a DPZ. Acrescentou a reunião celestial e o glitter. Não deu certo, até agora.

‑ Plágio! – protestaria Neil.

Enquanto esperava um milagre virtual, fiquei imaginando o Neilzinho armado de Inteligência Artificial. Se ele só com sua mente, sua paixão e sua habilidade para criar já era um fenômeno, como ficaria turbinado por novas e poderosas ferramentas?

—Como? — perguntei ao robô.

Em um milésimo de segundo, a resposta veio escrita na tela do computador: “A verdadeira magia reside na capacidade de conectar-se emocionalmente com o público e criar algo memorável. A criatividade transcende as ferramentas. Ela é atemporal.”

Neil era um gênio que não dominava totalmente o seu laptop. Usava-o como uma simples máquina de escrever. Pedia socorro à mulher (Eliana, a “hippiezinha encantadora” que um dia o entrevistou para a Veja), aos filhos (Juliana e José Bento) e aos amigos para enviar arquivos por e-mail, ou achar os acentos e o cedilha no seu Mac. Quem sabe ele tenha aprendido mais com os anjos em sua reunião celestial. Ou com o próprio Steve Jobs.

Meu oráculo artificial conhecia bem o Neilzinho. Chamou-o de “O Mestre da Propaganda”, já em nossa primeira conversa. Listou sua trajetória, desde “office boy” no Diário da Noite, até a fase final na DPZ. Perguntei-lhe:
— Qual a campanha dele que você mais gostou?

— “Os Subversivos”, respondeu. E a explicou, com o contexto da ditadura militar em 1969. Ainda citou com elogios o leão do Imposto de Renda, a morte do orelhão e o baixinho da Kaiser.

Foi por essa época que nos tornamos “irmãos” – na verdade, “brimos”, ele descendente de sírios, e eu, judeu, os pais da Polônia e Bessarábia. Éramos vizinhos próximos da Praça da República e tínhamos um restaurante em comum, o Arroz de Ouro, no Arouche. Foi nossa fase macrobiótica. No Jornal da Tarde, onde eu trabalhava, o chefe Murilo Felisberto chamava de “neilismo” o bom artigo que, por acaso, eu tivesse escrito. Mas era ironia. E Neil também troçava dele.

Os dois gênios se encontraram na DPZ, tempos depois, em duplas e andares diferentes. Nós três, hipocondríacos, compartilhávamos as novidades que chegavam às farmácias. Um amigo as percorria, perguntando:
‑ Alguma novidade da Bayer?

Moisés Rabinovici por Cyra Moreira.

Muitas vezes fui com amigos à casa de Eliana e Neil, na Granja Viana. Gostosas noitadas, nada macrobióticas. Foi lá que vi o temido e mordaz cronista Telmo Martino dar de presente uma minúscula camiseta do São Paulo Futebol Clube para o filho Zé Bento, que acabava de nascer. Não o imaginava capaz de sair às compras. Mas terá sido ele mesmo? O robô não o confirma nem o desmente; não sabe. Papos sobre livros, vira-latas adotados, cinema, a tartaruga pisada sem querer numa cobertura em SP, e mais o que acontecia no Brasil só eram interrompidos porque as visitas tinham quase 15 quilômetros de volta para a cidade.

Uma vez disse ao Neil que queria ser publicitário por algum tempo. Achava que ele iria me recomendar a um amigo ainda na ativa. Mas não. Ele me dissuadiu, xingou, repetiu “de jeito nenhum”, “não é pra você”, e continuei jornalista, fui convidado a rejuvenescer um jornal octogenário, o Diário do Comércio, e o convidei a escrever crônicas semanais. Lá ele publicou sua indignação com a política e políticos, numa linguagem que nunca o vira usar na propaganda. E ligava para pedir diagramação especial para os textos.

O ex-publicitário e escritor Ricardo Freire entrevistou Neil para uma homenagem publicada no Anuário # 24 do Clube Criação de São Paulo. Chamou-o de “o beatnik cerqueirense (de Cerqueira César) Neil Kerouac Lennon Dylan Jaegger Lobato Mozart Ferreira, que apreciava bem mais a estrada de ferro do que a estação ferroviária”.

Com o sobrenome dos gênios que Neil incorporava, voltei ao meu oráculo, a Inteligência Artificial. Ele escreveu: “Neilzinho, ouça nosso apelo! 📢 Volte daquela reunião celestial com os anjos da criatividade e traga suas ideias geniais de volta para casa. Afinal, o escritório está sem graça sem você. Venha e traga sua caneta mágica e seu sorriso sarcástico. As campanhas estão esperando por você.

