Neil Ferreira: um presente.
Quando fui cutucado pra escrever aqui, a primeira coisa que me veio à cabeça foi um anúncio que vi num jornal.
O título era: “Senhor Prefeito: vamos falar de um assunto feio, sujo e fedido: a feira da minha rua”. (agora vi o anúncio neste site e é bem melhor que isso).
Estava assinado por Neil Ferreira.
Nessa hora senti que para ter alguma chance na profissão, eu tinha que conhecer esse Neil e pedir pra ele me ensinar a escrever daquele jeito.
Estava no primeiro ano da ESPM e começava a trabalhar num pequeno estúdio de criação para pequenas agências (décadas depois isso virou moda).
Na cara dura, liguei para a PA Nascimento, ele me atendeu, marcou dia e hora.
E lá fui eu, sem nada nas mãos, mas com um frio danado na barriga: imaginava um senhor sério, formal, convencional, professoral. Por isso caprichei na roupa, todo pomposo no único paletó que eu tinha.
Fui recebido por um cara com cara de moleque, que me tratou como um igual, um colega pra trocar ideias, não como um novato que mal sabia onde estava entrando. Não me deu conselhos de graça, mas me provocou o tempo todo, me fazendo pensar na profissão, na carreira, na vida.
E quando ia saindo ele gritou lá da porta da sua sala, rindo: “Da próxima vez não precisa vir vestido de atendimento, tá legal?” Adotei o Neil como meu pai.
Abre parêntese. (lá no meu começo, escolhi outro pai também: Hans Dammann. Cada um no seu estilo, cada um do seu jeito. Um, raciocínio puro. O outro, intuição na veia. Com orgulho e agradecimento, aos mestres, com carinho). Fecha parêntese.
Daí em diante, não importa onde eu estava nem onde o Neil estava, nunca larguei dele. Foram muitas e muitas vezes que me atendeu, olhou e nem sempre gostou dos meus trabalhos, mas sempre dedicou tempo e talento pra me provocar, que ele era muito bom nisso: fazer pensar.
Um dia, numa dessas conversas, em busca de uma receita, uma fórmula mágica para entender o critério de avaliar uma campanha como boa ou ruim, mas tentando disfarçar pra não ser tão ostensivo, perguntei alguma coisa assim:
“Se você tivesse o poder de criar regras de propaganda, para só ter coisas boas, o que você faria?”.
A resposta veio seca, parecia que ele esperava essa pergunta: “Isso seria uma atitude de censor ou de ditador. E eu sou totalmente contra qualquer coisa desse tipo. E me preocupa um cara novo como você pensar alguma coisa assim.”
Morri de vergonha da burrice da minha pergunta. E aprendi que, se quiser saber alguma coisa, seja objetivo, não tente parecer inteligente. Assuma a sua ignorância no assunto que fica mais fácil.
Wagner Fornel
O Neil nunca me contratou. Mas um belo dia, eu na Salles, saída do Domingos Logullo, o improvável acontece: lá chega ele, o novo VP de Criação.
De novo o frio na barriga. Eu disse alguma coisa assim: “Hora de retribuir um pouco do que aprendi com você”. Ele respondeu alguma coisa assim: “Eu nunca ensinei nada pra ninguém. Só te dei uma bússola de presente.”
E tratava todo mundo como um igual, um colega, um amigo pra trocar ideias,
não como um bando de novatos que, comparando com ele, todos eram.
PS: de todas as agências que já trabalhei, a mais marcante, pessoal e profissionalmente, foi a então Lage, Dammann & Stabel, a agência dos sonhos da minha geração. Foram quase 10 anos fazendo dupla com a Magy Imoberdorf, que já tinha trabalhado com o Neil.
Com a saída do Hans da agência, quando a ideia não vinha e a coisa complicava, eu e a Magy inventamos um exercício divertido para desbloquear:
“Como o Hans faria isso? E o Neil?” E a gente tentava.
Isso é pra dizer que o que é bom vive pra sempre.
Wagner Fornel.
Uma espécie de linha do tempo.
Redator desde lá atrás, em várias agências que a época consagrou e o tempo levou.
Por exemplo, McCann-Erickson e, tempos depois, GGK: essa aí virou W/GGK, se juntou com aquela primeira e hoje é a W/McCann.
Trabalhei em outras duas, a Norton e a Salles: aí elas se juntaram e hoje é a Publicis Brasil.
Teve mais: por 10 anos, na Lage, Dammann & Stabel, depois Lage,Magy, que depois se juntou com a Talent e hoje tudo isso aí é a Talent Marcel.
A Denison, do grupo Ogilvy, que está aí até hoje (a Ogilvy, não a Denison). A Heads, em Curitiba, que hoje é Brivia Group. A Pública, agência de marketing político associada à Calia, agência de propaganda: eu jogava nas duas.
E fora agências, teve o marketing da SECOM do Governo de São Paulo, por 4 anos. E a Prefeitura de Barretos, como Secretário de Comunicação.
Hoje estou na Nacional Comunicação.
Mas de tudo isso, o que importa é o que ficou, os trabalhos, os resultados, os prêmios e, principalmente, as pessoas que fazem parte até hoje da minha vida.