NEIL, UM GENIAL PAPO
Quem tem uns aninhos a mais do que 30 vai se lembrar do baixinho da Kaiser, com seu boné, indo ao banheiro, vivendo situações engraçadas sob o refrão: a Kayser é uma grande cerveja. Muitos devem se lembrar do Leão do Imposto de Renda, com sua bocarra, sugerindo ameaças a quem se dispunha a driblar a receita federal. Pois não é que o leão passou a ser sinônimo de Imposto de Renda, segundo os dicionaristas e, também a Academia Brasileira de Letras?
Foram muitas as campanhas que mexeram com a alma brasileira nos idos de 70 e 80. Lembro, ainda, a campanha da morte do orelhão, que tratava do vandalismo da época, que destruía os aparelhos fincados nas ruas. Que imagem forte…
Pois bem, tempos depois, fui apresentado ao “gênio”, o criador das famosas campanhas que ainda hoje mexem com nosso sistema cognitivo. Um amigo comum, Luiz Cassino, nos reuniu em sua pequena agência para um longo papo em torno de uma junta médica: o velho dr. Old Parr, o escurinho dr. Johnnie Walker Black e o dr. Buchanas, 18 anos, o mais denso. Cassino me apresentava o cidadão de Cerqueira César, no interior de São Paulo, conhecido como Neil Ferreira. Depois desse primeiro encontro, outros ocorreriam, sempre bem acompanhados por bons tragos ou por iguarias do The Place, na Haddock Lobo, de Eduardo Inácio, cliente do Luiz.
No animado papo com Neil, se faziam presentes a ácida crítica contra as instituições de Estado, chistes e historinhas hilárias, e um discurso indignado contra “valores” do status quo. Era um inconformado, demonstrando, em certos momentos, uma dose amarga.
Certa feita, chamei Luiz Cassino para parceria numa campanha política em um Estado do centro-oeste. Campanha de candidato a governador. Ele acionou Neil, a essa altura, fazendo free-lancer em sua casa-chácara em Itapecerica da Serra. Uma criativa campanha de marketing político. Até hoje elogiada pelo candidato, hoje senador. Neil captava bem o “briefing”.
Um exemplo de bom amigo e papo sempre compensador. Seu parceiro na DPZ, Zaragoza, m dos donos, ao lado de Roberto Dualibi e Francesc Petit, depois de Neil ter saído da agência, publicou nos jornais um anúncio com essa provocação: “Neil, queridinho, volte pra casa. Tudo está perdoado. Z.”
O fato é que Neil Ferreira, com seu recorde de prêmios, foi um monstro sagrado da publicidade brasileira. E como faz falta….
Gaudêncio Torquato
Escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político, orgulha-se de ter sido amigo de Neil.