Bem-vindo de volta, Neilzinho! 🎉🎈”

Moisés Rabinovici
Jornalista

 

Nelo Pimentel

Janeiro de 2024

Conheci o Neil pessoalmente em setembro de 1969.
Digo pessoalmente porque de nome já o conhecia desde que eu havia feito um estágio no estúdio da CIN (atual Leo Burnett) em 1968, aos 19 anos.
Ele já era super famoso, em 68 era diretor de criação da Alcântara Machado (como a ALMAP era conhecida na época), com campanhas premiadas.

Minha história com o Neil começa quando o Sergino de Souza, grande redator e meu mentor profissional, me apresenta a ele na Norton, para onde havia ido e levado uma incrível equipe, formada pelo José Fontoura, Aníbal Guastavino, Jarbas de Souza e pelo Carlos Wagner de Morais.

Nesse momento a Norton era a agencia mais criativa do Brasil, e entrar lá era o sonho de qualquer jovem aspirante a criativo publicitário. Pois não é que o Neil – que tinha trabalhado na Alcântara Machado com o Sergino – foi com a minha
cara e me contratou como montador auxiliar? (abaixo disso não há nada no estúdio, só o pessoal da limpeza).

Meu primeiro emprego com carteira assinada…feliz da vida porque estando no estúdio poderia ver e montar – e mais tarde ilustrar – os layouts das maravilhosas campanhas que eram feitas, e aprender com elas.

Nessa época tive pouco contato com o Neil, porque o estúdio ficava separado da criação, mas quando nos cruzávamos no elevador sempre era simpático e perguntava como eu estava indo no trabalho.

Corta para dez anos depois, 1979.
Neste ano fui chamado para a DPZ pelo Washington Olivetto (com quem havia feito dupla na Lince/Julio Ribeiro/Casabranca), para fazer dupla com a Marita Soares.

Estávamos no andar do Petit, que fazia dupla com o Washington.
Para quem não sabe, a DPZ estava dividida em 3 grupos criativos: no quinto andar estava o grupo do Petit, no sexto o do Zaragoza e no sétimo o do Roberto Duailibi.

O Neil nessa época fazia dupla com o Zaragoza, para mim o melhor diretor de arte do Brasil (sorry Petit), fazendo campanhas sensacionais.

Nelo Pimentel

O Neil lembrava de mim, a cada tanto nos encontrávamos. Pois não é que em julho de 79, mesmo ano, recebo um bilhete do Zaragoza perguntando se eu não queria ficar no lugar dele, porque ia sair de férias, e fazer dupla com o Neil??

Quase caí da cadeira!!! Perguntei ao Petit se estava tudo bem e lá fui eu sentar no lugar do Zaragoza, ídolo absoluto, e fazer dupla com outro ídolo… deu tremedeira.

Foi incrível.
O Neil não era um cara fácil de trabalhar, um nível de exigência altíssimo, mas o resultado foi ótimo, com algunas campanhas muito boas como as da TELESP.
Aprendi mais nesse mês do que em muitos anos anteriores.

Alguns anos depois, agência vai agência vem, voltei para a DPZ: o Zaragoza, sempre generoso, me aceitava de volta tipo filho pródigo cada vêz que saía da DPZ…

Agora a coisa estaba diferente, porque o Zaragoza estava numa sala sozinho, e eu faria dupla com o Neil oficialmente. Já conhecia seu jeito de trabalhar, e pudemos fazer belos trabalhos.

Minha inquietação profissional me levou por outros caminhos e outros países, mas sempre lembro com carinho dessa época da DPZ e do aprendizado com o Neil.

Voltando a 1969, quando entrei na sala do Neil na Norton, vi na parede um anúncio que dizia “Thanks Neil”.
Os americanos acabavam de chegar na Lua, e o anúncio obviamente se referia ao Neil Armstrong. Mas sem dúvida era também uma piada interna, agradecendo ao Neil sabe-se lá o que…

Pois esse antigo anúncio resume o que quis dizer até agora.
Thanks, Neil.

Nelo Pimentel

Luiz Cassino

NEIL FOI O PUBLICITÁRIO BRASILEIRO REFERÊNCIA DA MINHA GERAÇÃO.

O Neil foi brilhante, o cara que sempre andava na contramão, gostava de desafios, rápido no gatilho, exigente com os seus comandados e não se contentava com pouco.

