Texto para o Hall da Fama do 24° Anuário de Criação (2012)
Eu: Neil, você foi escolhido para o Hall da Fama do Anuário. Você se sente homenageado ou ofendido?
Neil: Ha ha ha… Eu só quero saber uma coisa: quanto vocês vão me cobrar pra eu aparecer nisso aí?
É a primeira vez que falo com Neil Ferreira. Já trabalhei durante dois anos um andar abaixo dele, na DPZ, mas nas três vezes em que subi a escada entre o 5° e o 6º, ele não estava. Ou eu não tive coragem de chegar perto da mesa dele, sei lá. Doze anos depois, são 30 km a separar a agência em que eu trabalho do escritório que Neil mantém em sua linda casa, na Granja Viana, onde mora com a primeira mulher e a segunda filha (o filho mais velho ocupa um antigo “aparelho” dos tempos de solteiro, em Santa Cecília).
À primeira vista, Neil me parece insuportavelmente bem-sucedido. Alarmantemente em forma. Terrivelmente bronzeado. Assustadoramente feliz. Pronto para estrelar um comercial de Molico de bem com a vida, dirigido pelo Dodi (só para continuar num patamar Hall da Fama). Nas quatro horas seguintes, infelizmente, não consigo perceber nada que me desfaça essa impressão. Neil Ferreira não apenas chegou lá; Neil Ferreira continua lá.
Nós é que, entretidos na leitura da última Archive ou passando mais uma noite com o Photoshop, esquecemos que existe vida além daquilo que sai no Bluebus.
“Você viu alguma das versões de ‘Drácula’?”, ele me pergunta, na primeira de uma série de questões que vão denunciar o meu analfabetismo cinematográfico. “Não é um filme de horror, nem um filme erótico. “Drácula’ é um filme sobre o tédio da imortalidade. A vida eterna é um saco. Às vezes eu sinto isso, quando passo na rua e vejo um outdoor com um título que eu já fiz há 20 anos.”
Oba, salivei com meus botões: aí vem chumbo. Mas não. Tento pôr na roda perguntas venenosas para ver se ele manda alguns petardos letais, mas tudo o que recebo de volta são cápsulas de sabedoria e sensatez. Não, a nossa geração não inventou nada – anúncios fantasmas, jurados que advogam em causa própria, agências que perseguem outras em festivais, tudo isso é mais antigo do que querer aparecer na ficha técnica.
O que mudou é talvez tenhamos perdido a capacidade de reverenciar aqueles que nos abriram o caminho. “Ninguém é filho de chocadeira nessa profissão”, ouço, anoto e concordo. “A minha geração deve muito a Júlio Cosi e Alex Periscinoto, que nos revelaram a DDB, os anuários, que nos ensinaram onde aprender a fazer bons anúncios.”
No início dos anos 60, Neil era jornalista começandinho na Folha. Ao redor, só feras. “Eu via aqueles caras lá, aqueles monstros, e sabia como eu ia ficar dez vinte anos depois.” Neil cumpriu seu destino de virar um monstro, mas não em jornalismo: em publicidade. “Naquela época não era como hoje, que existem 10 agências contratando 100 redatores. Naquela época, eram 10 agências contratando 3 redatores. Os caras mudavam de emprego toda semana, dobravam o salário todo dia.” O Golpe de 64 pegou Neil já como publicitário. Instaurou-se o Al-5, e enquanto o Estadão publicava Camões, e o Jornal da Tarde, receitas de bolo, Neil escreveu um anúncio com a foto da equipe de criação da Norton: “Os Subversivos”. A revista teve que ser recolhida das bancas. Outra célebre provocação política veio num anúncio cujo título dizia: “Senhor Prefeito Figueiredo Ferraz, hoje vamos falar de uma coisa muito feia, suja e que não cheira nada bem: a feira da minha rua”. É bom lembrar que naquele tempo não existia o CONAR, era Doi-Codi mesmo.
Bem antes de o Brasil ter pretensões em Cannes, Neil criou uma obra-prima de minimalismo. Um filme de 15 segundos para o óleo de milho Pérola, que começava com um close na embalagem e um “pin pin pin” irritante e metálico ao fundo, até revelar que se tratava de uma galinha bicando a lata de óleo de milho – possibilitando os bilhões de imitações subseqüentes envolvendo o relacionamento entre animais ou insetos e embalagens industrializadas.
O clássico comercial do garotinho loiro com uma venda nos olhos, que passa o dedo em diversas peças de presunto (“esse não! Tá querendo me enganar é? “)até achar o legítimo Sadia, porque é o único que vem com o nome em alto-relevo, ficou dez anos no ar. E rendeu a Neil este comentário de Atílio Fontana: “esse filme me fez construir três fábricas”.
Hydra, a válvula silenciosa. A morte do orelhão da Telesp. A chegada do telefone a Rifaina. O Leão do Imposto de Renda. O baixinho da Kaiser (viu como se pode falar muito sobre uma pessoa em apenas duas linhas?).
Na edição especial do Meio & Mensagem sobre os 100 anos da publicidade brasileira, a década de 80 foi ilustrada por três peças. Duas eram by Neil: a morte do orelhão e o Leão do Imposto de Renda (a terceira era “O primeiro sutia”). Só trabalhos memoráveis, que entraram para a cultura popular brasileira.
Daí você virava a página, e a década de 90 era representada por peças que só foram veiculadas em festivais – nada que tenha ficado na memória de uma dona de casa, a não ser que ela seja mãe de algum dos autores.
O que nos traz ao grande paradoxo deste Hall da Fama: o Anuário homenageando alguém; Neil Ferreira – que não precisa do Anuário para ter seu trabalho lembrado (ou você acha vão deixar de chamar o imposto de “Leão” neste país?). Prêmios, Neil levou todos.Mas nenhum tão valioso quanto um tijolinho que José Zaragoza mandou publicar logo depois de uma saída intempestiva da DPZ.NEIL QUERIDINHO: VOLTE PRÁ CASA. TUDO ESTÁ PERDOADO.
Voltar para casa era tudo o que Neil vinha acalentando há anos. E apesar de se sentir em casa na DPZ (e falar com Zaragoza diariamente), a casa para onde Neil queria voltar era a da Granja Viana mesmo, onde instalou seu agradabilíssimo “home office”. Hoje, Neil se define como um “free lance” que atua “na periferia” da publicidade.
Como “periferia”, leia-se o poderoso grupo Arisco, pedra no sapato de todas as multinacionais que atuam nos setores de alimentação e limpeza. Quietinho,
quietinho, Neil criou uma categoria de produto (o “caldo de galinha caipira”) para fazer estrago na guerra entre a Galinha Azul da Maggi e a Galinha da Knorr.
Sugeriu que Xuxa fosse usada na comunicação da Arisco na Argentina, e hoje a Arisco é a segunda marca brasileira mais conhecida no Mercosul. Apelidou o miojo da Arisco de “MacArrão”, colocou o comercial no ar na sexta-feira, e até o McDonald ‘s entrar no CONAR, no início da semana, o produto já era um sucesso indestrutível. Ou seja: eu, que fui até a Granja Viana para fazer a crônica da aposentadoria próspera e ensolarada de Neil Ferreira, me ferrei.
Porque Neil Ferreira não se aposentou. Neil Ferreira apenas decidiu trabalhar numa agência onde todas as pessoas são tão inteligentes, cultas e articuladas como Neil Ferreira.
Se eu ficasse mais um pouquinho, pedia um estágio.