O Jatão da Sadia, campanha gestada num taxi a caminho de Congonhas com 14 anúncios que nunca chegaram a ser sequer apresentados.
Foi uma beleza ter estado na Norton no período dos Subversivos comandados pelo Neil.
Todo mundo conhece de sobra o conceito em que são tidos dois lados que vivem às turras: a criação e o atendimento.
Os criativos tidos e havidos como donos da verdade, suas obras imexíveis, Deus te livre que alguém falasse um A a respeito de uma de suas sacadas. E se o A viesse de alguém do atendimento, era pecado mortal, razão para tempestades.
Uma vez o dr. Geraldo estava na criação e o Neil, daquele jeito seu, pediu para o mandachuva da Norton colocar um mata-burro na porta da criação “para nenhum contato entrar no pedaço”. O dr. Geraldo, que não era burro nem nada, respondeu na lata: “Se puser um mata-burro aí, como é que vocês vão sair daqui?”
Eu era, justamente, o responsável por um grupo de atendimento, mas o nosso relacionamento, eu e o Neil, foi sempre 100% cordial e de recíproco respeito. Apesar das brincadeiras de que ninguém escapava. Já naquela época (1967) careca, com óculos aro de tartaruga, o Neil nem teve dúvida em me arrumar um apelido: Juca Pato*…
Uma das minhas contas era da Sadia e o interlocutor nosso no cliente era outra figura mitológica no mercado. Omar Fontana, grandalhão, falador, comandante de jatos, esse sim um dono da verdade quando o assunto era aviação.
A Transbrasil ainda não era Transbrasil e sim Sadia Transportes Aéreos, sede em Congonhas, rotas percorridas por humildes turbo hélices Dart Herald.
Quando a Sadia, finalmente, conseguiu seu primeiro jato, um One Eleven, que não era exatamente o jato mais prestigiado do mercado, o desafio era transformá-lo num super avião.
A criação da Norton trabalhou muito, a campanha ficou pronta, sem que o atendimento tivesse sido chamado para opinar.
Estávamos de saída para a apresentação e não tive dúvida: pedi para ver a campanha, afinal quem tinha feito o briefing tinha sido eu.
Instantes depois o Neil veio para a minha sala com os 14 ou 15 layouts – naquele tempo em que não havia a moleza proporcionada pela informática, era um pacotaço de pranchas de cartão que fomos percorrendo, o Neil e eu, para no fim eu cumprimentá-lo pelo trabalho, mas com um problema: a criação tinha se empolgado com a campanha do One Eleven e não tinha nem pensado na outra campanha, a dos Dart Heralds.
Eu relembrei ao Neil, desta forma. que eram duas campanhas, a do jatinho e a do jatão.
O Neil engoliu em seco, disse apenas que se justificaria e fomos para Congonhas.
Lá, numa das pontas de uma gigantesca mesa, o Omar Fontana com aquele jeito dele, como que desafiando a agência. Na outra longínqua ponta, o Neil e seus 14 ou 15 layouts.
Silêncio total, Neil com a palavra.
Mais um pouco de silêncio.
Em, seguida, Neil começou a explicar que a agência tinha trabalhado muito, tinha produzido coisas maravilhosas, e em lugar de começar a exibição dos layouts, pegou todas as 14 ou 15 maravilhas e jogou tudo no chão:
“Quer saber, Omar? Está tudo errado”
Abaixou-se, pegou um dos layouts, virou-o ao contrário e com um lápis indicou:
“Sua campanha, Omar, vai ser assim: Aqui vamos colocar uma enorme fotografia do seu aviãozão. Em cima, só um título: O Jatão.”
Alguns segundos de silêncio, o vozeirão do Omar: “Beleza! É isso ai! “
Alívio geral.
A campanha dos jatinhos ficou para outro dia.
A do Jatão, imaginada, criada, apresentação pensada dentro de um taxi no caminho da agência até Congonhas, um sucesso.
* Benedito Carneiro Bastos Barreto, mais conhecido como Belmonte foi um caricaturista, pintor, cartunista, cronista, escritor e ilustrador brasileiro. Foi o criador da personagem “Juca Pato”: careca “por tanto levar na cabeça”, cujo lema era “podia ser pior”.
José Carlos Stabel
Cruzei com o Neil no tempo da boa Norton, quando o Geraldo pai era vivo, de 1969 a 1972. Tempo dos Subversivos. Tempo de campanhas com tutano, oposto do que se vê atualmente na internet e na mídia tradicional.
Foi bom.
Cheguei à Norton provavelmente no mesmo dia em que lá chegavam Neil e sua turma, inclusive o José Fontoura da Costa. Ficamos amigos no tempo em que éramos jornalistas na Ultima Hora. E ficamos amigos para sempre.
Sai para me associar à Lage Dammann & Stabel – dei muita sorte, a agência no ano seguinte foi eleita a Agência do Ano e foram 18 anos muito bem vividos.
Deus me livre ficar aqui exibindo cada passo de uma carreira que ainda não terminou apesar de eu já ter ultrapassado a fronteira dos 90.
Hoje sou associado a uma consultoria de marketing – a Percepta – Marketing, Comportamento.
Tenho saudade do tempo em que as agências de propaganda ainda não tinham se transformado nisso que se vê agora.