Nós nos conhecemos na SGB, no Pacaembú em 1974, sempre inquieto saiu da SGB e depois de um tempo foi para a DPZ. Nessas idas e vindas a gente fazia uns trabalhos na Cassino de Comunicações, a minha pequena agência. Lá atendíamos a Arisco, Eldorado Plaza, Pamcary Seguros de Carga, Souza Ramos, SR Veículos Especiais, Restaurante The Place (onde fomos finalista do Prêmio da Editora Abril com o anúncio “Esse vegetariano recomenda as saladas do The Place”), entre outros.

Neil, além de ter sido o Pelé da criação, foi um grande amigo que tive. Deixou saudades.

QUASE PERDE O CLIENTE, MAS NÃO PERDE A TACADA.
Quase que diariamente eu passava na DPZ pegava o Neil e íamos almoçar no The Place (a nossa pensão, kkk).

Um belo dia, fomos almoçar com um dos nossos clientes, o Luiz Verissimo, do Eldorado Plaza. Mas antes passamos no banco Banrisul para o Neil tirar o extrato da conta (naquela época ainda era tudo impresso).

Luiz Cassino

Quando chegamos no restaurante, o Verissimo já estava nos aguardando. Demos uma paradinha no bar, como sempre fazíamos, e fomos para a mesa. Papo vai, papo vem, e o Verissimo perguntou: Neil quanto tempo faz que eu não te vejo?

Neil, que não deixava barato, puxou do bolso o extrato bancário, (eu já imaginava o que ele ia dizer e o cutuquei por baixo da mesa pra ele não chutar o pau da barraca), ele vira pra mim e diz: não adianta cutucar, deixa eu falar. E solta essa: Verissimo, você acha que por essa grana que vc nos paga, vc tem que me ver quantas vezes por mês? Pensei….putz perdemos o cliente. Mas o Verissimo, que já conhecia bem o Neil, levou na esportiva. Assim era o Neil, sempre direto, sem papas na língua.

Luiz Cassino
Publicitário

Regiane Bochichi

Lá se vai Neil! Caminhando para o céu! Lendo as homenagens dos amigos por aqui encontro as palavras: mito, guru, amigo e tem até uma dissertação. Para mim, ele sempre foi só Neil. Assim assinava os faxes que me mandava na redação da Rádio Eldorado e depois na intensa troca de e-mails nestes 25 anos de convivência.

Anélio Barreto, meu chefe na época, teve a ideia de chamá-lo para comentar os Jogos Olímpicos de Barcelona e cabia a mim ligar para ele de manhã e colocá-lo no ar. Depois de semanas conversando por telefone, me convidou para almoçar e me levou a um restaurante vegetariano. Logo eu que não como salada, estava lá encantada com a inteligência e bom papo que  me conquistaram para sempre na frente de um mega prato de alface.

Com ele e por causa dele, li livros que jamais leriam; assisti filmes seguindo seus roteiros; escutei músicas com seus ouvidos; viajei para cidades como Paris e NY em suas descrições;  vi quadros com seus olhos; visitei museus que me indicava; aprendia tudo e mais um pouco o que me ensinava. A minha relação pelo jornalismo era reforçada dia a dia  pela paixão dele pela escrita. Na época da sua colaboração com o Diário do Comércio, me passava os textos que escrevia antes de publicá-lo para um rápida troca de impressões e pequena revisões em busca da palavra/frase perfeita.

Escrever agora sobre ele, sem tê-lo aqui como revisor, me parece quase um sacrilégio. Se fosse ao contrário, com certeza, sua generosidade faria abrir um sorriso e mandar: 

Regiane Bochichi

“Hey, Jude, don’t make it bad

Take a sad song and make it better

Remember to let her under your skin

Then you begin to make it better”

Minha vida com certeza foi melhor a partir do dia em que ele cruzou meu caminho e me ajudou a ser o que sou hoje. Parte de mim é também seu legado. Assim como da sua linda família. Eliana Machado Ferreira, Juliana Machado Ferreira e José Bento obrigada por partilhar comigo essa travessia. Com vcs, consegui não carregar o mundo da dor e da tristeza da sua perda sozinha.Se pudesse, faria como Zaragoza e pediria: “Neil queridinho: volte para casa. Não há como perdoar esta sua partida tão cedo.”

Regiane Bochichi
Jornalista

Nicolla Raggio

23 de abril de 2019

E por falar em saudade… Escrevi este texto há 1 ano e meio, quando soube da morte de Neil Ferreira. Meu ídolo, meu mestre, para mim Neil era imortal. Sem desmerecer todos os maravilhosos diretores de criação com quem trabalhei, a Neil eu presto tributo. Para mim, ele continua vivo, eterno, imortal…

“Você quer enganar quem, cara pálida”.

