Aos 19 anos, na faculdade de engenharia Mauá, os exercícios de Cálculo Integral e eu não nos dávamos bem. Suspeitei que se um dia tirasse o diploma corria o sério risco de derrubar um viaduto na cabeça de alguém. De modo que disse ao meu pai que ia abandonar a faculdade e ele, descontente, revidou que ia me arranjar um emprego.
De fato, alguns dias depois levou-me na Norton Publicidade, onde era amigo do diretor de criação, o jovem Neil Ferreira, que o ouviu com simpatia e me aceitou como estagiário. Confesso que achei legal, até porque o meu velho, jornalista consagrado e autor de dez livros, no caminho até a agência tinha feito rasgados elogios ao Neil:
— Esse rapaz começou no jornalismo e era um brilhante foca, agora está fazendo o maior sucesso na propaganda.
…
Isso foi em 1970 e “Os Subversivos”, com o Neil à frente, formavam uma equipe de criação à altura da seleção brasileira tri campeã naquele ano ou, na ótica de um candidato a redator, equivalia a uma pós-graduação na Sorbonne. A prova é que tanto eu como os demais “trainees” nos demos bem na profissão, como estes depoimentos parecem atestar.
Mas não pretendo falar dos aspectos profissionais da história, já bem conhecidos, e sim de alguns ensinamentos fora da caixa ministrados pelo Neil quando nos convidava para tomar café no bar da esquina (e sim, confirmo, o “turco” merecia esse apelido, eram sempre os estagiários que pagavam a conta). Enquanto esperávamos pelo cafezinho, ele demonstrava não estar antenado só na publicidade, mas também na contracultura dos anos 60 e nas ideias irruptivas que vinham principalmente dos EUA, expostas em livros como “Steal this book” do
Abbie Hofmann (yippie fundador do Partido Internacional da Juventude, por sinal muito parecido com o Neil, quase sósia*), sendo essa obra um manual completo para ensinar o leitor a obter comida de graça, pegar carona, descolar um teto para passar a noite, receber cuidados médicos sem ter seguro e assim por diante, sobrevivendo na “prisão que era a América”.
Foi também com o Neil que a minha ignorância ouviu falar na existência de outro livro emblemático, o “On the road” de Jack Kerouac, bem como das muitas atividades do ativista Jerry Rubin, que ora condenava a guerra do Vietnã, ora as empresas que se recusavam a contratar afro-americanos. Foi graças à influência dessas libertárias palestras do Neil, somadas aos ecos do festival de Woodstock no Brasil, que de futuro engenheiro engravatado passei a jovem cabeludo com calça boca de sino, fã de Jimmy Hendrix e Janis Joplin, excitado leitor dos gibis safados do Robert Crumb, fazendo estágio ao lado dos meus pares, os novos rebeldes sem causa do Departamento de Criação da Norton (todos presentes neste site), e houve até quem virasse hippie pra valer, vivendo de fumaça na Bahia, numa comunidade anarca à beira da praia, vendo o que a baiana tem e matando a sede com água de coco.
Por tudo isso, sou tentado a pensar que a bela sacada do anúncio “Os Subversivos” não era inspirada só na esquerda que desafiava a ditadura militar no Brasil, mas também na subversão de parte da juventude mundial que o Neil admirava.
Ele foi um subversivo sui generis: não confrontou os patrões capitalistas nem entrou em conflito com os milicos pós-64, mas sem dúvida alguma abriu a cabeça dos jovens, agora velhos, que tiveram a sorte de conviver e aprender com ele.
* Procurem por Abbie Hofmann na Wikipédia e digam se esse Hippie não era a cara e o cabelo do Neil.
1970) De estagiário, passei a redator contratado pelo Neil na Norton, então a Agência do Ano, com um pequeno salário;
1971) Fui ganhar mais na Lage, Dammann, a Agência do Ano de 72 (sob a direção criativa do ótimo Hans Dammann, um profissa à altura do Neil, de fino texto e fino trato);
1974 a 77) Trabalhei na Sell, subsidiária da Lintas, mas logo fui para a MPM SP juntar-me às feras da equipe de Sérgio Graciotti e Armando Mihanovich;
1978) Fui ganhar mais na Thompson, mas fiquei só 4 meses;
1978 bis) voltei para ganhar ainda mais na MPM SP;
1979) A convite do Sérgio Toni fui ganhar muuuuito mais na MPM RJ, mas logo fui despedido por me recusar a fazer a campanha do Gal. Figueiredo, após o curto diálogo que tive com o braço direito do Macedo, um dos M da MPM:
— Por que você se recusa a fazer a campanha do Figueiredo?
— Porque ele vai ser eleito de qualquer modo e eu fui educado por um pai de esquerda, não quero participar.
— Você é de esquerda, mas faz campanha para Hollywood, faz anúncio para Coca-Cola, qual é a diferença?
— A diferença é que gente fuma se quiser e bebe se quiser, mas o Figueiredo vai ser eleito quer queiramos quer não.
1980) O Montserrat, diretor criativo da Caio no Rio, muito gentilmente me convidou para cobrir as férias dele, depois o Alex me contratou para dirigir a criação da Alcântara Rio;
1981) A MPM RJ me chamou de volta com melhor salário;
1985) O Sérgio Toni me convidou para ser Diretor de Criação da Agência da Casa da Rede Globo;
1987) Aceitei uma boa proposta da Talent e voltei a Sampa;
1988) Fui à Europa passear, gastei muito, e quando comecei a escolher o prato pelo lado direito do cardápio resolvi pedir emprego na Thompson Lisboa, onde trabalhei até receber uma proposta melhor da Tele Montecarlo, um braço da Globo Sediado em Roma, onde passei os dois anos seguintes falando italiano, comendo pizza e curtindo o Bel Paese.
1991) O que é bom dura pouco, la bella vita era finita e
eu me vi de volta a Portugal e à Thompson Lisbonna,
onde trabalhei mais 19 anos, parte em Campo Grande,
(Mato Grosso do Sul) e depois em Londres, pioneiro
do teletrabalho, usando o antigo programa Net Meeting;
PS) Aposentado, passei escrever ficção e escrevi um
romance, “Sangue Bom”, no Prêmio Sesc de Literatura
de 2008, onde ele foi um dos finalistas, apelo suficiente
para que a Editora Prumo, subsidiária da Rocco, fizesse
a impressão. O lançamento foi feito em 2011 na Livraria
Cultura da Paulista na presença de muitos amigos, alguns
por aqui, e já escrevi outros quatro, um destes publicado
em papel e os demais como e-books, à venda na Amazon.