Neil Ferreira era de ferro?
Para começar recomendo anotar os nomes dos craques que jogavam futebol nos majestosos salões da Norton Publicidade na hora do expediente em pleno reinado dos Subversivos durante o ano de 1968. No gol, Kélio Rodrigues, o Mussula. No meio do campo, a dupla Pedro Rocha e Ademir da Guia, respectivamente Neil Ferreira e José Fontoura da Costa, também conhecido como the old fox. Jarbas de Sousa que era um pé de pau foi coerentemente batizado de Paraná. No ataque, preparem-se: Eu, Leivinha, o ligeirinho. E o mais perigoso de todos, ele Tostão, ou seja, Carlos Wagner Gomes de Morais que a torcida batizara de cegueta. Certa vez, o dono do campo, Dr. Geraldo Alonso, adentrando ao gramado deu cartão vermelho para todos e se pôs a furar a bola provocando altas gargalhadas porque a bola era de pano e papelão. O clima não era de subversão, era mais “meninos levados gazeando a aula”. Tanto é que logo após o cartola Geraldão virar as costas, Neil se apressava em devolver a pelota para os atletas da insubmissão.
Agora falando sério: Neil Haddad escalou cordilheiras para galgar ao posto do publicitário mais completo das plagas brasilianas. Ele era um vespeiro que atirava chumbo explosivo e bagas de mel na originalidade e na modernidade.
Frequentei sua cobertura localizada no bairro Santa Cecília. A noite era curta para tanta conversa. Nossa amizade teve intervalos. Mas por fim nos encontramos na DPZ no andar da letra Z. Dividimos uma coincidência. Neil vivendo na Granja Viana e eu arrumando as coisas para morar no Sítio das Cachoeiras. Se estivesse ainda entre nós, Neil também haveria de ter tirado a carteirinha do clube dos oitentontos. O que na verdade é um disfarce. Pois haja felicidade em vestir a touca da sabedoria e da formosura da saudade.
Marcius Cortez
Aos 7 anos, quando morava em Natal, inventei um jornal que se resumia a uma página de caderno que eu colava na parede da sala de visitas. Escrito à mão, o nome do pasquim era A Família.
Essa brincadeira virou profissão. Pois logo fui contratado como repórter do Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio.
Certo dia, através de um tio, crítico de cinema, fiquei sabendo que Paulo Freire procurava um redator para trabalhar no Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife.
Posso dizer que essa foi a maior sorte da minha vida. Mas infelizmente o sonho acabou com o Golpe de 64. Fui preso, respondi a processo e o escambau.
Arribei para São Paulo. E já em 1965, pela mão do poeta Mário Chamie, fui contratado como redator da Panam. Trabalhei em várias agências como redator e diretor de criação.
Hoje guardo com carinho as lembranças da minha vida de publicituto. Ganhei uma cristaleira de medalhas e Leões. Como dizia Roberto Duailibi, faturava um nababesco salário. Destaco como outra grande recompensa o fato de ter me tornado amigo de Neil Ferreira. Entre outras coisas em comum a gente sonhava em morar na “roça”. Neil escolheu a Granja Viana e eu o sítio das cachoeiras em Piedade.
Hoje vivo feliz na companhia de Leda Orsi, minha mulher e da cachorrinha Lolla Catarina Primeira. Tá bom demaaaais! Aproveito o privilégio para ler e escrever minhas barbaridades. Publiquei livros. Um deles, “O Golpe na Alma”, cujo personagem principal é o educador Paulo Freire. Certo dia inventei de publicar um livro para oferecer aos amigos. Daí nasceu “Barbaridades Críticas” pois barbaridades por barbaridades, eu prefiro as minhas.
Tenho todo o tempo do mundo para usufruir da imensidão do silêncio. Sou passageiro das asas do facebook onde dou meus pitacos. Agora dá licença que o Hermes Ursini me encomendou um texto sobre o vulcão Neil Ferreira que dava uma de ferro, mas a sua maneira era um amor de pessoa.