Eu tinha 28 anos e uma carreira promissora na Editora Abril. Era responsável pela revisão, preparação de textos, fotocomposição e composição gráfica. Ganhava bem e tinha um monte de benefícios. E estava cada vez mais longe do que eu gostava de fazer, que era escrever.

Resolvi que iria ser redator de propaganda. Através de alguns contatos, consegui chegar até meu ídolo, Neil Ferreira. Um ícone. Um mito. O cara que criava os anúncios e filmes que eu gostaria de ter feito. Ele tinha 30 anos, apenas 2 anos a mais do que eu…

Pedi um estágio. Disse que trabalharia de graça. Perguntou o que eu tinha para oferecer em troca. Disse que podia fazer revisão. Ele disse que já tinha revisor. Eu disse que faria revisão criativa. Ele olhou com aquela cara de gozação, rindo com os olhos, cara que eu iria ver mais dezenas de vezes nos próximos meses.

Acho que aprendi tudo o que eu sei de propaganda com ele. E olha que depois dele trabalhei com outros profissionais brilhantes. Mas ninguém superou os poucos meses em que fiquei com Neil. Logo ele saiu para seu ano sabático, de onde iria direto para a DPZ, para formar, com Zaragoza, uma das duplas mais brilhantes da história da propaganda.

Nicolla Raggio

A última vez que nos vimos pessoalmente foi no festival de propaganda do Rio. Ele na DPZ e eu na Almap. Ele disse que acompanhava e gostava do meu trabalho. Não dormi aquela noite, tentando gravar na memória a frase que me encheu de orgulho…

Nunca mais nos vimos pessoalmente. Um amigo comum tentou marcar um encontro, que foi sendo adiado até sempre.

Preso no hospital, não posso ir ao velório. Gostaria de chegar bem perto do caixão e dizer baixinho, só pra ele, a frase que era sua marca registrada: levanta daí Neil. Você quer enganar quem, cara pálida?…

Nicolla Raggio
Publicitário

Juliana Machado Ferreira

07 de novembro de 2018

Neil Ferreira. Não o publicitário, o pai.

Estou escrevendo no dia 07 de Novembro de 2018. Hoje faz um ano que meu pai, Neil Ferreira, descansou, após uma corajosa batalha contra um câncer. Quando meu pai faleceu, eu fiquei surpresa com a quantidade de mensagens e depoimentos de pessoas distantes, ou mesmo que eu não conhecia, sobre suas relações com ele e a importância que ele teve em suas vidas. Obviamente, eu sempre soube da importância do publicitário Neil Ferreira, tanto nacional quanto internacionalmente. Mas sentir isso materializado em condolências e em mensagens de carinho tocou imensamente a mim e minha família. Acho que acabei me acostumando com o Neil Ferreira recluso dos últimos anos de sua vida e me esqueci que ele não era só meu e da minha família, mas do mundo!
E, ao mesmo tempo que recebi com alegria essas mensagens vindas de quase uma outra vida do meu pai, eu percebi que também gostaria de compartilhar o pai Neil Ferreira, um cara que poucos conheceram e com quem poucos conviveram. Queria escrever sobre ele, sobre recordações da minha infância e, sinceramente, não sei se alguém (além da minha mãe) vai se interessar por este texto, mas o fato é que pensar sobre tudo isso e escrever ajuda a aplacar a saudade e eu me sinto mais próxima dele. 

O Neil publicitário é público, notório e bastante conhecido. Muito inteligente, perigosamente atrevido, sarcástico ao extremo. “Pai” do baixinho da Kaiser, da morte do orelhão, do Leão do Imposto de Renda e – meus favoritos – dos cartazes de Natal da Gráfica Repro, além de centenas de outras criações brilhantes. A questão é que esse mesmo humor mordaz estava presente também no papai Neil, mesmo com seus filhos pequenos (em casa não tínhamos Papai Noel, tínhamos Papai Neil!). E isso fez nossa vida (minha e do meu irmão) mais rica, interessante e, às vezes, infernal. Só que eu herdei uma boa parte do gênio do Neil. Não da genialidade. Do gênio mesmo. Imaginem nós dois batendo de frente! Eu tenho uma vívida recordação de uma tenra idade, eu devia ter dois ou três anos no máximo, quando devo ter aprontado demais e irritado meus pais ao extremo. Lembro do meu pai muito bravo, gritando para que eu não abrisse mais a boca. Em uma fração de segundo eu lembro de abrir a boca o máximo que consegui e encará-lo desafiante, sem soltar nenhum som. Lembro do meu pai cair na gargalhada e perder completamente a compostura da bronca, fato esse que ele sempre recontou rindo ao longo dos anos. 

