Neil Ferreira é uma força da natureza, bigger than life, como dizem os gringos. Foi uma luz que iluminou meus caminhos pessoais, culturais e  profissionais. Uma influência poderosa, decisiva, em uma fase que define o que seremos na vida.

No começo dos anos 70, ele me acolheu na Norton Publicidade. A equipe de criação, Os Subversivos, já estava completa, incluindo os estagiários, rigorosamente escolhidos por ele.

Cheguei tarde, mas o Neil gostou da minha conversa e me arrumou um cantinho, na biblioteca.

Ele me passava alguns jobs sem importância que eu tentava resolver do meu jeito, isolado de toda a equipe. Pouco a pouco fui despertando o interesse dele, com abordagens curiosas, inesperadas, fora do padrão publicitário.

Uns 6 meses depois, ele me chamou e disse que 3 idéias minhas já tinham sido publicadas e que eu merecia um salário. Como a equipe estava completa, ele iria me indicar para lugares que estavam precisando de redator.

Apresentei meu magro portfólio e tive proposta das 3 agências indicadas. Certamente, mais por conta de quem me recomendava do que pelo meu incipiente talento. Foi com este empurrão do Neil que abandonei o curso de administração na GV (um drop out) e comecei minha carreira de publicitário que durou 43 anos.
 
Em 72, o Neil foi para a P.A. Nascimento e me levou como único redator contratado por ele.

Almoçávamos quase todos os dias no Arroz de Ouro, um restaurante macrobiótico e, pelo menos uma vez por semana, ele me convidava para ir na casa dele. Foi assim que conheci a Eliana, sua namorada, uma moça simpática, inteligente e muito bonita que era redatora da Veja. Ficávamos conversando até altas horas, sentados em almofadas espalhadas pelo chão.

Eles falavam da poesia de Bob Dylan, do novo jornalismo do Gay Talese, das denúncias contra a insegurança dos automóveis e da perversidade da indústria do tabaco feitas pelo  corajoso advogado Ralph Nader, enquanto eu fumava um baseado e eles se divertiam com meus devaneios.

Foi assim que me tornei o Tião Cannabis, alcunha adotada pelo Neil até nas fichas técnicas divulgadas na coluna Asterisco, do Armando Ferrentini. Isso, no auge da repressão do regime militar.

Mais de 20 anos e muitas agências depois, fui contratado pelo Murilo Felisberto na DPZ, que dirigia a criação no andar do Roberto Duailibi, toda formada por jovens que, sem exceção, se tornaram publicitários famosos no Brasil e no exterior.

Tião  Bernardi

Até as 18:00h, o Murilo impunha um clima austero, ninguém dava um pio. Eu, único veterano, me enquadrava totalmente no esquema.

Foi então que eu soube que o Zaragoza tinha contratado o Neil de volta para a sua equipe. O Neil e o Murilo eram amigos da época em que os dois eram jornalistas. O Neil veio logo cedo falar com o Murilo, ficaram conversando um tempão e, quando o Murilo apresentou o Neil para a equipe, ele me viu e bradou , para espanto da garotada: TIÃO CANNABIS! O que você tá fazendo aqui?

Era o Neil de sempre, irreverente, incontrolável, independente. Inesquecível.

Obrigado por tudo, Neil Ferreira!

Tião Bernardi tem 74 anos.
Foi redator naProeme, na P.A. Nascimento, na Lintas, na Almap, na DPZ entre outras.

Diretor de criação na Talent Biz e na Carillo Pastore Euro RSCG. VP de criação na Young & e Rubicam e na Publicis.

Eleito várias vezes como jurado e duas vezes como vice-presidente do Clube de Criação de São Paulo.