“Querida”,”Jorgete”,
esses eram alguns dos termos carinhosos com os quais ele me chamava. Pra falar do Neil preciso contar um pouco da minha relação com ele nos 14 anos que dividimos o 6°andar da DPZ.
Em 1977 eu, com apenas dezessete anos, resolvi levar meu portfólio para o Zaragoza.ver. Depois de um mês de tentativa, entre marca e desmarca entrevista, Maria José a “poderosa” secretária, muito educada, dizia que “eles” tinham ido para o Rio de Janeiro levar uma campanha, que o Zaragoza não tinha voltado do Guarujá , etc , etc, etc. Até que, finalmente, acabei sendo recebido pela maior dupla que a propaganda já criou: José Zaragoza e Neil Ferreira.
Zaragoza amou meu trabalho de cara. Eu havia feito algumas produções para o fotógrafo Luiz Tripolli, outro super star da época.
Modéstia à parte, tenho uma caligrafia muito boa, e na época o Zaragoza estava criando a Papier , uma papelaria maravilhosa, com cartões personalizados, enfim era a mais chic do mercado. A única!
Um caderno com uns layouts da moda, perfumes , uns desenhos a lápis… Ele foi vendo um por um e pediu para que o Neil desse uma olhada. O Neil também olhou um por um, me encarando sem falar nada, só olhava pra mim e para o portfólio. E aí ele sai com essa: “Zara temos que mandar atropelar esse cara!” Na hora quis morrer, depois vim entender o significado. Estava contratado!
Minha felicidade foi enorme . Não esperava isso, muito menos ser assistente pessoal do Zaragoza.
Aí, meu mundo mudou do dia pra noite. Ver como eles trabalhavam era uma escola! Neil recebia o Briefing , (e havia muitos na sua mesa), e daí a mágica começava. O Zaragoza já pedia para que eu, a partir de um “rough” encontrasse uma foto na biblioteca do 7°andar que traduzisse aquele desenho feito com caneta futura, com pincel mergulhado na água… . Depois a foto, montada num papel , pedia os guaches e as anilinas. E a mágica se tornava real, transformando totalmente a imagem, criando um layout espetacular. Depois vinham o título e o texto do Neil . Muitas vezes o Zaragoza pedia para diminuir ou aumentar, para que o layout saísse do jeito que ele queria. O Neil ficava puto, mas obedecia ao “mestre” como ele o chamava (às vezes, para os mais íntimos, de “a veia”.)
Ano após ano, foram sendo criadas as campanhas mais ousadas da propaganda brasileira. Comecei a me destacar nas contas com as quais eu mais me identificava. Sempre com muito sexo nas entrelinhas.
Equipe DPZ
Para Hering, por exemplo, a linha de underwear, os modelos estavam com ereção!!! Para o café Caboclo , o “Caboclinho gostoso” , um modelo super sensual. Para toalhas Artex, um grupo de homens lindos numa sauna. E para concluir, a campanha para a perfumaria Rastro “contatos irresistíveis de 1º, 2º ou qualquer outro grau”. Homem com homem, mulher com mulher, filho e mãe, (eu fui o filho Édipo, e Jocasta a Karen Rodrigues).A campanha era tão grande e tão luxuosa que foi parar no Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Um escândalo! Eu escolhia tudo: o cenário, os modelos, os figurinos, as locações. Tinha carta branca, pois eles confiavam em mim. E o Neil amava, pois estava vendo as suas criações saindo da sua cabeça para a Olivetti, de um jeito esplendoroso. . Eram as criações com as quais eles mais se divertiam, pois os demais clientes eram de um perfil mais austero: Receita Federal, Telesp, Johnson & Johnson, etc.
Era um prazer ir trabalhar das 8 da manhã, até sabe-se lá que horas , pois não dava vontade de fazer mais nada a não ser esperar para comemorar com fogos e muita champagne a aprovação das campanhas, 90% delas eram.
Foram anos maravilhosos que passamos juntos. Saí da DPZ para, junto com minha irmã Loly , (a “cunhada” como ele carinhosamente a chamava), criar a Trash Chic , a qual tenho até hoje. Um Second Hand de luxo, muito antes dessa febre de consumo inconsciente. Ela existe há 30 anos e agora o destino me trouxe de volta onde tudo começou, na Rua Gumercindo Saraiva. Onde Infelizmente existia o prédio da DPZ, que foi demolido para dar lugar a um complexo imobiliário de alto padrão.
A DPZ foi um luxo pra mim. Devo muito ao Neil por esses 14 anos que convivemos diariamente. Eram outros tempos. Maravilhosos!A última vez que vi o Neil foi no seu velório. Não pude deixar de falar,
– Querida vou sentir saudades!