E teve uma vez na qual meu irmão, três anos mais velho do que eu, me falou que eu havia sido encontrada no lixo e adotada pelos meus pais. Fui correndo e chorando falar com meu pai (caramba, lembro com o se fosse hoje) e o Neil, sem alterar a fisionomia me disse: “Viu como a gente queria você? Mesmo toda sujinha e fedida, ainda assim te trouxemos para casa”, e soltou uma gargalhada, daquelas que ele colocava a mão na barriga e ria, ria!

E como eu não era nada fácil quando criança, as oportunidades para bronca e castigos eram muitas. Eu lembro que ficava verdadeiramente impressionada com a minha velocidade de corrida pois meu pai nunca me pegava quando corria pela casa atrás de mim com um chinelo na mão (sério, ele corria mesmo). Foi apenas quando já era adulta que me dei conta que ele nunca quis me pegar. Eu também me achava incrivelmente subversiva quando ele e minha mãe me colocavam de castigo no meu quarto e eu pulava a janela e ia brincar no jardim da chácara em que morávamos. Foi também depois de me tornar adulta que ele me contou que sempre soube que meu irmão e eu fugíamos do castigo. 

Uma outra lembrança que é fortíssima no meu coração foi algo que chegou a me incomodar durante a minha infância. Eu lembro de chegar na escola e a maioria dos meus colegas de 7 e 8 anos estava discutindo a novela do dia anterior. Meus pais nunca nos deixaram assistir a novelas. Ao invés disso, lembro de que muitas vezes após o jantar sentávamos no “buraco” (salinha onde ficava o toca-discos) e meu pai e minha mãe escolhiam LPs entre as centenas da coleção, ouvíamos músicas, eles nos mostravam as letras. Foi assim que eu e meu irmão tivemos um contato muito legal com a língua inglesa e tivemos uma formação musical linda, que vai de Beatles a Rolling Stones, Janis Joplin, The Doors, Johnny Rivers, The Mamas and the Papas, mas também Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Jorge Ben, entre tantos, tantos, tantos outros. Aliás, tem uma história ótima do meu pai sobre o Johnny Rivers. Eu já era mais velha, estava na faculdade, e o Johnny Rivers veio fazer um show em São Paulo. Meu pai ficou morrendo de medo que ninguém aparecesse no show do velhinho e comprou vários ingressos, distribuiu entre meus amigos e do meu irmão. Mas quando chegamos, meu pai ficou maravilhado quando viu a casa de shows lotada, com uma moçada da minha idade na época, todos cantando junto com o Johnny Rivers, e meu pai rindo do medo que ele teve de que o show ficaria vazio.

Lembro também que uma vez meu irmão e eu éramos bem crianças e meus pais alugaram uma casa em uma praia para passarmos as férias, e a casa não tinha televisão. Quando a gente dizia que queria ver tv, meu pai falava para assistirmos o canal do mar, e ficava na varanda, olhando a vista por um tempão. Na época eu odiava ouvir isso, mas hoje vejo a linda lição que ele estava nos ensinando.
E por trás daquele jeitão dele, existia um enorme, lindo e mole coração (quando ele queria, porque quando não queria, sai de baixo!). Quando eu tinha 6 para 7 anos e meu irmão tinha 10, meus pais nos mandaram em uma maravilhosa viagem para o Pantanal com uma das primeiras (senão a primeira) agências de ecoturismo no Brasil. Essa e as outras viagens que fiz com a Eco estão entre algumas das melhores memórias que eu tenho e certamente ajudaram a moldar meu interesse por Biologia e pela Conservação da Natureza. Mas voltando à viagem – íamos crianças de ônibus de São Paulo ao Mato Grosso, era Julho e fez muito frio na noite da viagem. Meu pai não conseguia dormir pensando nos filhos, se estávamos com frio, se estávamos bem, e questionava como minha mãe, que sempre foi super racional e sabia que não havia nada a fazer, conseguia dormir pesado com os filhos “lá fora, no frio”! Resumo, ele passou a noite em claro e na maior aflição.

E o Neil tinha um jeito às vezes meio ríspido, mas sempre nos ensinou lições que levamos para a minha vida. É vívido na minha memória o dia em que eu disse a ele que queria uma calça da M. Officer, hit total entre as crianças descoladas da 4a série na época. Ele olhou para mim com um olhar penetrante e disse as seguintes palavras, que eu nunca esquecerei: “Eu tenho dinheiro para saúde e educação. Para peruagem eu não tenho”. E nunca mais se falou no assunto. E era a mais pura verdade. Ele e minha mãe sempre se esforçaram muito para nos levar a bons médicos, dentistas e nos colocar em boas escolas, o que ia muito além de só pagar. Envolvia levar por longas horas de trânsito, acompanhar, garantir que tudo estava correndo bem.

Ah, as idas para a escola eram uma curtição. Quando eu passei para a 7a série, acho que equivale ao atual oitavo ano (eu tinha uns 12 anos), eu saí da pequena escola do bairro de casa que eu frequentava e fui para uma escola em São Paulo. Tínhamos que sair cedo todos os dias e pegar a Rodovia Raposo Tavares. Alguns dias da semana eu ia no carro de pais de colegas. Mas quando era a vez de ir com o meu pai, era tão legal! Ele sintonizava na Rádio Eldorado e ouvíamos o Sunrise, com a maravilhosa Rose Oliveira. Ela tocava todas as músicas que meu pai amava (rock and roll do bom!). A música que mais representa essa época para mim é “American Pie” (Don McLean), que meu pai e eu adorávamos. E isso foi bem antes do email ser uma coisa super comum e da internet invadir nossas vidas. Meu pai se divertia mandando mensagens (acho que por fax ou talvez nos primórdios do email, não sei ao certo) para a Rose pedindo músicas, contando que naquele dia eu estava nervosa porque tinha prova disso ou daquilo, e ela dizia boa sorte para mim pelo rádio… Eu nem lembro do trânsito… lembro da proximidade com meu pai, da alegria dele de me levar para a escola, da curtição com as boas músicas… E agora, pensando nisso, quase me arrependo do dia em que, já no cursinho pré-vestibular, eu pedi para que ele não me levasse mais, para eu eu fosse sozinha… Mas eu tinha 18 anos e estava tentando bater minhas asas para fora do ninho…

Meus pais sempre foram muito sérios em tudo que dizia respeito aos estudos e sempre, sempre exigiram que tivéssemos respeito pelos professores e pela escola. Com eles, aprendi esse respeito e apreciei muito meus professores. Lembro com muito carinho da maioria e sei que graças a eles pude trilhar meu caminho. Apenas uma vez vi meu pai e minha mãe enfrentarem a escola em minha defesa. Como eu contei anteriormente, eu saí da escola de bairro para um colégio maior em São Paulo quando eu tinha 12 anos. Fiz a 7a e a 8a séries lá. Tenho algumas boas lembranças (uma professora de história, uma de literatura e um de Geometria que foram fenomenais), mas na maior parte do tempo eu, que antes era uma aluna nerd que só tirava A, tinha muitos problemas, porque a escola era rígida demais e eu estava me tornando uma adolescente desafiadora.

Eu tinha uma turma de amigos e éramos considerados baderneiros (e olha que não éramos os piores da escola). Um dia à tarde, na casa de uma das meninas, pintamos, de brincadeira, os cabelos com papel crepom vermelho. Não preciso dizer que ficamos horrendas, mas foi uma farra. A bagunça resultou em uma suspensão para cada um de nós (3 meninas e um menino). Óbvio que levei a maior bronca em casa, mas depois vim a saber que a suspensão havia sido retirada do meu histórico escolar. Pois não é que meus pais foram ao colégio e disseram para a Coordenadora e para a Diretora que uma pintava o cabelo de loiro e a outra de preto (verdade) e que não havia em lugar nenhum dos documentos da escola a regra escrita de que alunos não poderiam pintar os cabelos (verdade também). Além disso, pintar os cabelos de farra aos 13 anos não fazia de nós revoltados, frequentadores de cemitérios ou adoradores da morte, conforme havia sido dito pela diretora da escola em um discurso para a nossa sala (Juro). Touché. A turma do fundão só disse “vixeeeeeeee”! 

Mas meu pai era bastante rígido, bravo e ciumento comigo. Lembro, também no início da adolescência, dele reclamando quando eu queria ir ao cinema com algum menino, dizendo que eu tinha que entender que ele carregava “cinco mil anos de cultura árabe nos ombros”, referindo-se à sua ascendência Síria por parte de pai. Mas da mesma forma que era bravo, ciumento e controlador, saiu da Granja Viana, em Cotia, para me buscar em baladas em São Paulo no meio da madrugada em tantos sábados, para garantir que eu não perdesse a vida social e a diversão com os amigos do colégio e que voltasse em segurança para casa.

Mas a braveza do meu pai comigo também era justificada. O fato é que eu fui uma adolescente terrível. Dos 13 aos 17 anos, eu não mereci os pais maravilhosos que eu tive. E se teve uma coisa que fez meu pai rir após o diagnóstico de câncer, foi quando eu agradeci de verdade, emocionada e de coração, por ele ter me aguentado e não ter me dado para alguém ou me mandado para um internato, porque se eu fosse meus pais, eu teria. 

Pelo contrário, mesmo com todas as discussões e desentendimentos, ele sempre foi uma rocha de apoio. Quando fui estudar fora, aos 17 anos, eu não tinha ideia de como funcionava email, nem sei se já existia Skype e essas novas tecnologias. Eu tinha que ligar a cobrar para casa para falar com meus pais. Eu morria de saudades e todos os dias de manhã quando eu chegava na escola, tinha mensagens de fax do meu pai no mural da secretaria. Um colega da Alemanha um dia me disse que gostaria que o pai dele tivesse por ele o mesmo carinho que meu pai tinha por mim. O tempo todo em que fiquei lá, o rapaz nunca recebeu nenhuma mensagem do pai. Os faxes do meu pai vinham com piadas e desenhos de gatinhas, porque era assim que meu pai me chamava. 

Meu pai também cobrava bastante. Cobrava boas notas, bom desempenho escolar. Falava que esse era o nosso trabalho. Lembro quando estava na faculdade de Biologia e eu estava fazendo um estágio de iniciação científica em um Laboratório do qual eu gostava bastante do trabalho, mas eu tinha muitos problemas com a professora orientadora e com uma aluna de mestrado. Eu havia sido contemplada com uma bolsa de pesquisa que tinha duração de um ano e aos seis meses de bolsa a situação de convivência havia se tornado insustentável para mim. Fui conversar com meu pai pois eu queria abandonar o estágio, a bolsa e o projeto, já que para mim estava sendo infernal e eu chegava chorando em casa diariamente. Ao invés de me consolar e dizer que a filhinha podia fazer o que quisesse, meu pai falou muito sério que não havia me criado para desistir das coisas pela metade e que eu ia encarar o desafio e terminar o ano de pesquisa. Aquilo foi a morte para mim. Eu não conseguia conceber voltar naquele lugar. E no entanto eu voltei, enfrentei, aguentei, terminei e saí fortalecida desse processo. Não tivesse sido a força e o empurrão do meu pai, eu teria largado. 

Mas apesar desse episódio, o Neil sempre apoiou de forma incondicional todas as minhas escolhas profissionais. Mesmo quando não pareciam as melhores. Mesmo quando parecia que tudo e todos estavam contra. Mesmo quando foi difícil e solitário, ele estava ao meu lado me incentivando. E quando eu comecei a colher os frutos da minha formação, ele sempre foi o meu maior fã e apoiador. E o apoio vinha das mais variadas formas… às vezes era me ouvir chorar e xingar contando sobre algum colega ou professor que tinha se comportado de maneira que eu não achava legal, às vezes era ir ao “escritório” de casa às 2 da manhã para mandar que eu parasse de escrever minha tese de doutorado e fosse dormir, às vezes era achar a maior graça (e dar nomes) no cuidado que eu tinha a cada duas horas com três filhotes de uma gambá que morreu atropelada na rua de casa e que eu peguei para cuidar até crescerem fortes e tomarem os rumos das suas vidinhas…. Às vezes era cuidar com todo amor e carinho do mundo do Lorde Chicão, meu coração em forma de anjo peludo, o melhor cachorro do mundo, que eu peguei da rua a contragosto de todo mundo e que ganhou o coração do meu pai. O Neil cuidava do Chicão para que eu pudesse voar, fosse para fazer trabalho de campo, fosse para ir às conferências TED como primeira TED Fellow e Senior Fellow brasileira, fosse para viajar para Manaus encontrar o dono do meu coração, que morou lá por quase cinco anos. 

Lembro da primeira vez que meu pai viu meu namorado, meu marido hoje. Naquele dia se referiu a ele como “aquele cara”, com uma expressão de pouquíssimos amigos. Mas pudera, ele mal conhecia “o cara” que já tinha viajado três vezes com a filhinha dele. Mas o namorado que conquistou meu coração, não conquistou à toa. Ele era (e ainda é) simplesmente a melhor pessoa do mundo. E cá, entre nós, acho que se meu pai pudesse ter escolhido um companheiro de vida para mim, teria sido exatamente ele. Os anos mostraram ao meu pai a pessoa maravilhosa que o meu marido é. E como naquele velho clichê, meu pai não perdeu uma filha, ganhou um filho. Um baita filhão. Calmo, tranquilo, seguro, carinhoso. Que esteve firme, forte e presente quando todos nós precisávamos. Que passou noites com meu pai no hospital e que foi a minha fortaleza quando eu desmoronei. Que se despediu do meu pai ao som de um lindo clipe com os melhores momentos do São Paulo, que eu sei que meu pai adoraria (vai ver que adorou…). E que junto comigo deu ao Neil a quarta netinha, a Marina, que era muito amiga dele e sem dúvida foi uma fonte de grande alegria e amor para ele nos últimos anos de sua vida. A Marina, com sua doçura de menininha de dois, três anos, desmontava meu pai quando achava o tupperware em que ele escondia biscoitos na sala de tv, sentava ao lado dele, abria, oferecia para ele e ficavam os dois lá, sentadinhos e cúmplices comendo os biscoitos… E a Marina fez algo que eu nunca imaginei ser possível. Juro que ela fez meu pai dançar Ciranda Cirandinha. E foi a coisa mais engraçada, bonitinha e terna que eu já vi. Foi a Marina que me mostrou o tamanho do amor que é possível sentir por um filho e que me fez entender e valorizar tantas coisas que meu pai fez ou falou ao longo da minha vida. 

Meu pai não era nada, nada, nada fácil. Era uma montanha-russa de emoções. Às vezes era briguento, quase sempre super cabeça dura. Era genioso e temperamental. E estourado. Mas também era amoroso, cuidadoso, interessante, inteligentíssimo, presente, apoiador, provedor, engraçado. Meu pai podia ser tudo, mas nunca foi entediante. E nunca passou em branco pela vida. Sua presença sempre foi marcante, fosse pelo bem ou pelo mal, quando era a criatura mais adorável do mundo, ou quando provocava a todos com comentários controversos sobre política e futebol, só para “causar”, afinal, ele levava futebol tão a sério quanto levava política. Ou será que era ao contrário?!

Eu sinto falta do meu pai quando tenho decisões para tomar, sucessos para comemorar, gracinhas da Marina para contar, tristezas para chorar. Eu sinto falta do meu pai para rir do nosso medo mútuo de avião. Eu sinto falta do meu pai fazendo enormes saladas com verduras, legumes e frutas para que eu jantasse bem, após um dia de trabalho e uma noite de treino forte de natação. Eu sinto falta do meu pai confabulando comigo, tirando onda da cara da minha mãe, fingindo que esqueceu o aniversário dela (todo ano, todo santo ano. E nunca perdia a graça). Eu sinto muita falta de ir com meu pai e com o Lorde Chicão caminhar de manhã cedo, quando ainda estava fresquinho, no parque Cemucam e admirar as lindas flores, o ar puro, a beleza do lugar e a consciência de felicidade plena. Eu tenho tantas memórias legais, interessantes, engraçadas, que sinto que eu poderia encher centenas de páginas e ainda não teria contado tudo que eu queria contar. 

Eu sou formada em Biologia e sempre encarei o “ciclo da vida” com muita naturalidade… Flertei com uma corrente do Budismo durante a adolescência e me lembro da importância dos ciclos de de morte e renascimento para a evolução pessoal. Com meus queridos professores de Yôga aprendi sobre nossa unidade com o Universo. Acompanhei a saúde do meu pai se deteriorar e ainda é vívida a sensação cortante de que ele merecia descansar, já que aquela vida estava ruim demais para ele. Sempre achei que eu encararia a morte, ainda mais quando é um descanso, com muito mais naturalidade. Mas a realidade é que a dor da saudade queima. Sinto falta do meu pai todos os dias. Sei que a vida não estava boa para ele, mas a falta que ele faz aqui enevoa minha racionalidade. Mudei com a sua doença e a sua morte. Mudei ao ver meu pai, que sempre cuidou de tudo e resolveu tudo, precisando de cuidado e auxílio. Sei que todo mundo passa por isso e não me sinto em nada especial, mas mudei com a sua perda. Sinto a força dele em mim, mas sinto o desamparo da saudade do meu paizão, meu suporte, minha proteção, meu amigão. Às vezes chato, às vezes inadequado, quase sempre difícil, mas sempre meu paizão.

Juliana Machado Ferreira